domingo, novembro 19, 2017

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Cuidado com as panelas!





Por Hermes C. Fernandes



Você tem o costume de verificar a procedência de um alimento antes de leva-lo à boca? E quanto ao prazo de validade? Sabe aquela promoção relâmpago que ocorre no supermercado? Todos saem em disparada para comprar um produto pela metade do preço sem averiguar se o mesmo não está com o prazo de validade a vencer nos próximos dias. Alguns chegam a comprar o suficiente para estocar por vários dias ou até semanas ou meses. Depois não sabem a razão da indisposição intestinal que lhes acomete.

A proveniência é tão importante quanto a validade. Não é à toa que países resolvem boicotar a carne vinda de um determinado país depois de se comprovar uma epidemia como a “vaca louca” atingindo o seu rebanho bovino.

Quando tentado pelo diabo no deserto a transformar pedras em pães, Jesus respondeu sem titubear: “Nem só de pão viverá o homem, mas de toda a PALAVRA que SAI DA BOCA DE DEUS” (Mateus 4:4). Não havia nada de imoral em transformar pedras em pães. O problema era a proveniência daquela palavra. Se não vem da boca de Deus, não deve ser digerido. Por isso Jesus foi tão duro com Pedro. Minutos depois de ter sido usado pelo Espírito Santo para afirmar que Jesus era o tão esperado Cristo, Pedro emprestou seus lábios ao diabo, tentando dissuadir Jesus de entregar-se para ser crucificado. Mal teve tempo de respirar. Ouviu de imediato: “Para trás de mim, Satanás. Tu não cogitas das coisas de Deus, mas dos homens” (Mateus 16:23). O ideal era que de uma mesma fonte que sai água doce, jamais jorrasse água amarga. Mas, infelizmente, não é isso que acontece. Basta não vigiar para que o diabo se aproveite dos nossos lábios para destilar intrigas, ódio, mentiras, calúnias, dúvidas, etc. O melhor a fazer é pedir como fez o salmista: “Coloca, Senhor, uma guarda à minha boca; vigia a porta de meus lábios” (Salmos 141:3). Depois, não adianta chorar o leite derramado. Como bem diz um provérbio chinês: “Existem três coisas na vida que nunca voltam atrás: a flecha lançada, a palavra pronunciada e a oportunidade perdida.” Portanto, antes de deixar escapar uma única palavra de nossos lábios, examinemos se aquela não é uma ótima oportunidade de ficarmos calados.

Há um episódio bíblico que nos alerta quanto ao perigo de acolhermos qualquer palavra em nosso coração sem que antes examinemos sua procedência. Durante um período de fome extrema, os discípulos dos profetas estavam reunidos com Eliseu que ordenou a um dos seus servos: "Ponha o caldeirão no fogo e faça um ensopado para estes homens. Um deles foi ao campo apanhar legumes e encontrou uma trepadeira. Apanhou alguns de seus frutos e encheu deles o seu manto. Quando voltou, cortou-os em pedaços e colocou-os no caldeirão do ensopado, embora ninguém soubesse o que era. O ensopado foi servido aos homens, mas, logo que o provaram, eles gritaram: "Homem de Deus, há morte na panela! " E não puderam mais tomá-lo” (2 Reis 4:38-40).

Quão necessário é em nossos dias que cultivemos o discernimento de espírito. Discernir espírito não discernir demônios, como pensam alguns, mas intenções dos corações. Toda panela traz consigo um perigo latente. Onde quer que se juntem dois ou três e formem uma “panelinha”, há o risco de um deles introduza veneno no ‘ensopado’. O que não falta é quem se disponha a sair por aí catando o que veem pela frente sem preocupar-se com sua procedência. Que bom que entre os discípulos de Eliseu havia um com sensibilidade suficiente para perceber que havia VENENO naquela panela. Se ninguém tocasse alarde, todos morreriam envenenados.

E sabe de onde, geralmente, provém o tal veneno? O escritor de Hebreus nos dá a dica:
“Cuidem que ninguém se exclua da graça de Deus. Que nenhuma raiz de amargura brote e cause perturbação, contaminando a muitos.” Hebreus 12:15

A gente nunca sabe o que as pessoas trazem no coração. Palavras escondem sentimentos, rancores, invejas, ciúmes, etc. Como disse Jesus, a boca fala do que está cheio o coração (Lucas 6:45). Se quiser saber o que se passa no coração de alguém, preste atenção às suas palavras. Quando a amargura brota, ela acaba contaminando todos à sua volta. E sabe porquê? Porque amargura é um sentimento nocivo que as pessoas fazem questão de compartilhar a fim de contagiar a outros. Aquela amargura que durante anos esteve ali como uma raiz profunda, de repente, brota e causa perturbação. E sabe qual a intenção do maligno ao regar tais raízes para que logo brotem e perturbem os demais? Exclui-los da graça de Deus. Torná-los indiferentes à graça que lhes foi ministrada. Pena que as pessoas sejam tão ingênuas para perceberem isso. Quando se dão por si, já foram contaminadas, afastando-se cada vez mais da comunhão com Deus e com os irmãos. Aliás, uma ótima maneira de testar se uma palavra vem de Deus ou não é observar o que ela está produzindo em sua vida. Após acolhê-la, sua vida espiritual se intensificou ou se esfriou? Seu ânimo com as coisas de Deus aumentou ou diminuiu?

Que medida Eliseu tomou para impedir que aqueles homens fossem envenenados? Ele tomou um pouco de farinha, colocou no caldeirão e disse: “Sirvam a todos”. O veneno foi neutralizado pela presença da farinha que representa a Palavra de Deus. Foi por isso que Jesus combateu as palavras do diabo no deserto com a Palavra procedente da boca de Deus. Afinal de contas, “a palavra de Deus é viva e eficaz, e mais penetrante do que espada alguma de dois gumes, e penetra até à divisão da alma e do espírito, e das juntas e medulas, e é apta para DISCERNIR OS PENSAMENTOS E INTENÇÕES DO CORAÇÃO” (Hebreus 4:12).

O que vem de Deus tem como objetivo “servir a todos” e não apenas ao interesse de alguns. Portanto, antes de dar ouvido a algo, venha de quem vier, pergunte a si mesmo: A quantos isso está servindo? Quantos serão edificados ou destruídos? Quantos serão beneficiados ou prejudicados? Serve a todos ou apenas ao interesse de quem disseminou?

Sejamos, portanto, simples como a pomba, mas prudentes como a serpente. Raiz de amargura tem que ser exterminada do coração da gente em vez de regada e cultivada. Que em vez dela, sejamos enraizados no amor e assim saibamos com TODOS OS SANTOS qual seja a largura, o comprimento, a altura e a profundidade do amor de Deus que está em Cristo Jesus (Efésios 3:18).

quarta-feira, outubro 18, 2017

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O que não se pode tolerar



Por Hermes C. Fernandes

Conversões. Não há nada que um cristão que milite na evangelização almeje mais. O que ocorreu em Samaria é o sonho de consumo de todo ministro cujo coração bata no compasso do coração de Deus. Porém, conversão não é obra humana, mas divina. Estratégias humanas poderão produzir adesões, mas não conversões. Nosso papel é dar testemunho do amor de Deus, sendo amostras grátis do que o evangelho é capaz de produzir naqueles que creem. Mas, mesmo quando nos atemos em anunciar a Cristo, adesões superficiais são inevitáveis.

Temo que já tenha chegado o tempo em que ser cristão se tornaria moda. Cantores, atores e jogadores de futebol proeminentes vêm a público assumir a sua fé. É óbvio que isso acaba por atrair a muitos dentre os seus fãs. Sem contar os que aderem à fé por motivos pouco louváveis, como no caso de candidatos que forjam sua conversão no afã de conquistar o eleitorado evangélico.

O fenômeno ocorrido em Samaria não foi exceção. Em meio a conversões em massa, surge um homem chamado Simão, que por muito tempo havia exercido fascínio nos moradores da cidade devido à arte do ilusionismo, o que lhe rendera a alcunha de “O Grande Poder de Deus”. Assim que percebeu que sua clientela estava ameaçada, Simão resolveu juntar-se a Filipe. Depois de batizado, Simão colou em Filipe como se quisesse sugar dele o “pulo do gato” responsável por tantos milagres. Sua esperança era que pudesse recobrar o terreno perdido.

