quinta-feira, julho 20, 2017

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DESINTOXICAÇÃO RELIGIOSA PARTE II | Bispo Hermes Fernandes

quarta-feira, julho 19, 2017

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Para quem se acha a última bolacha do pacote



Por Hermes C. Fernandes

Jesus havia sido convidado para visitar a casa de um dos principais dos fariseus e percebeu entre os demais convidados uma disputa pelos primeiros lugares. Não querendo desperdiçar a oportunidade de dar-lhes uma lição, contou-lhes duas parábolas. Na primeira parábola, Jesus se dirige aos que são convidados, na segunda, Ele adverte aos que convidam. Sobra para todo mundo.

Observe a advertência feita aos que são convidados:

“Quando alguém o convidar para um banquete de casamento, não ocupe o lugar de honra, pois pode ser que tenha sido convidado alguém de maior honra do que você. Se for assim, aquele que convidou os dois virá e lhe dirá: ‘Dê o lugar a este’. Então, humilhado, você precisará ocupar o lugar menos importante. Mas quando você for convidado, ocupe o lugar menos importante, de forma que, quando vier aquele que o convidou, diga-lhe: ‘Amigo, passe para um lugar mais importante’. Então você será honrado na presença de todos os convidados. Pois todo o que se exalta será humilhado, e o que se humilha será exaltado.”[1]

O que está em foco aqui não é propriamente o tal “lugar de honra”, mas o fato de nos darmos tanta importância. Sempre haverá alguém mais importante do que nós, e quem estabelece isso é quem nos inclui em sua lista de convidados. Não há como exigir que tenhamos a importância almejada na vida de ninguém. Cada um tem seus critérios na hora de averiguar a importância de alguém. Todavia, no que depender de nós, seremos sempre os mais importantes, os que merecem tratamento VIP.

Que importância temos na vida de alguém? Que lugar nos está reservado? Ainda que tenhamos alguma importância, certamente haverá quem tenha importância maior. Por isso, Jesus nos adverte a sermos menos presunçosos, ocupando lugares de menos prestígio na festa para a qual houvermos sido convidados. É melhor que sejamos chamados a darmos um UPGRADE, ocupando um lugar de honra que tenhamos ousado ocupar, do que sermos convidados a ceder o lugar a alguém considerado mais importante.

A tão cobiçada honra não deveria ser atribuída a quem dela faz questão, mas a quem jamais a pretendeu. Que ela seja tão somente o resultado da importância que alcançamos na vida de alguém por aquilo que representamos e não uma exigência. Quer ser importante na vida de alguém? Ocupe um lugar de serviço sem pretender ser honrado. Não busque reconhecimento. Apenas, ame.

Agora observe atentamente a advertência que Jesus dirige ao dono da festa:

“Então Jesus disse ao que o tinha convidado: "Quando você der um banquete ou jantar, não convide seus amigos, irmãos ou parentes, nem seus vizinhos ricos; se o fizer, eles poderão também, por sua vez, convidá-lo, e assim você será recompensado. Mas, quando der um banquete, convide os pobres, os aleijados, os mancos, e os cegos. Feliz será você, porque estes não têm como retribuir. A sua recompensa virá na ressurreição dos justos.”[2]

Jesus não está proibindo que se convide quem quer que seja. A lógica subjacente à orientação de Jesus diz respeito à motivação por trás do convite.

Qual a diferença entre convidar vizinhos ricos e convidar os pobres para a sua festa? Ambos não vão consumir da mesma maneira? Talvez o rico pareça ter bons modos, respeitando todas as regras de etiqueta. O pobre, por sua vez, não conhece tais normas. Talvez nem saiba vestir-se adequadamente para a ocasião. Mas o que Jesus pretendia não era nos impedir de convidar a quem quer que fosse, mas expor as motivações com que estabelecemos quem deve ou não ser convidado. Quais, afinal, os critérios que usamos para estabelecer o grau de importância de alguém em nossa vida? Por que alguns são incluídos, enquanto outros, excluídos de nossa lista?