Quando Pedro e João chegaram a Samaria, Simão ficou completamente embasbacado de ver como as pessoas recebiam o Espírito Santo ao receberem a imposição dos apóstolos. Desavergonhadamente, aproximou-se oferecendo dinheiro para que lhe outorgassem o mesmo poder. Sem titubear, Pedro respondeu: O teu dinheiro seja contigo para perdição, pois cuidaste que o dom de Deus se alcança por dinheiro. Tu não tens parte nem sorte nesta palavra, porque o teu coração não é reto diante de Deus.”[1]

Por que Pedro foi tão duro com o mago Simão? Isso não seria um sinal de intolerância? A resposta é sim. Se Pedro tolerasse a conduta de seu xará, aquela cobra se criaria e voltaria a enganar a muitos com sua arte ilusória.

Não se pode ser tolerante com quem almeje se locupletar da credulidade alheia. O mal precisa ser cortado pela raiz. Pedro foi tomado do mesmo sentimento que levou Jesus a derrubar as mesas dos vendilhões do templo. Por trás desta intolerância está o amor.

Uma coisa é ser tolerante com quem, em sua ignorância ou ingenuidade, comete equívocos, ou mesmo com quem adota uma crença diferente da nossa. Outra coisa é ser tolerante com quem sabe exatamente o que está fazendo, e que, portanto, age dolosamente.

Jesus jamais demonstrou tolerância com os religiosos hipócritas, que “atam fardos pesados e difíceis de suportar, e os põem aos ombros dos homens; eles, porém, nem com seu dedo querem movê-los.”[2] Aqueles cujo lema é “faça o que digo, mas não o que eu faço”. Gente cujo discurso não confere com a prática.

Jesus nunca tolerou os que fecham aos homens o reino dos céus, de modo que nem eles entram, nem deixam outros entrar. [3] Aqueles que se acham os porteiros do céu, em cujos ombros repousa o sacrossanto dever de decidir quem está dentro, quem está fora.

Ele jamais tolerou os que devoram as casas das viúvas, “sob pretexto de prolongadas orações”. Gente que se aproveita da boa fé dos incautos para explorá-los, sugando-lhes até o último tostão. Eles os alertou: “Por isso sofrereis mais rigoroso juízo”.[4]

Ele nunca tolerou, e duvido que um dia tolere, os que percorrem o mar e a terra para converter alguém, para em seguida torná-lo “filho do inferno duas vezes mais.”[5] Apesar de não lhes faltar disposição e espírito aguerrido, o resultado é desastroso.

Ele também não tolera os que se valem de suas práticas religiosas, mas desprezam “o mais importante da lei, o juízo, a misericórdia e a fé”[6] Ele os chama de “condutores cegos” que coam mosquitos, mas engolem camelos. Brigam por tão pouco, enquanto fazem vista grossa para o que realmente importa. Geralmente, se preocupam com questões morais, rituais, dogmáticas, mas desprezam questões éticas de relevância insofismável.

Ele denunciou os que se preocupam com exterioridades, mas não cultivam uma espiritualidade autêntica; que limpam o exterior do copo e do prato, mas o interior segue cheio de rapina e de intemperança. Ele os assemelha a sepulcros caiados, que por fora parecem formosos, mas por dentro carregam cadáveres em estado de putrefação.[7]

Ele não tolera quem se dispõe a corrigir o erro alheio sem que antes admita o seu;[8]que mesmo tendo telhado de vidro, não pensa duas vezes antes de arremessar pedras sobre o telhado alheio.

Pelo que conheço de Jesus, Ele é capaz de tolerar qualquer fraqueza humana, exceto a hipocrisia.

O que poderia ter acontecido se Pedro não desse aquele “chega pra lá” em Simão? Um perigoso precedente teria sido aberto. Um câncer cuja metástase poderia comprometer todo o tecido em pouco tempo.

Na carta endereçada à igreja de Tiatira, Jesus afirma conhecer suas obras, seu amor, sua fé, seu serviço, sua perseverança, e admite que suas últimas obras eram mais numerosas que as primeiras. Apesar disso, Ele adverte: “Tenho, porém, contra ti que toleras a Jezabel, mulher que se diz profetisa.”[9]

Uma coisa é ser, outra é se dizer ser. A tal Jezabel não era, de fato, uma profetisa, mas se fazia passar por uma. Como tantos que se autoproclamam apóstolos, patriarcas, bispos, pastores, sacerdotes, mas cuja intenção é de se locupletar, não se importando de induzir tantos ao erro. Deus não os terá por inocente. Paulo os chama “desordenados, faladores, vãos e enganadores”, “aos quais convém tapar a boca; homens que transtornam casas inteiras ensinando o que não convém, por torpe ganância.”[10]

Ganância. Eis o que os move. Se atraíssem poucos, não haveria muito com que nos preocupar. Porém, o fato é que tais elementos arrastam multidões, com suas promessas mirabolantes, com seus milagres no atacado, com suas dissoluções. Cumpre-se, pois, o que Pedro anteviu: “E muitos seguirão as suas dissoluções, e por causa deles será blasfemado o caminho da verdade; também movido pela ganância, e com palavras fingidas, eles farão de vós negócio.”[11] Mas a batata deles está assando! “A condenação dos quais já de largo tempo não tarda e a sua destruição não dormita.”[12] Deus não os deixará impunes. Todo o sucesso alcançado por seus ministérios não compensará o juízo que os espera.

Todavia, compete-nos “tapar a boca” dessas sanguessugas do altar. E isso fazemos quando denunciamos seus intentos, livrando as vítimas de suas malévolas mãos. A verdade deve ser proclamada, a fim de que as trevas do engano sejam dissipadas. Como disse Victor Hugo, “quem poupa o lobo, sacrifica a ovelha.”




[1] Atos 8:20,21
[2] Mateus 23:4
[3] Mateus 23:13
[4] Mateus 23:14
[5] Mateus 23:15
[6] Mateus 23:23
[7] Mateus 23:25-28
[8] Mateus 7:3-5
[9] Apocalipse 2:18-20
[10] Tito 1:10-11
[11] 2 Pedro 2:2
[12] 2 Pedro 2:3

quinta-feira, outubro 12, 2017

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A diversidade de Marias numa perspectiva protestante subversiva



Por Hermes C. Fernandes

É deveras complicado para um protestante entender a devoção mariana. E a coisa se complica ainda mais ao deparar-se com a multiplicidade de “Marias”. Afinal, quantas mães teve Jesus? No México, ela aparece com feições indígenas a um índio asteca, sendo chamada de “Nossa Senhora de Guadalupe”.  No Brasil, sua imagem com feições negras é encontrada por pescadores e recebe o nome de “Nossa Senhora da Conceição Aparecida”.  Em Portugal, ela surge como “Nossa Senhora de Fátima”, cuja aparição teria sido testemunhada por três crianças. Em nenhum dos casos, ela foi vista por sacerdotes ou nobres.

Sem entrar no mérito dogmático, percebo aí uma busca que julgo autêntica por uma fé engajada e radicada no contexto cultural em que emerge. Essas múltiplas facetas de Maria visa atender ao anseio de rebelar-se contra os padrões vigentes. Uma Maria negra desafia o flagrante racismo de uma era escravagista. Uma Maria indígena confronta os vergonhosos interesses dos conquistadores espanhóis. Não preciso endossar uma devoção popular para compreendê-la enquanto fenômeno social e psicológico.

As diversas aparições místicas podem ser vistas como projeções do inconsciente coletivo; o que, diga-se de passagem, não diminui em nada a sua importância. Mas de onde o inconsciente coletivo buscou material para dar a Maria as características que lhe são atribuídas? Por que surge negra no Brasil e índia no México?

Ao longo dos séculos, o inconsciente coletivo foi acumulando informações via tradição, bem como anseios e fantasias que, ao se mesclarem, produziram as múltiplas Marias, além de uma considerável diversidade de Cristos: Nosso Senhor do Bonfim, Nosso Senhor dos Passos, etc.

Obviamente, há um único Cristo, que por Sua vez, nasceu de uma única e bendita virgem. A tradição protestante não endossa qualquer devoção que não seja dirigida exclusivamente ao Deus Trino. Todavia, como profetizou o anjo que a visitou, Maria deveria ser honrada por todas as gerações. Não faz sentido adorar ao Filho, negando-se a honrar à Sua bem-aventurada Mãe. E a melhor maneira de honrá-la é submetendo-se a seu Filho, bem como destacando suas inegáveis virtudes, dentre as quais, a humildade e a obediência.

Jesus é o único caminho que nos leva a Deus. Maria foi o caminho tomado por Deus para vir ao encontro dos homens.

O desprezo protestante a Maria é uma reação grotesca e exacerbada à devoção que se presta a ela. Deveríamos, antes, optar por uma postura idônea e equilibrada. Amemos a Maria e adoremos o fruto do seu ventre. E ainda que não comunguemos com sua devoção por parte de nossos irmãos católicos, que possamos respeitá-la e buscar compreender o contexto de onde emerge. 


No fundo, todos somos marianos, pois nos submetemos à instrução que ela deu aos serventes em Caná da Galileia: “Fazei tudo o que Ele vos disser” (João 2:5).

terça-feira, setembro 19, 2017

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Ser gay não é uma opção! - As razões biológicas da homossexualidade



Por Hermes C. Fernandes 

Em posts anteriores, abordei o preconceito sofrido pelos homossexuais, e defendi que a igreja deveria acolher respeitosamente a tais indivíduos. Mas a partir deste ponto, quero dar um passo além. Sei dos riscos que corro. Porém, não me vejo em condição de me acovardar ante o sofrimento de tantos por causa de sua orientação sexual. 

Como já tenho alardeado, homofobia é pecado. E quanto à homossexualidade, poderíamos dizer o mesmo? É pecado ser homossexual? O que diz a Bíblia acerca disso? O que dizem as últimas descobertas científicas? Sim, uma questão está intimamente ligada a outra, porque, se for comprovado cientificamente que a orientação sexual tem fatores biológicos, logo, teremos que rever o que tem sido dito acerca da homossexualidade em nossos púlpitos. Como Deus poderia condenar algo sobre o qual o indivíduo não tenha qualquer controle? Se o próprio Deus o criou nessa condição, que culpa lhe restaria? 

Por favor, em nome do amor, peço que leia as próximas linhas, não apenas com a mente aberta, mas, sobretudo, com o coração enternecido. Lembre-se de que poderia ser um filho seu. 

Vamos começar pela ciência. No próximo post, abordarei o tema sob o prisma bíblico. É verdade que ninguém nasce gay? Aquele papo de que não há gene gay procede? Quando alguém resolve sair do armário, ele ou ela se tornaram gay ou simplesmente resolveram assumir sua orientação sexual? Afinal, ser gay é uma opção ou orientação? Sejamos sinceros: alguém em sã consciência optaria por ser alvo de todo tipo de ódio e preconceito? Você consideraria isso uma opção razoável? A menos que, além de homossexual, fosse também masoquista. Se concluirmos que é uma opção, então, ninguém nasce nesta condição. Trata-se de um comportamento aprendido. Simples assim. Logo, Malafaia, Feliciano e Marisa Lobo estariam cobertos de razão. Tudo dependeria do ambiente e/ou da educação recebida. Porém, se concluirmos que é uma orientação, logo, teremos que admitir que se trata de uma condição inata. 

O fato de alguém ter sido violentado quando criança explicaria sua homossexualidade? Será que todo gay foi molestado na infância? E os que por ventura foram violentados, não o teriam sido por já manifestarem trejeitos que acabaram atraindo os predadores? Veja: não se trata de culpá-los pela violência sofrida. Nada justifica esta monstruosidade. O fato é que meninos com trejeitos femininos podem atrair a atenção de pedófilos, tanto como meninas. Pais que têm filhos homossexuais deveriam redobrar sua atenção e orientar seus filhos a evitar contato com pessoas que demonstrassem tal índole. Mas, afinal, o que diz a ciência?

Estudos biológicos indicam que a formação da sexualidade acontece antes mesmo do nascimento. Parte disso se deve aos genes, mas também há fatores que atuam no desenvolvimento do feto. Bem da verdade, não há nada comprovado. Entretanto, as evidências que estão surgindo a cada dia têm potencial para provocar uma revolução no pensamento científico. Se forem comprovadas, podem subverter o entendimento que temos acerca da homossexualidade, fazendo com que deixemos de encará-la como um comportamento antinatural, e, por conseguinte, pecaminoso.

Entre os séculos 19 e 20 a psiquiatria considerava a homossexualidade como um transtorno mental resultantes de uma educação equivocada. Se tal teoria fosse comprovada, então, seria plausível acreditar numa reversão da homossexualidade, bastando que o indivíduo fosse submetido a terapias baseadas em teorias de condicionamento. Em 1973, a Associação Psiquiátrica Americana decidiu tirar de sua lista de distúrbios mentais a atração sexual por pessoas do mesmo sexo. A partir daí, o termo homossexualismo foi substituído por homossexualidade, uma vez que o sufixo “ismo” denotava doença. Em 1991, o neurocientista Simon LeVay afirmou ter encontrado diferenças em cérebros de homens gays e héteros, depois de examinar o hipotálamo, zona cerebral responsável pela sexualidade, e descobrir que a região chamada INAH-3 era entre duas e três vezes menor nos homossexuais. Aquela foi a primeira evidência da origem biológica da homossexualidade. LeVay acreditava que algo acontecia ainda no ambiente intrauterino que afetaria a sexualidade do indivíduo. [1] 

Surge, então, a embaraçosa questão: o que ocorreria para definir a orientação sexual e não apenas seu gênero? Haveria um gene gay? Em 1993, o geneticista Dean Hamer, do Instituto Nacional do Câncer nos Estados Unidos, percebeu que a ocorrência de gays era maior do lado materno das famílias. Sua descoberta chamou sua atenção para o cromossomo X. Com um escâner, Hamer viu que uma região do cromossomo X, chamada de Xq28, era idêntica em muitos irmãos gays. Pode-se dizer que em vez de descobrir um gene gay, ele encontrou uma tira inteira de DNA.[2] A conexão entre a orientação sexual e os genes sugeria que ninguém escolhia ser homossexual, antes, tratava-se de uma condição congênita. Portanto, já não se podia dizer que a homossexualidade seria antinatural. Pelo menos, não à luz das descobertas científicas. 

Não obstante, pesquisas mais recentes dão conta de que a homossexualidade transcende o componente genético. A maior evidência disso é o caso de gêmeos, onde, apesar de serem geneticamente semelhantes, apenas um desenvolve a homossexualidade. Ora, se a causa da homossexualidade fosse estritamente cromossômica, os dois deveriam apresentar a mesma orientação sexual. Todavia, de acordo com os pesquisadores americanos Michael Bailey e Richard Pillard, entre gêmeos bivitelinos, quando um é gay, o outro teria 22% de possibilidade de ser gay. Já entre univitelinos, a probabilidade é maior que o dobro: 52%. Considerando que a taxa entre a população estaria entre 2% e 5%, fica provado a existência de um componente genético na homossexualidade.[3] 

Entretanto, fica igualmente provado que os genes não são a resposta para tudo nesta questão. Segundo o pesquisador Alan Sanders, os estudos com gêmeos sugerem uma estimativa de que até 40% da orientação sexual deva-se à influência genética. E quanto aos outros 60%? Uma possível resposta seria o desenvolvimento biológico do feto no ambiente intrauterino. De acordo com uma das mais promissoras pesquisas neste campo, os hormônios sexuais masculinos (andrógenos) se conectam às partes responsáveis pelos desejos sexuais no cérebro, influenciando seu crescimento, tornando o cérebro mais tipicamente masculino ou feminino. A conexão dependeria das proteínas receptoras de andrógenos. Supondo que cada célula do cérebro fosse uma casa, as proteínas receptoras de andrógenos (AR) funcionariam como o portão que controla a entrada. A quantidade e localização desses portões variam entre homens e mulheres. O hipotálamo masculino tem mais ARs que o feminino, por exemplo. Segundo esta teoria, a homossexualidade nos homens seria causada por portões que restringiriam a entrada de andrógenos nas regiões responsáveis pela sexualidade, produzindo, assim, um cérebro submasculinizado. Já nas mulheres, esses portões facilitariam entradas maiores, produzindo uma estrutura supermasculinizada. Tudo, portanto, seria consequência do número de ARs de cada feto, que possivelmente estaria relacionado à carga genética. Apesar de os cientistas admitirem que se trata de um processo complexo, o fato é que as pistas da ação dos hormônios pré-natais estão por toda a parte, revelando-se até nos aspectos físicos. É importante ressaltar que os hormônios importantes na formatação da orientação sexual não são os que circulam no sangue nos adultos, e cujos níveis são iguais entre héteros e homossexuais, e sim os hormônios que atuaram durante a gestação. 