Quando convidamos um rico, sabemos que eventualmente seremos convidados de volta, e assim, a importância que atribuímos a ele, ser-nos-á atribuída depois. Convidá-lo, coloca-nos na posição de credores, de benfeitores, ao passo que o coloca numa posição de devedor e beneficiário. Já o pobre, não terá como nos retribuir. Sua dívida de gratidão jamais poderá ser paga. Aqui subjaz a questão ressaltada por Jesus.

Nossa natureza está tão comprometida pelo pecado que até algo lindo como a gratidão torna-se num mecanismo de controle. Não há sensação que nos seja mais prazerosa do que a de que alguém nos deva um favor. E assim, ocupamos, na marra, um lugar de prestígio na vida do outro.

Por isso, adotamos o costume de agradecer o favor com a expressão “obrigado”.

Já parou para pensar no significado desta expressão? Ao dizer “obrigado” você está admitindo ter contraído uma dívida com quem lhe favoreceu. A expressão completa seria “Estou obrigado a retribuir-lhe o favor.”

Em vez disso, o que o evangelho nos propõe é uma relação onde não se busque qualquer vantagem. Não há lugar para contabilidade. Ninguém deve nada a quem quer que seja. Tudo deve ser feito graciosamente. Por isso, em vez de “obrigado”, deveríamos dizer “agradecido”. Só é agradecido quem admite ter sido agraciado. O que está em foco é a graça, isto é, uma favor imerecido, em que não se tenha a pretensão de cobrar.

Quem vive sob a égide da graça é capaz de desobrigar a todos quantos tenham sido agraciados por sua vida. Ninguém nos deve coisa algum. A lógica do "uma mão lava a outra" é substituída pela lógica do "não saiba a tua mão esquerda o que faz a tua direita." 

E um ótimo exercício para isso é fazer o que Jesus nos propõe nessa parábola. Convidemos justamente quem não nos possa retribuir o convite. Façamos o bem a quem não possa nos recompensar mais tarde. Sejamos despretensiosos. Que nossa recompensa seja tão-somente o bem daquele a quem amamos. 

Isso é libertador! Nossa gratidão passa a ser legítima, posto que é espontânea, não cobrada. Nossos gestos de amor passam a ser gratuitos como deveriam ser e não uma maneira de nos locupletar, dando-nos o direito de exigir retribuição. Passamos a amar por amar. Desistimos de impor compensação.

terça-feira, julho 18, 2017

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DESINTOXICAÇÃO RELIGIOSA

Mensagem ministrada na Igreja Betesda do Pastor Ricardo Gondim

quinta-feira, julho 13, 2017

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SERMÃO DO VALE



Por Hermes C. Fernandes

Infelizes os de espírito altivo, que se estribam em suas posses materiais adquiridas com a exploração e opressão dos mais pobres. Suas riquezas se apodrecerão. Sua soberba se desvanecerá.

Infeliz é quem não se condói da dor alheia, porque não haverá quem se condoa de sua própria dor.

Infelizes são os que fazem questão de tudo, pois a sepultura será sua única herança.

Infeliz quem se apetece da injustiça, pois nunca se dará por satisfeito.

Infelizes os intolerantes, pois a intolerância os alcançará.

Infelizes os que sonegam misericórdia aos misericordiosos.

Infelizes os de coração sujo, pois sua maldade os impedirá de ver a Deus em seus semelhantes.

Infelizes os que atiçam uns contra os outros, pois terminarão seus dias sem ninguém que os defenda nem quem almeje sua companhia.

Infelizes os que promovem o sofrimento de outros por causa de seus próprios interesses, porque lhes restará um mundo em escombros.

Infelizes são vocês quando difamam e perseguem e, mentindo, espalham todo o mal contra os outros por causa da inveja, da ganância e da vaidade.

segunda-feira, julho 10, 2017

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Ossos Expostos - O passo a passo do processo de restauração de tudo



Por Hermes C. Fernandes

"Aonde tenha sol, é pra lá que eu vou..." diz o refrão de uma das mais conhecidas canções da banda mineira Jota Quest. Seu estrondoso sucesso se deve ao fato de que todos queremos estar onde coisas boas acontecem. Sonhamos com cenários paradisíacos, onde impere a harmonia, reminiscências do jardim de onde nossos ancestrais foram excluídos. Todavia, vemo-nos inseridos numa realidade cruel, marcada pela injustiça e o desamor. Sentimo-nos deslocados e desolados. Definitivamente, não é este o lugar onde gostaríamos de estar. Assim como Davi, preferimos ser conduzidos aos pastos verdejantes e às águas tranquilas, mas nos esquecemos de que entre um e outros, às vezes fazemos escalas demoradas em vales nos quais se projeta a sombra da morte.

O profeta Ezequiel nos narra uma experiência mística em foi arrebatado pelo Espírito de Deus e colocado no meio de um vale cheio de ossos secos.[1] Não levando em conta o cenário de horror e o odor insuportável, Deus o fez andar ao redor dele.[2] Qualquer vista seria melhor que aquela. 

Qualquer lugar do mundo seria melhor para se estar do que aquele. Diferentemente de um cemitério onde restos mortais se escondem sob a terra, Ezequiel teve que caminhar entre ossos expostos na superfície do vale. Não deve ter sido tarefa fácil passear entre eles. Porém, era necessário para que pudesse constatar seu estado. Uma coisa é ouvir falar, outra bem diferente é averiguar uma situação com seus próprios olhos.

A primeira constatação feita por Ezequiel foi de caráter quantitativo. Os ossos eram numerosos. Não era algo pontual, mas generalizado. A segunda constatação foi de caráter qualitativo: os ossos estavam sequíssimos. O que indica que já estivessem ali há muito tempo. Não se tratava de algo recente, ocorrido subitamente. Mas de um fenômeno que demandou tempo para ser processado.  Um número tão grande de ossos não chegaria àquele estado de uma hora para outra.

Outro dado importante é que esses ossos estavam espalhados “sobre a face do vale”, isto é, expostos, e não enterrados como era de se esperar. O que sugere que não receberam as devidas honras, mas abandonados a relento. Possivelmente, aquele vale havia sido cenário de uma batalha épica que resultou na morte de milhares de soldados.

Sem entender direito a razão de haver sido transportado àquele lugar, o profeta ouve de Deus a inquietante pergunta: “Filho do homem, poderão viver estes ossos?” Nenhuma outra resposta parecia plausível senão a que deu: “Senhor Deus, tu o sabes.”[3] Ele não se atreveria a responder de maneira diferente. Às vezes, a melhor resposta é a admissão de nossa ignorância. Ninguém é obrigado a saber tudo. O único que conhece todas as respostas e possibilidades é Deus.

Longe de considerar aquela resposta evasiva, Deus lhe dá uma ordem para que profetizasse sobre aqueles ossos: “Ouvi a Palavra do Senhor!”

O que é capaz de mudar a realidade à nossa volta não é a nossa vontade, mas a Palavra do Senhor. Somente um Deus que não muda pode perfeitamente mudar todas as coisas. Não há quadro que se mostre irreversível ante a Sua soberana vontade. Todavia, Sua vontade é revelada em Sua Palavra, e esta, por sua vez, deve ser expressa por lábios que se disponibilizem a tal. Seus lábios são a fonte, os nossos são os canais. O que sai de Sua boca deve encontrar eco em nossa boca e em nosso coração.

“Assim diz o Senhor Deus a estes ossos.”[4] Deus não lança palavras ao vento. Sua Palavra é direcionada a uma situação em particular e não generalizada. “Farei entrar em vós o espírito, e vivereis”.  Logo de início, Ele revela o fim, o objetivo final daquela Palavra: gerar vida. Ele poderia ter feito isso num piscar de olhos, isto é, instantaneamente. Todavia, Deus prefere o processo. Para se alcançar o objetivo anunciado, faz-se necessário passar por várias etapas. Assim como a deterioração é um processo, a restauração também o é. Por isso, logo após anunciar o fim, Ele anuncia também cada etapa do processo desencadeado pela Sua Palavra:

“Porei nervos sobre vós...” [5]A restauração começa pela percepção. É através dos filamentos nervosos que nossos sentidos captam os dados fornecidos pela realidade e abastece nossa mente. Sem esta etapa do processo, tornamo-nos apáticos, alienados, completamente alheios ao que acontece à nossa volta.