Fica desacreditada e descartada a hipótese de que o abuso sexual na infância seria a causa da homossexualidade, como também a que sugere que haja mais probabilidade de que haja gays em lares chefiados por mulheres ou entre filhos criados por casais de homossexuais. Dean Hamer conclui que os fatores biológicos (genes e hormônios) seriam responsáveis por mais de 50% da orientação sexual. Os outros quase 50% podem ser atribuídos a fatores psicológicos e sociais. Em outras palavras, a predisposição à homossexualidade vai se manifestar dependendo das experiências de vida da pessoa. Alguns indivíduos aprendem a sublimar, outros simplesmente se abdicam de sua sexualidade por uma causa maior. Estudo feito pelo Instituto Karolinska na Suécia, publicado em 2005, detectou através do escaneamento de atividades cerebrais que homossexuais homens apresentam resposta fisiológica aos feromônios do sexo masculino igual às mulheres heterossexuais, evidenciando claramente um componente biológico na orientação sexual. 

No mesmo ano, os pesquisadores Gleen Wilson e Qazi Rahm publicaram sua conclusão de que a orientação sexual seria determinada por uma combinação de fatores genéticos e atividade hormonal durante a gestação, e que as experiências posteriores na infância, bem como o ambiente familiar, a educação e a escolha pessoal teriam pouca ou nenhuma influência no assunto. [4] De acordo com os autores, homossexuais nascem homossexuais, e a proporção de indivíduos com esta orientação sexual na população mundial parece não variar significativamente. Em 1994, a Associação Americana de Psicologia declarou que a investigação científica sugere que a orientação sexual é determinada muito cedo no ciclo da vida, possivelmente antes mesmo do nascimento. 

Homossexualidade no reino animal 

Se o comportamento homossexual fosse antinatural como defendem alguns, como explicar o fato de ser tão comum no reino animal, envolvendo desde insetos até mamíferos? Pesquisa feita em 1999 pelo biólogo canadense Bruce Bagemihl [5]  revela que o comportamento homossexual já foi observado em cerca de 1500 espécies animais, desde primatas até vermes intestinais, e foi bem documentado em pelo menos 500 delas.[6] Dados atuais indicam que várias formas de comportamento sexual homossexual são encontradas em todo o reino animal.[7] Uma revisão das pesquisas feita em 2009 revelou que este comportamento é um fenômeno quase universal entre as espécies. Bem da verdade, apesar de indivíduos de centenas de espécies manterem relações sexuais com parceiros do mesmo sexo em ocasiões isoladas, poucos fazem disso uma rotina.[8]  Seu interesse pelo sexo oposto continua ao longo da vida. Portanto, não se pode classificá-los de homossexuais na acepção da palavra. 

Somente duas espécies exibem preferência pelo mesmo sexo pelo resto da vida, mesmo havendo parceiros disponíveis do sexo oposto: a espécie humana e o carneiro domesticado. No segundo caso, até 8% dos machos do rebanho preferem outros machos mesmo quando há fêmeas férteis por perto.[9] Em 1994, neurocientistas descobriram que os machos desta espécie tinham cérebro ligeiramente diferente do resto, com um hipotálamo menor, que é a parte que controla a liberação de hormônios sexuais.[10] Isso endossa o já citado estudo do neurocientista Simon LeVay que descrevia uma diferença entre a estrutura cerebral de homens héteros e homossexuais. 

Outro animal considerado um dos mais inteligentes e que mantém relações com indivíduos do mesmo sexo é o golfinho. Em um caso que chamou a atenção de muitos pesquisadores um par de golfinhos machos manteve um relacionamento por dezessete anos. 

Nem os leões, conhecidos como os reis da selva, escapam deste curioso fenômeno. Os leões africanos geralmente mantém haréns de fêmeas e exercem sua liderança através de uma hierarquia patriarcal. Apesar disso, uma porcentagem de leões africanos machos abandonam suas fêmeas para formar seus próprios grupos homossexuais. Os leões são reconhecidamente os felinos com o maior desejo sexual, o que não os impede de desenvolver este tipo de comportamento. Entre as aves, sabe-se que mais de setenta tipos acasalam-se com indivíduos do mesmo sexo, incluindo os fascinantes pinguins. 

O certo é que enquanto a homossexualidade está presente em tantas espécies animais, a homofobia só é verificada na espécie humana, e isso, para vergonha nossa. 

No próximo post falarei sobre a presença gay na igreja evangélica e o que dizem as Escrituras. Peço ao Espírito Santo que ilumine nossa consciência para que compreendamos as angústias sofridas por homossexuais, pelo simples fato de não se aceitarem como são, ou por não serem aceitos pelos que os cercam. Peço que as feridas em seus corações sejam cicatrizadas e a hemorragia em suas almas se estanque por completo. Que se sintam plenamente amados em sua condição. Que se entreguem inteiramente a este amor, de modo que possam viver dignamente, guardados de uma vida promíscua em que sejam tão-somente usados como objetos descartáveis. Que encontrem quem os ame de verdade, sem exigir que se mutilem, tendo sua integridade dissolvida para atender expectativas puramente moralistas. E que assim, vivam para a glória d'Aquele que os criou, enfrentando valentemente todo preconceito raivoso, mesmo aquele impingido em nome da religião.


[1] LeVay S. A difference in hypothalamic structure between heterosexual and homosexual men Science, 1991 
[2] HAMER, Dean H. et al. A linkage between DNA markers on the X chromosome and male sexual orientation. Science, n. 261, 1993, p. 321-327. 
[3] BAILEY, J. Michael, PILLARD, Richard C. A genetic study of male sexual orientation. Archive of General Psychiatry, n. 48, 1991, p. 1089-1097 
[4] WILSON, Gleen, RAHM, Qazi, Born Gay: The Psychobiology of Sex Orientation, London, 2005 
[5] Bruce Bagemihl, Biological Exuberance: Animal Homosexuality and Natural Diversity, St. Martin's Press, 1999. 
[6] Harrold, Max (16 de fevereiro de 1999). Biological Exuberance: Animal Homosexuality and Natural Diversity The Advocate, reprinted in Highbeam Encyclopedia. 
[7] "Same-sex Behavior Seen In Nearly All Animals, Review Finds", Science Daily 
[8] Levay, Simon. Queer Science: The Use and Abuse of Research into Homosexuality. Cambridge, Massachusetts: MIT Press, 1996. 
[9] Levay, Simon. Gay, Straight, and The Reason Why The Science of Sexual Orientation. Cambridge, Massachusetts: Oxford University Press, 2011. 
[10] Roselli, Charles E.; Kay Larkin, John A. Resko, John N. Stellflug and Fred Stormshak. (2004,). "The Volume of a Sexually Dimorphic Nucleus in the Ovine Medial Preoptic Area/Anterior Hypothalamus Varies with Sexual Partner Preference". Journal of Endocrinology, Endocrine Society, Bethesda, MD 145 (2)

quarta-feira, setembro 13, 2017

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Ubuntu, o legado e a demonização da cultura negra




Por Hermes C. Fernandes

“Enquanto a cor da pele for mais importante que o brilho dos olhos, haverá guerra.” 
Bob Marley

Anos atrás, uma de nossas congregações resolveu fazer uma apresentação na Sede da Reina homenageando a cultura negra. Mulheres vestidas a caráter começaram a dançar ao ritmo dos tambores, bem ao estilo africano. Por ser uma festa, tínhamos a presença de irmãos de muitas igrejas. Nem todos demonstravam o correto discernimento do que ocorria ali. Não demorou muito para que se ouvissem murmurinhos e expressões do tipo "tá amarrado!"[1] Aquilo me deixou tão incomodado, que ao término da apresentação (que incluía um grupo de capoeira), vi-me na obrigação de chamar a atenção dos que murmuravam. 

Por que insistimos em demonizar a cultura africana? Suas danças, música, folclore e tradições são entendidos como expressões malignas. Nossa contradição, todavia, é exposta ao nos referirmos às tradições religiosas nórdicas, celtas, anglo-saxônicas e greco-romanas como mitologia. Quanto preconceito ainda há em nós, quer admitamos ou não.