“Farei crescer carne sobre vós...” A restauração passa pela disposição. Sem a força necessária, não podemos responder à altura as demandas da realidade que nos são transmitidas pela nossa percepção.

“E sobre vós estenderei pele.” Trata-se daquilo que se exterioriza, que é visto por todos, que sai da subjetividade em direção à objetividade: nossas ações!

Apesar de o fim ter sido anunciado desde o início, há um alvo para além do alvo, um objetivo que transcende o objetivo anunciado: “Então sabereis que eu sou o Senhor.” Trazer vida é o fim; produzir consciência é o fim para além do fim. Eu diria que este é o fim supremo.

 “Portanto”, declara Ezequiel, “profetizei como me foi ordenado. Enquanto eu profetizava houve um ruído, um barulho, e os ossos se ajuntaram, cada osso ao seu osso.” Assim como há um fim para além do fim, há um início antes mesmo do início. Há algo que precisa ocorrer para que o processo seja deflagrado. Cada osso deve encontrar o seu lugar junto a outro osso. Não surgirá pele sobre esqueletos sem carne. Não haverá carne sem que os filamentos nervosos estejam estendidos por toda a extensão do corpo. E não haverá nada disso sobre ossos desconjuntados.  Mas há um efeito colateral que trará certo desconforto aos que assistirem à cena: para que os ossos sejam reunidos, o barulho será inevitável.  E cá entre nós, costuma ser ensurdecedor. Se os ossos não estivessem expostos “na face do vale”, mas enterrados, certamente não haveria barulho. Porém, a dificuldade para que encontrassem seus respectivos encaixes seria ainda maior. Apesar do desconforto da exposição, às vezes ela acaba por facilitar o processo.

“Olhei, e vieram nervos sobre eles, e cresceu a carne, e estendeu-se a pele sobre eles, mas não havia neles espírito.” [6] Não basta que haja percepção, disposição e atitude se não houver propósito. O propósito produzirá a motivação necessária. O “espírito” é o que unifica todas as coisas e as coloca em perspectiva. O espírito é o agente revelador do propósito. Sem que haja espírito, não há consciência, sem que haja consciência, não há desígnio, não há propósito. Tudo ocorre à revelia, desprovido de qualquer sentido.

“Então ele me disse: Profetiza ao espírito; profetiza, ó filho do homem, e dize ao espírito: Assim diz o Senhor Deus: Vem dos quatro ventos, ó espírito, e assopra sobre estes mortos, para que vivam.”[7] O espírito vem de todas as direções para nos apontar uma direção específica.  Ele não vem de uma para nos apontar várias. Deus parte do Todo para as partes e não das partes para o Todo. Há um propósito maior que abarca todos os demais. O que Ele almeja fazer em nossa vida está diretamente ligado ao que Ele está fazendo na vida dos demais. Tudo se conecta perfeitamente, dentro de uma misteriosa sincronicidade.

Ao profetizar como Deus ordenara, e não como ele quisera, algo inacreditável ocorreu diante dos seus atentos olhos: “O espírito entrou neles e viveram, e se puseram em pé, um exército grande em extremo.”[8] Deus está trabalhando na constituição de Seu poderoso exército espalhado por toda a terra, infiltrado em todas as esferas sociais, pronto a atender às Suas ordens e a executar os Seus desígnios. O caos atual que nos desafia os sentidos está grávido da ordem e da harmonia próprias do Reino de Deus. Em breve, o insuportável odor da morte que empesta o mundo se dissolverá ante a fragrância do bom perfume do amor de Cristo. A vida prevalecerá sobre a morte. O bem sobre o mal. O amor sobre o ódio. A justiça sobre a iniquidade. Quem viver verá. Quem morrer reviverá para ver a glória de Deus. 