A única coisa que poupamos da cultura africana é a sua comida, desde que não seja servida por uma baiana de roupa branca e turbante. Recentemente, a comunidade candomblecista ganhou a liminar que proíbe evangélicos de venderem acarajé, uma comida típica da Bahia como "bolinho de Jesus". O acarajé foi tombado como patrimônio cultural brasileiro, e é uma manifestação cultural da culinária baiana que tem sua origem na religiosidade candomblecista como o alimento de Iansã. Quando um patrimônio cultural é tombado, seja material ou imaterial, a ideia é expressar sua importância para a construção de uma identidade cultural dos grupos sociais. O acarajé não é apenas uma comida de oferenda a uma entidade cultuada numa religião de matiz africano, mas um meio de garantir a sobrevivência de famílias que cultivam seus saberes culinários de geração em geração. Quando uma baiana arma seu tabuleiro na rua, sua intenção não é a de fazer oferendas a um orixá, mas tão-somente o de sustentar sua família. Sem contar que uma boa parte destas baianas é negra, pobre e arrimo de seus lares. Não é a alteração do nome da iguaria que vai santificá-la para ser consumida por cristãos evangélicos sem que isso lhes pese na consciência. À luz das Escrituras, o que santifica qualquer alimento é a gratidão com que o consumimos.[2] 

Nunca encontrei uma única passagem bíblica em que Jesus ou os apóstolos se referissem aos espíritos malignos com nomes de divindades dos panteões pagãos. Jamais flagrei os apóstolos expulsando um espírito de Júpiter ou Diana. Então, por que identificamos as divindades cultuadas nos terreiros como demônios? Por que não podemos enxergá-las apenas como seres mitológicos, como fazemos com Zeus, Thor e Hermes?

Responda-me com sinceridade: Você iria ao cinema prestigiar um filme intitulado "Xangô de Ife", onde um personagem negro, portando um machado de dois gumes, vindo de Aruanda, controla os raios e os trovões? Certamente que um filme desses seria execrado por muitos cristãos. Mas, se o filme se chama Thor, deus nórdico dos trovões, a quem se sacrificavam homens, mulheres e crianças, pendurando-os em carvalhos, protagonizado por um louro bonitão de olhos azuis, é assistido sem o menor peso de consciência. Enquanto para Xangô são sacrificados pombos e galinhas de angola, para Thor eram sacrificados seres humanos. 

Que haja espíritos malignos que se aproveitam da superstição para se instalar em certas culturas, não me atrevo a duvidar. Inclusive por trás de muita devoção popular católica e da velada idolatria evangélica. Tais espíritos são ávidos por adoração, e para isso, escondem-se por trás de figuras mitológicas e de crendices de qualquer credo. Tenho a forte impressão de haja demônios ocultos em muitas das práticas evangélicas de hoje em dia, principalmente quando envolvem os chamados "pontos de contato". De acordo com a espiritualidade proposta no evangelho, o culto genuíno é aquele que prescinde de objetos, sejam da devoção afro-brasileira como patuás, banhos mágicos e etc., sejam do espírito judaizante imperante em muitas igrejas como shofar, arcas da aliança, montes sagrados e etc. O culto que agrada a Deus se dá em Espírito e em Verdade,[3] e não em superstições e amuletos.

Proponho que tratemos os elementos de qualquer culto em seu aspecto mitológico, sem, contudo, faltar-lhes o devido respeito. Mas que, em contrapartida, mantenhamos puro o culto que prestamos a Deus, sem nos apropriar indevidamente de qualquer um desses elementos, nem para o mal, nem para o bem. O sincretismo atenta contra a pureza do culto prestado. Isso vale para os cultos judaico, nórdico, indígena e, obviamente, africanos. 

Chega a ser um desrespeito a maneira como algumas igrejas se apropriam indevidamente de elementos pertencentes a outros credos. Um desrespeito à nossa própria fé e à fé alheia. Refiro-me a elementos estritamente cultuais, e não os culturais de modo geral. Não precisamos nos privar da boa música, da comida e de costumes inofensivos que já foram absorvidos pela nossa cultura. O que seria da música popular brasileira sem a contribuição da cultura africana? 

Devemos a ela o nosso samba, a bossa nova, o axé, e tantos outros ritmos que embalam nossas festas e enchem nossos corações de alegria. Aliás, a maior parte da música do ocidente tem os dois pés no continente africano: o blues, o rhythm and blues, o jazz, o rock’n roll, o rap, o funk, o soul e o gospel.

Viva a cultura negra! Muito de sua mitologia encerra importantes arquétipos que revelam a natureza humana em toda a sua ambiguidade. Não os reconhecemos como deuses, mas também não os chamamos de demônios. Demônios são os que se escondem por trás de todo engano, ódio e preconceito, ainda que para isso se façam passar até por Jesus Cristo.

Ubuntu

Ubuntu [4] é uma filosofia de origem africana que expressa a consciência da relação entre o indivíduo e a comunidade. Trata-se de um conceito amplo sobre a essência do ser humano e a maneira como deve se comportar em sociedade. Este conceito foi uma importante ferramenta na luta contra o regime Apartheid na África do Sul. Nelson Mandela inspirou-se nele para conduzir a política de reconciliação nacional, que uniu várias etnias em torno de um projeto que visava transformar aquele país num exemplo de superação de conflitos étnicos. De acordo com o manifesto do movimento criado por Mandela em 1944, “o africano quer o universo como um todo orgânico que tende à harmonia e no qual as partes individuais existem somente como aspectos da unidade universal.”[5]

De acordo com o arcebispo anglicano Desmond Tutu, autor de uma teologia ubuntu “a minha humanidade está inextricavelmente ligada à sua humanidade.”[6] Em seu livro "No Future Without Forgiveness" (em português: "Sem perdão não há futuro"), Tutu explica: “Uma pessoa com Ubuntu está aberta e disponível para as outras, apoia as outras, não se sente ameaçada quando outras pessoas são capazes e boas, com base em uma autoconfiança que vem do conhecimento de que ele ou ela pertence a algo maior que é diminuído quando outras pessoas são humilhadas ou diminuídas, quando são torturadas ou oprimidas.”[7] Tudo isso, porque, “uma pessoa é uma pessoa por intermédio de outras pessoas”[8]. O ser humano solitário é uma contradição. Diferente da lógica cartesiana que tem conduzido o Ocidente por séculos, em vez de “penso, logo existo”, a filosofia africana Ubuntu diz: “Existo porque pertenço.” Ubuntu, portanto, implica compaixão, comunhão e abertura de espírito ao outro, opondo-se ao narcisismo e ao individualismo tão predominante nas sociedades ocidentais.

A educadora sul-africana Dalene Swanson, professora da University of British Columbia, em Vancouver, Canadá, fala o seguinte a respeito do ubuntu:
“Diferentemente da filosofia ocidental derivada do racionalismo iluminista, o ubuntu não coloca o indivíduo no centro de uma concepção do ser humano. Este é todo o sentido do ubuntu e do humanismo africano. A pessoa só é humana por meio de sua pertença a um coletivo humano; a humanidade de uma pessoa é definida por meio de sua humanidade para com os outros: (…) o valor de sua humanidade está diretamente relacionado à forma como ela apoia ativamente a humanidade e a dignidade dos outros; a humanidade de uma pessoa é definida por seu compromisso ético com sua irmã e seu irmão.”[9] 
Há uma história que circula na internet atribuída a filosofa e jornalista Lia Diskin, que teria sido contada durante o Festival Mundial da Paz ocorrido em Florianópolis em 2006, e que exemplifica eloquentemente o sentido da filosofia Ubuntu:
“Um antropólogo estava estudando os usos e costumes da tribo e, quando terminou seu trabalho, teve que esperar pelo transporte que o levaria até o aeroporto de volta pra casa. Como tinha muito tempo ainda até o embarque, ele então propôs uma brincadeira para as crianças, que achou ser inofensiva. Comprou uma porção de doces e guloseimas na cidade, botou tudo num cesto bem bonito com laço de fita e tudo e colocou debaixo de uma árvore. Aí, ele chamou as crianças e combinou que quando ele dissesse "já!", elas deveriam sair correndo até o cesto e a que chegasse primeiro ganharia todos os doces que estavam lá dentro. As crianças se posicionaram na linha demarcatória que ele desenhou no chão e esperaram pelo sinal combinado. Quando ele disse "Já!", imediatamente, todas as crianças se deram as mãos e saíram correndo em direção à árvore. Chegando lá, começaram a distribuir os doces entre si e os comerem felizes. O antropólogo foi ao encontro delas e perguntou por que elas tinham ido todas juntas, se uma só poderia ficar com tudo que havia no cesto e, assim, ganhar muito mais doces. Elas simplesmente responderam: "Ubuntu, tio. Como uma de nós poderia ficar feliz se todas as outras estivessem tristes?" Ele ficou pasmo. Meses e meses trabalhando nisso, estudando a tribo e ainda não havia compreendido, de verdade, a essência daquele povo...” 
Como é difícil para alguém acostumado ao espírito competitivo que rege as culturas consideradas mais avançadas do mundo, pelo menos do ponto de vista econômico, entender este tipo de comportamento baseado na cooperação, em que ninguém precisa perder para que outro ganhe. Segundo o espírito de Ubuntu, as pessoas não devem buscar levar vantagem pessoal em detrimento do bem-estar do grupo. A felicidade de um não pode custar a infelicidade dos demais. Para que uma pessoa seja plenamente feliz será preciso que todas do grupo se sintam igualmente felizes. E não é isso que dizem as Escrituras? O apóstolo João afirma que nossa alegria só será completa num ambiente de comunhão, onde a alegria de um completa a alegria do outro.[10] Ninguém é feliz sozinho. Por isso, Paulo não se incomodou em suplicar: “Completem a minha alegria, tendo o mesmo sentimento, o mesmo amor, um só espírito e uma só atitude.”[11] 

Estamos conectados uns com os outros e essa relação estende-se aos que vieram antes de nós e aos que ainda hão de nascer. Fomos convidados por Jesus a tomar assento à mesa do reino de Deus, ao lado de Abraão, Isaque e Jacó e de toda a sua descendência espiritual. Formamos todos uma única família, a família humana, reconciliados com Deus e uns com os outros por meio de Seu Filho Jesus Cristo. Vemos, então, que o legado que recebemos dos povos africanos vai muito além da música, da comida, das crenças, do folclore. Fomos agraciados com conceitos desta envergadura, capazes de demolir estruturas injustas como a do Apartheid.




[1] Bordão típico usado no neopentecostalismo que significa a neutralização de qualquer investida por parte de entidades demoníacas.
[2]Porque toda a criatura de Deus é boa, e não há nada que rejeitar, sendo recebido com ações de graças. Porque pela palavra de Deus e pela oração é santificada” (1 Timóteo 4:4-5).
[3] João 4:24
[4] Ubuntu é uma noção existente nas línguas zulu e xhosa - línguas bantu do grupo ngúni, faladas pelos povos da África Subsaariana.
[5] Nelson Mandela and the Rainbow of Culture, Anders Hallengren, Nobelprize.org, site oficial do Prêmio Nobel.
[6] All you need is ubuntu (28 de setembro de 2006).
[7] TUTU, Desmond. No future without forgiveness, New York: Image Books, 2000.
[8] TUTU, Desmond, Deus não é cristão, Rio de Janeiro: Thomas Nelson, 2012, pg. 41
[9] Fonte: site “Ensinar História” de Joelza Esther Domingues. http://www.ensinarhistoriajoelza.com.br/ubuntu-o-que-a-africa-tem-a-nos-ensinar/
[10] 1 João 1:3-4 – “O que vimos e ouvimos, isso vos anunciamos, para que também tenhais comunhão conosco (...) Estas coisas vos escrevemos, para que a vossa alegria seja completa.”
[11] Filipenses 2:2

quinta-feira, agosto 17, 2017

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Os paradigmas subversivos do Reino






Por Hermes C. Fernandes

Jesus tem muitos admiradores, porém, poucos discípulos. Tem muitos adoradores, mas poucos seguidores. Muitos chamados, poucos escolhidos. Seguir Jesus é muito mais do que aceitar um dogma, é dispor-se a quebrar paradigmas que vêm formatando nossa civilização por milênios.

Quero destacar aqui três destes paradigmas:

# Comparação 

 # Competição 

 # Concentração

Nossa sociedade está alicerçada sobre este tripé. Ele é, por assim dizer, a trindade comportamental que forma nosso Ego.

Para que o Reino de Deus seja estabelecido entre os homens, há que se fazer uma limpeza no terreno antes de lançar seus fundamentos. Estes paradigmas têm que ser removidos para dar lugar a novos paradigmas, que por sua vez são centrados em Deus e no semelhante, e não no indivíduo em si.

Em lugar da comparação, complementação. Ninguém é melhor ou pior do que o outro. Se Deus desse a todos os mesmos dons e aptidões, tornaríamos como ilhas auto-suficientes. Em vez disso, Deus distribuiu dons da maneira como Lhe aprouve, para que aprendêssemos a depender uns dos outros. Portanto, é perda de tempo ficar fazendo comparações. Se sou melhor em algo, isso não me dá o direito de vangloriar-me. Certamente alguém é muito melhor do que eu em alguma outra coisa. Devemos sim, complementar uns aos outros. Se naquilo em que sou fraco, você é forte, devemos dar os braços e caminhar juntos. Meus dons não me fazem superior àquele que não os recebeu, mas me fazem seu servo. Deus confiou-os a mim para que os usasse em benefício comum. Da mesma maneira, não devo invejar aquele que recebeu o que me falta. Devo enxergá-lo como alguém a quem Deus confiou algo para me complementar.

É da comparação que surge a competição. Queremos provar para todos o quanto somos bons e melhores do que outros. Porém, se nos livrarmos do paradigma da comparação, o paradigma da competição ficará órfão. Se nos complementamos, logo, o lugar da competição será cedido à cooperação. O que somos afetará a maneira como operamos. Somos todos dependentes uns dos outros, e por isso, devemos co-operar, trabalhar em conjunto visando um bem comum.

E quanto ao fruto deste trabalho? Numa sociedade competitiva, o fruto deve ser concentrado nas mãos de quem produz. Mas em uma sociedade cooperativa, o paradigma da distribuição dos frutos deixa de ser a concentração para ser a comunhão. Foi isso que a igreja primitiva experimentou. Todos tinham tudo em comum.

Não cabe ao Estado distribuir igualmente os bens entre seus cidadãos. É a consciência transformada pela graça que deve levar os cidadãos do reino a reconhecerem que tudo quanto Deus lhes proporcionou deve ser partilhado com os demais. Se não derrubarmos antes os paradigmas da comparação e da competição, jamais nos disporemos a abrir mão do ‘sagrado’ direito de concentrar bens. Por isso a sociedade é tão injusta. Seus alicerces estão carcomidos pelo egoísmo humano.

Comunhão não é algo que se impõe, nem por autoridades eclesiásticas, nem por autoridades civis. Os crentes primitivos só se dispunham a compartilhar seus bens entre a comunidade porque “era um o coração e alma da multidão dos que criam” (At.4:32a). Portanto, não havia lugar para competitividade ou mesmo para comparações.

Quando estes sentimentos começaram a brotar, Paulo, o apóstolo, os combateu com veemência, chegando mesmo a implorar para que não permitissem que eles comprometessem a unidade original dos crentes (1 Co.1:10). Dirigindo-se aos coríntios, Paulo os acusa de serem carnais, e justifica: “Pois havendo entre vós inveja e contendas, não sois carnais, e não andais segundo os homens?” (1 Co.3:3). “Inveja” e “contendas” nada mais são do que os velhos paradigmas que têm guiado a humanidade por longas eras. Só há inveja onde haja comparação (A grama do vizinho sempre parece mais ver que a nossa). Só há contendas onde haja competição (Vamos tirar a prova e ver quem é melhor, ou quem tem a razão!).

Em posse de novos paradigmas, Paulo detona aquela fortaleza espiritual que insistia em manter-se de pé entre os cristãos de Corinto:
“Afinal de contas, quem é Paulo, e quem é Apolo, senão ministros pelos quais crestes, e isto conforme o que o Senhor deu a cada um? Eu plantei, Apolo regou, mas Deus deu o crescimento. Pelo que, nem o que planta é alguma coisa, nem o que rega, mas Deus, que dá o crescimento. Ora, o que planta e o que rega são um, e cada um receberá o seu galardão segundo o seu trabalho. Pois somos cooperadores de Deus; vós sois lavoura de Deus e edifício de Deus.” 1 Coríntios 3:5-9
Quanta sensibilidade há neste texto paulino! Quanta humildade. Paulo deixa claro que não estava numa disputa com Apolo pela primazia daquela igreja. Eles não eram rivais, mas cooperadores. Em vez de inveja, o que havia era reconhecimento à importância do outro. Em vez de contendas, trabalho conjunto.