[1] Ezequiel 37:1-10
[2] Verso 2
[3] Verso 3
[4] Verso 5
[5] Verso 6
[6] Verso 8
[7] Verso 9
[8] Verso 10

quinta-feira, julho 06, 2017

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Não mais que de repente...



Por Hermes C. Fernandes 

De repente, você percebe que tem mais estrada para trás do que para frente e que alguns dos cenários que você visitou, jamais voltará a visitar.

De repente, você se dá conta de que não terá tempo para experimentar tudo o que gostaria, nem de ler todos os livros que deixou na fila de espera, nem de escrever tudo o que já foi gestado em sua imaginação.

De repente, você descobre que não sabe tanto quanto achava saber e que nem sempre tem disposição para aprender.

De repente, você percebe que nem é tão importante quanto julgava ser e que algumas pessoas simplesmente lhe esquecerão tão logo você se afaste delas.

De repente, você percebe que na vida de alguns, você é apenas um coadjuvante, e que na vida de outros, apenas um figurante, e que na vida de alguns, nem mesmo isso. Algumas vezes, terá que se contentar com o papel de vilão. De uma coisa você pode estar certo: você nunca será uma unanimidade. Mas caberá a você assumir o papel de protagonista de sua própria história.

De repente, você se dá conta de que a sua felicidade poderia custar a infelicidade de outros, que toda escolha implica uma renúncia, mas também uma conquista.

De repente, você descobre que não é mais o ídolo dos seus filhos, desde que o andor balançou e perceberam que o seu herói não passa de um boneco de barro que facilmente se espatifa no chão. O que lhe consola é saber que isso faz parte do processo de amadurecimento pelo qual você mesmo passou com relação aos seus pais.

De repente, você conclui que a vida não deve ser levada tão a sério, mas encarada com mais leveza, sem jamais perder a esperança de ser feliz, buscando, ao mesmo tempo, facilitar a felicidade dos demais.

De repente, você aprende a se contentar e a ser grato com o que tem, sem precisar ficar comparando com os que outros conquistaram.

De repente, você aprende que não vale a pena se apegar a coisa alguma, pois entende que isso lhe preparará para seu último ato de rendição e entrega, o da própria vida no momento derradeiro.

De repente, você percebe que o que te encanta, nem sempre é o que encanta os outros e que cada um enxerga a vida com a cores de seu próprio coração.

De repente, você chega à conclusão de que é total perda de tempo tentar mudar as pessoas. Elas são o que são e devem ser aceitas exatamente assim.

Não mais que de repente, a ficha cai e você percebe que o que parecia ter acontecido "de repente", na verdade foi fruto de um longo processo de maturação que lhe custou calos nos pés, lágrimas nos olhos e dores no coração.

terça-feira, junho 27, 2017

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Davi e Bate-Seba: Quando Deus extrai o bem do mal que fizemos




Por Hermes C. Fernandes 

Ele deveria estar no front de batalha, como costumeiramente fazia. Mas desta feita, Davi preferiu tirar uns dias de folga. Nada mais justo para quem levava uma vida tão agitada desde o fatídico dia em que derrotou o gigante filisteu. Enquanto seus homens lutavam pela expansão e manutenção de seu reino, Davi curtia um final de tarde no terraço de seu palácio. Com a cabeça arejada, algo fisgou sua atenção. Há poucos metros dali, uma mulher de corpo escultural banhava-se alheia ao fato de estar sendo observada. O rei voyeur chama um de seus serviçais e pergunta-lhe quem era a bela mulher. Mesmo sendo informado tratar-se de esposa de Urias, um de seus mais leais soldados, Davi não hesita mandar trazê-la às pressas para o seu deleite.

A julgar que texto bíblico, não houve qualquer resistência por parte de Bate-Seba em atender ao chamado do rei. Talvez imaginasse que o rei lhe daria notícias do front. Quiçá algo houvesse ocorrido ao seu marido e o rei preferiu contar pessoalmente. Sou capaz de apostar que seu coração estava a mil. Não era normal que o rei mandasse chamar alguém assim, sem mais, nem menos.

Jamais saberemos quais armas ele usou para seduzi-la: se usou de sua autoridade ou apelou para expedientes mais sutis. O fato é que ela acabou cedendo. Possivelmente, devido à ausência do marido por tempo prolongado, ela estivesse carente. Davi, por sua vez, desprovera-se de qualquer escrúpulo para conseguir o que queria: uma noite de luxúria com aquela linda mulher. O que ele jamais poderia supor era o quanto aquilo lhe custaria.

Não muito tempo depois, chegava-lhe a notícia: Bate-Seba estava grávida.

Seu mundo virou de ponta-cabeça. Seu pecado seria exposto. Sua credibilidade ruiria. Tudo pelo qual havia lutado até ali corria o risco de desabar. Nos dias atuais, a primeira ideia que lhe ocorreria talvez fosse um aborto. Em vez disso, Davi mandou buscar Urias e insistiu com ele para que desfrutasse de uma merecida noite de amor com sua esposa. Surpreendentemente, Urias recusa a oferta, alegando não ser justo que assim fizesse, enquanto seus companheiros arriscavam a vida no front. Pela primeira vez, Davi se deparava com alguém com envergadura moral superior a dele. Como alguém poderia recusar tal oferta? Como alguém poderia manter-se leal aos seus amigos a ponto de recusar uma noite de amor com a própria esposa? Se houvesse aceitado, o problema estaria resolvido. Para todos os efeitos, aquela indesejável gravidez teria sido fruto do reencontro entre Urias e Bate-Seba. Porém, o plano deu errado. Mas Davi não se dispunha a desistir. No dia seguinte, tratou de embebedar a Urias no afã de persuadi-lo a deitar-se com sua esposa. Nem assim, ele cedeu. Seu caráter era mais forte que o efeito do álcool. Não restou alternativa a Davi, senão apelar ao que havia de pior em sua natureza ambígua.

Munido de uma mensagem lacrada endereçada a Joabe, o general de confiança de Davi, Urias retornou ao front. Fiado em seu caráter irredutível, Davia sabia que Urias jamais ousaria romper os lacres daquele pergaminho e acessar sua mensagem. Urias nem sequer desconfiava que nele constava sua própria sentença de morte. A ordem do rei era clara. Joabe deveria escalar a Urias para posicionar-se na frente da batalha, e quando os inimigos avançassem, todos os homens deveriam retroceder e deixa-lo sozinho, vulnerável ao ataque. Como o “homem segundo o coração de Deus” poderia revelar-se tão covarde? Desconfio que a razão não era apenas a gravidez de Bate-Seba, mas o fato de ele ter se deparado com alguém mais honrado do que ele. Definitivamente, não havia lugar para Davi e Urias no mesmo reino. Sua existência por si só desafiava seus mais profundos escrúpulos. Portanto, numa única tacada, Davi se livrava de dois problemas.

Desta vez, o pleno funcionou. Urias foi morto pelas mãos dos amonitas. Agora, Bate-Seba era uma mulher viúva, portanto, desimpedida. Passado o tempo de luto, Davi mandou busca-la e a tomou como esposa.

Tudo voltara a ser como antes. Ou melhor, tudo ficara ainda melhor para Davi. Afinal, aquela linda mulher tornara-se sua esposa.  Até que... Num belo dia, o rei recebe a inusitada visita de um profeta.

Natã era daqueles que não tinham papas na língua, mas sabia usar bem as palavras. Sua missão era confrontar o rei e expor, não apenas o seu pecado, mas também sua natureza contraditória. Para tal, o profeta recorre a uma parábola na qual um homem muito rico, dono de vastos rebanhos, recebe em sua casa um viajante. Em vez de mandar matar um de seus bois para alimentar o viajante, manda matar a única cordeira de um vizinho muito pobre. Ao ouvir o relato, tomado de ira, Davi se levanta do trono e vocifera: Este homem merece a morte! Como alguém tendo tanto pode fazer tal coisa a alguém que nada tinha senão uma mísera cordeira?