Infelizmente, parece que a igreja ainda não conseguiu virar esta página, e vem recapitulando o mesmo erro dos coríntios por séculos. Urge levantar-se uma nova geração de cristãos comprometidos com os paradigmas do reino, que desprezem a feira de vaidades em que se tornaram nossos ajuntamentos, e encarnem o modus vivendi de seu Mestre, Salvador e Rei.

domingo, agosto 13, 2017

9

Por que há deficientes?



Por Hermes C. Fernandes

Sou pai de uma linda menina portadora de necessidades especiais. Rayane, hoje com vinte e quatro anos, sofreu uma lesão cerebral ocasionada pela falta de oxigenação na hora do parto, afetando tanto a fala, quanto o desenvolvimento motor e cognitivo. Graças à uma intervenção divina, ela veio andar aos seis anos, contrariando o prognóstico médico. Sinto-me privilegiado por ter sido escolhido por Deus para ser pai deste ser maravilhoso que tanto me tem ensinado acerca do amor e da força de vontade em superar limites. Definitivamente, eu não seria o mesmo sem Rayane.

Pesquisando pela internet, percebo quão raro é encontrar literatura cristã tratando do assunto. Seria este um tabu entre os cristãos? Quantas mensagens já ouvimos sobre o tema em nossos púlpitos? Por que outras tradições religiosas como o espiritismo kardecista se debruçam sobre ele sem qualquer recato, enquanto as igrejas preferem varrê-lo para debaixo do tapete?

Pior do que ignorar é oferecer respostas carregadas de preconceitos e pressupostos simplistas. Enquanto uns preferem espiritualizar a questão, atribuindo qualquer deficiência à atuação demoníaca, outros preferem fazer uma leitura moralista, como se o portador de necessidades especiais fosse um castigo divino aos erros de seus progenitores.

O que as Escrituras têm a nos dizer?

Começando pelo Antigo Testamento, a primeira coisa que percebemos são as restrições à participação dos deficientes físicos ou mentais em atividades sacerdotais. Para alguns, fica a impressão de que o Deus dos hebreus não tem qualquer apreço por estas criaturinhas indefesas. Veja, por exemplo, o que diz Levítico 21:16-24:
“Falou mais o Senhor a Moisés, dizendo: Fala a Arão, dizendo: Ninguém da tua descendência, nas suas gerações, em que houver algum defeito, se chegará a oferecer o pão do seu Deus. Pois nenhum homem em quem houver alguma deformidade se chegará; como homem cego, ou coxo, ou de nariz chato, ou de membros demasiadamente compridos, ou homem que tiver quebrado o pé, ou a mão quebrada, ou corcunda, ou anão, ou que tiver defeito no olho, ou sarna, ou impigem, ou que tiver testículo mutilado. Nenhum homem da descendência de Arão, o sacerdote, em quem houver alguma deformidade, se chegará para oferecer as ofertas queimadas do Senhor; defeito nele há; não se chegará para oferecer o pão do seu Deus. Ele comerá do pão do seu Deus, tanto do santíssimo como do santo. Porém até ao véu não entrará, nem se chegará ao altar, porquanto defeito há nele, para que não profane os meus santuários; porque eu sou o Senhor que os santifico. E Moisés falou isto a Arão e a seus filhos, e a todos os filhos de Israel.”
O que será que Deus teria contra esses indivíduos? Por que os proibiu de ser sacerdotes? Seria este um juízo moral?

Alguns exegetas afirmam que a perfeição física exigida aos sumo-sacerdotes apontaria para a perfeição moral de Cristo, o Sumo-Sacerdote da Nova Aliança. Uma vez que, segundo Paulo, a Lei contenha a sombra de uma realidade que só se revelaria sob os auspícios da Nova Aliança, há de se supor que tal interpretação possa estar correta. Porém, não encerra toda a verdade.

Primeiro, devemos ressaltar que estas regras só se aplicavam ao cargo de Sumo Sacerdote. Somente o ele poderia atravessar o véu e chegar-se ao altar para oferecer o sacrifício. Àquela época, ninguém se tornava sacerdote por escolha própria. Apenas os descendentes de sacerdotes podiam exercer o sagrado ofício. Portanto, independente de sua condição física, um descendente de Arão era alçado à posição sacerdotal. Todavia, se possuísse qualquer deficiência física ou mental, não poderia ser um Sumo Sacerdote. Um anão, por exemplo, não conseguiria abater um animal oferecido em sacrifício, nem tampouco alcançaria as hastes da Menorah que media mais de três metros de altura para acender as luzes do lugar santo, atividades que ele deveria exercer sem apelar para ajuda de ninguém. Imagine agora um sacerdote coxo tendo que ficar de pé entre sete e catorze horas encabeçando o ritual de abatimento de animais. E como um cego poderia identificar as veias certas do animal a ser degolado, evitando um sofrimento desnecessário? Como alguém com defasagem intelectual poderia julgar os delitos cometidos pelas pessoas?

Portanto, tais regras não visavam excluir os portadores de deficiência, mas poupá-los de um trabalho para o qual não estavam habilitados devido à sua condição.

Ninguém, em sã consciência, confiaria a um cego a direção de um carro. Porém, isso jamais deveria ser pretexto para que subestimássemos a capacidade dos portadores de necessidades especiais. Se não podem exercer uma ou outra atividade, certamente são plenamente capazes de tantas outras. Alguns chegam mesmo a nos surpreender, desenvolvendo habilidades notáveis.

Permita-me usar os termos “deficientes” e “portadores de necessidades especiais” de maneira intercambiável, sem qualquer juízo de valor e sem me preocupar em ser politicamente correto. Minha preocupação é de ser compreendido. Por isso, vou evitar termos técnicos e conceitos desconhecidos pelo senso comum. 

Em todas as sociedades, tais indivíduos sempre foram alvo de preconceito. Em algumas delas, como a grega, apesar de seu avanço no campo da filosofia e das artes, os deficientes eram descartados assim que nasciam, por serem considerados um peso extra. Se não pudessem lutar pela cidade numa eventual invasão inimiga, logo, não tinham o direito de viver.

Basta uma olhada mais atenciosa no Antigo Testamento para verificar que, graças às instruções contidas na lei, o povo hebreu experimentou um avanço na compreensão da dignidade que deveria ser atribuída ao deficiente. O respeito com que deveriam tratar os deficientes revelaria o grau de temor e reverência que tinham para com Deus. Repare a ênfase do mandamento:
“Não amaldiçoes o surdo, nem ponhas tropeço diante do cego, mas temerás o teu Deus. Eu sou o Senhor.” Levítico 19:14
Era como se Deus dissesse: Quem mexer com eles vai se ver comigo! Ainda que o surdo jamais ouça os xingamentos e maldições lançados sobre ele, nem o cego veja o tropeço posto em seu caminho, Deus toma tais ofensas como se dirigidas a Ele próprio. Como todo mandamento, há sanções aplicadas àqueles que desrespeitam o deficiente: “Maldito quem desviar o cego do seu caminho” (Dt.27:18).

É característica do justo o tratar bem o portador de necessidades especiais. Por isso, Jó declara, ao relembrar de seus tempos áureos, que costumava ser “os olhos do cego e os pés do coxo” (Jó 29:15), o que evidenciava a pureza de seu caráter.

Apesar dos avanços patrocinados pela lei entregue por Deus a Moisés, ainda restava um ranço de preconceito contra os deficientes entre os hebreus. Prova disso é o injustificável ódio que Davi nutria contra esses indivíduos durante uma fase de sua vida. Tente não sentir-se constrangido diante do relato abaixo:
“Em Hebrom reinou sobre Judá sete anos e seis meses, e em Jerusalém reinou trinta e três anos sobre todo o Israel e Judá. E partiu o rei com os seus homens a Jerusalém, contra os jebuseus que habitavam naquela terra; e falaram a Davi, dizendo: Não entrarás aqui, pois os cegos e os coxos te repelirão, querendo dizer: Não entrará Davi aqui. Porém Davi tomou a fortaleza de Sião; esta é a cidade de Davi. Porque Davi disse naquele dia: Qualquer que ferir aos jebuseus, suba ao canal e fira aos coxos e aos cegos, a quem a alma de Davi odeia. Por isso se diz: Nem cego nem coxo entrará nesta casa.” 2 Samuel 5:5-8
Como alguém dotado de sensibilidade ímpar como Davi seria capaz de odiar indivíduos indefesos? Que bom que, como todo ser humano, Davi teve a oportunidade de rever sua postura extremamente preconceituosa.  Tanto que ao tomar conhecimento da existência de um filho deficiente de seu saudoso amigo Jônatas, mandou buscá-lo em casa e o constituiu príncipe em seu reino. Davi sustentou a Mefibosete até o fim de sua vida, mesmo sendo neto de seu arquirrival Saul (2 Sm.9:13).