Fitando-lhe os olhos, Natã diz: Este homem é você! Deus te deu tantas coisas, e se não estivesse satisfeito, Ele lhe daria muito mais. Mas em vez de contentar-se, você preferiu tomar a única mulher de um homem que lhe era leal. Não pense que Ele fará vista grossa a isso! O juízo de Deus virá sobre você.

Diante do veredito divino, Davi confessa: Eu pequei!

Arrependido, o rei ouve dos lábios do profeta que Deus já o havia perdoado, mas que isso não o isentaria das consequências de seu pecado. Deus não estava disposto a colocar panos quentes sobre o seu erro, evitando assim que Seu precioso nome fosse escarnecido entre as nações. Como medida disciplinar, o fruto daquele pecado não vingaria.

Enquanto a criança sobrevivia, Davi orava com todas as suas forças, rogando que a sentença divina fosse revogada.  Seus conselheiros já demonstravam preocupação com seu estado emocional. Ele não comia, nem bebia, nem se banhava. Só fazia chorar. O que faria se a criança viesse a óbito?

Tão logo a criança morreu, Davi levantou-se, tomou um banho , alimentou-se e retomou sua rotina. Todos ficaram estupefatos com sua inusitada reação. Ele, finalmente, virara a página. Já não adiantava se lamentar. “Eu irei a ela, mas ela jamais virá a mim”, respondeu ao ser indagado por seus anciãos.

Todos lemos esta história a partir de Davi. Mas quanta dor Bate-Seba enfrentou!  Quão difícil a ela foi sofrer o assédio do rei, engravida-se dele, perder seu marido de maneira cruel e covarde, ter que conviver com o homem responsável por isso, e ainda perder tragicamente seu primeiro filho.  

Que bom saber que a história não termina assim. Deus é capaz de extrair coisas boas até de nossos equívocos mais insanos.  Uma segunda gravidez estava a caminho. Mas agora, ela não era um romance do rei, mas sua esposa, aquela que se assentava ao seu lado no trono.

Em Sua infinita misericórdia, Deus a presenteara com um filho que sucederia Davi em seu trono. O texto bíblico diz que Deus amou a Salomão. De todos os filhos de Davi, ele não foi apenas o escolhido por Deus para sucedê-lo, mas também foi aquele por cuja linhagem viria Jesus, o Salvador dos homens.

Quem diria... Bate-Seba na árvore genealógica de Jesus!

Isso não significa que Deus houvesse endossado o erro de Davi. As consequências foram drásticas. Deus não o poupou de nenhuma delas. Entretanto, nada disso foi capaz de alterar o Seu propósito na vida e na descendência do rei salmista.

Lições aprendidas deste episódio:

1 – Estar no lugar certo, fazendo a coisa certa, na companhia das pessoas certas, nos poupará de dar passos incertos em nossa vida.

2 – Um erro não justifica outro erro. A melhor maneira de lidar com nossos erros é admitindo-os diante de Deus.

3 – A misericórdia que usamos para com os outros será a mesma que se aplicará a nós. Semelhantemente, a rigidez com que tratamos os outros se voltará contra nós.

4 – O perdão de nossos pecados não nos isenta de suas consequências.

5 – Devemos lutar para reverter uma situação que esteja em processo, mas também devemos aprender a virar a página e seguir em frente quando ela se revela irreversível.

6 – Nenhum de nossos equívocos é capaz de colocar em risco os propósitos divinos em nossa vida.

7 – Deus é poderoso e amoroso o suficiente para extrair coisas boas de nossos equívocos.

8 – O que começou errado não está fadado a terminar errado.

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* Esta reflexão está baseada nos seguintes textos: 2 Samuel 11:1-15, 26-27; 12:1-24; 1 Reis 1:28-31