Davi jamais poderia imaginar que séculos depois, um deficiente visual que mendigava à margem da estrada foi o primeiro a enxergar o que ninguém parecia ter notado: Aquele jovem galileu que arrastava multidões por onde andava era ninguém menos que o Descendente prometido por Deus a Davi e que assumiria seu trono para sempre.

É um consolo ler que as Escrituras buscam resgatar o valor do deficiente. Porém, isso não responde a mais das intrigantes perguntas: por que existem deficientes?

Esta pergunta também intrigava os discípulos de Jesus. O que os levou a perguntar a razão pela qual um homem era cego desde que nascera. Ecoando crenças difundidas entre os judeus, indagaram a Jesus se sua cegueira teria sido causada por seus próprios pecados ou pelos pecados cometidos por seus pais. Sem titubeios, Jesus lhes respondeu: “Nem ele pecou nem seus pais; mas foi assim para que se manifestem nele as obras de Deus” (Jo.9:3).

A crença articulada pelos discípulos atribuía qualquer deficiência física ou mental congênita ao pecado,  quer por parte do próprio portador (talvez numa vida anterior), ou por parte dos seus progenitores (neste caso, a deficiência seria uma espécie de maldição hereditária). Jesus desfere um golpe neste tipo de raciocínio raso e perverso. A graça por Ele revelada subverte a lógica do carma.

Em vez de um juízo moral, Jesus prefere enxergar naquela deficiência a oportunidade para a manifestação das obras de Deus.

Ora, que “obras” Deus poderia manifestar ao mundo através desses indivíduos? Nesse caso em particular, Jesus restaurou-lhe a visão.  Será que tais obras se limitariam à realização de milagres? Caso seja, então, por que nem todos os cegos são curados? Por que a maioria dos deficientes segue em sua débil condição mesmo depois de conhecer o amor de Cristo revelado no Evangelho?

São questões inquietantes, responsáveis pela postura equivocada adotada por muitas igrejas. Se o milagre não acontece, logo, conclui-se que a glória de Deus não se manifestou, restando-lhe uma alternativa: atribuir aquela condição à falta de fé do indivíduo ou daquele que intercedeu. Para eles, a glória de Deus só se manifesta se o paralítico saltar da cadeira de rodas e sair andando, se o mudo soltar a língua e falar, se o surdo ouvir perfeitamente e o cego puder descrever a aparência do pregador. É lamentável ver quantos destes deficientes já foram vítimas de todo tipo de sensacionalismo por parte dos que se apresentam ao mundo como a solução de todos os problemas.

Recentemente deparei-me com um anúncio publicado no facebook em que um autodenominado apóstolo se apresenta como ex-síndrome de down, que teria ido ao inferno sete vezes e morrido cinco vezes. Como se não bastasse, o sujeito cobra uma considerável quantia em dinheiro para assistir às suas palestras e receber sua oração. É este tipo de coisa que atenta contra a credibilidade da igreja atual. Quanta esperança falsa está sendo alimentada no coração dos incautos. Espero que da próxima vez que ele for ao inferno, ele fique por lá. Mas parece que nem o diabo caiu no seu conto e resolveu devolvê-lo com casca e tudo. Perdoem-me o sarcasmo. Mas só assim para aturar este tipo de coisa sem dizer impropérios. Ele deveria estar na cadeia.

Que Jesus segue curando, não tenho a menor dúvida. Minha filha é uma prova disso. Desenganada pela medicina, ela passou a andar em pleno culto dominical, sem que ninguém mandasse. Porém, ela não deixou de ser portadora de necessidades especiais.  Se quiser saber com detalhes, assista ao vídeo em que relato o testemunho de como conheci a graça de Deus através da minha filha. O vídeo está disponível em meu canal do youtube e na lateral do meu blog.

Todavia, as obras de Deus não se manifestam nestes indivíduos apenas através de um eventual milagre.

Vejamos, por exemplo, o caso de Mefibosete. Este era paraplégico. Não de nascença, mas por causa de uma queda sofrida quando ainda era um bebê. Que “obra” Deus manifestou ao mundo através dele? Que milagre o Senhor teria feito? Nele, nenhum. Pelo menos, não um milagre físico e aparente. Mas através dele, Deus operou um grande milagre no coração de Davi. Como vimos algumas linhas acima, Davi odiava “cegos e coxos”. Para que pudesse ser, de fato, um homem segundo o coração de Deus, Davi teria que aprender a amar o que Deus ama, sem jamais desprezar o que Deus não despreza.  Convidar a Mefibosete para que ocupasse lugar de honra em seu reino foi um enorme salto na vida de Davi. Ouso dizer que o preconceito que teve que vencer em si mesmo foi um gigante muito maior do que Golias.

Portanto, concluo que os portadores de deficiência são canais através dos quais a graça de Deus nos é ministrada. A maneira como lidam com suas limitações nos enternece o coração e nos desafia a enfrentar nossos próprios limites.

Vejamos, ainda, o caso de Moisés.
“Então disse Moisés ao SENHOR: Ah, meu Senhor! eu não sou homem eloquente, nem de ontem nem de anteontem, nem ainda desde que tens falado ao teu servo; porque sou pesado de boca e pesado de língua. E disse-lhe o SENHOR: Quem fez a boca do homem? ou quem fez o mudo, ou o surdo, ou o que vê, ou o cego? Não sou eu, o SENHOR? Vai, pois, agora, e eu serei com a tua boca e te ensinarei o que hás de falar.” Êxodo 4:10-12
Já ouvi argumentos afirmando que Deus não seria responsável pelo nascimento de pessoas especiais. Porém, nesta passagem, Deus toma para Si a responsabilidade. Foi Ele quem as criou, e as fez com um propósito.

Não sabemos ao certo qual seria a deficiência de Moisés. Cogita-se que ele fosse gago. Ainda assim não sabemos se sua “gagueira” teria origem emocional ou neurológica. Mas Deus o envia ao homem mais poderoso da Terra, a fim de confrontá-lo e libertar Seu povo da escravidão.

Ele faz uso de pessoas com deficiência, seja física ou mental, para dar exemplo de vida para quem aparentemente é saudável (Leia 1 Co.1:25-29). Quantos exemplos de pessoas que mudaram radicalmente sua postura, depois de ver ou ouvir testemunhos de superação de pessoas com algum tipo de deficiência. Emocionamo-nos quando percebemos o legado de pessoas como Stephen Hawking, o famoso físico que do alto de sua cadeira de rodas ocupa a cátedra que um dia foi ocupada por ninguém menos que Isaac Newton. Emocionamo-nos quando tomamos ciência de que algumas das mais lindas sinfonias foram compostas por um deficiente auditivo. Refiro-me a ninguém menos que Ludwig Van Beethoven.

A pior deficiência não é a de ordem física ou mental, mas a de caráter que se manifesta principalmente através do preconceito.

Consola-nos saber que tais deficiências não se constituem numa sentença irrevogável.  Nossas limitações, sejam quais forem, são temporárias. Paulo diz em 1 Coríntios 15:53 que “é necessário que isto que é corruptível se revista da incorruptibilidade e que isto que é mortal se revista da imortalidade.” Um dia, quando Cristo despontar no horizonte celeste, os deficientes serão plenamente restaurados. “Então os olhos dos cegos serão abertos, e os ouvidos dos surdos se abrirão. Então os coxos saltarão como cervos, e a língua dos mudos cantará; porque águas arrebentarão no deserto e ribeiros no ermo. E a terra seca se tornará em lagos, e a terra sedenta em mananciais de águas; e nas habitações em que jaziam os chacais haverá erva com canas e juncos. E ali haverá uma estrada, um caminho, que se chamará o caminho santo; o imundo não passará por ele, mas será para aqueles; os caminhantes, até mesmo os loucos, não errarão” (Isaías 35:5-8).

Enquanto não chega este dia, convém-nos lutar pelos direitos da pessoa portadora de qualquer deficiência, sem subestimar seu potencial de superação, mas também respeitando suas limitações sem jamais nos esquecer de nossas próprias. 

Se você tem um destes seres especiais em sua casa, sinta-se um privilegiado. Deus só dá pessoas especiais para famílias especiais. Trate-os, não apenas como portadores de necessidades especiais, mas como portadores de uma mensagem do céu para você, sua família e toda a humanidade.