quarta-feira, janeiro 17, 2018

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Delação Premiada da Alma




“Portanto, agora nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus, que não andam segundo a carne, mas segundo o Espírito. Porque a lei do Espírito de vida, em Cristo Jesus, me livrou da lei do pecado e da morte.” Romanos 8:1-2

Somos salvos pela graça! Isso significa que nada fizemos para merecer a salvação. Salvos pela graça, mediante uma fé da qual Ele é o autor e consumador. Em outras palavras, Ele deu o pontapé inicial e é quem vai concluir a obra. Entender isso é essencial para que desfrutemos plenamente da paz oferecida em Jesus.

Porém, o fato é que, mesmo salvos, somos mantidos cativos pela lógica meritocrática. Ainda que acreditemos que a salvação independa de mérito, agimos como se dependesse. Nossa mente está viciada em padrões de pensamentos profundamente arraigados, aos quais Paulo chama de “fortalezas espirituais” que devem ser derrubadas até que não fique pedra sobre pedra (2 Co.10:4).

Para Paulo, andar “segundo a carne” é aderir a uma espiritualidade que dependa do desempenho, enquanto que viver “segundo o Espírito” é depender exclusivamente da graça. Os que militam segundo a carne “inclinam-se para as coisas da carne”, mas os que militam segundo o Espírito, para as coisas do Espírito. A inclinação da carne é morte, a do Espírito é vida e paz.

Qualquer um que tenha abraçado o evangelho com consciência vai sinalizar positivamente para estas preciosas verdades. Porém, terá que enfrentar padrões insistentes de pensamentos. A gente diz crer na graça, mas segue dependendo da própria performance.

Quem tenta agradar a Deus a partir da domesticação de suas pulsões, invariavelmente vai desagradá-lo, pois se nega a depender da graça para depender de si mesmo. É como tentar enfrentar as fortes correntezas de um rio e acabar sendo levado por elas.

Quando o apóstolo diz que a inclinação da carne é inimizade contra Deus, não é apenas por causa de suas obras más, mas por retroalimentar o ciclo do orgulho humano. Mesmo as coisas boas que eventualmente praticar, não passarão de insulto à graça divina. Depender da carne, mesmo que para tentar agradar a Deus, resultará em inimizade contra Deus, pois a mesma não pode sujeitar-se à lei de Deus. Portanto, só há uma maneira de agradá-lo: estando no Espírito e não na carne. Rompe-se a lógica meritória. Rasga-se o livro caixa existencial, onde registramos nossas “entradas” e “saídas”, “créditos” e “débitos”.

A conclusão de Paulo não poderia ser outra, senão de que “somos devedores, não à carne para viver segundo a carne” (Rm.8:12).

Aqui, o apóstolo revela o “x” da questão. Sabe quando adestramos um animal, condicionando-o a responder conforme desejamos? Como se dá este condicionamento? Através da recompensa. Ele não age mediante reflexão, considerando as possibilidades, os prós e os contras. Não. Ele age por ter seus instintos aguçados pela oferta de uma recompensa. Assim é a carne.

Quando a adestramos, temos a ilusão de que finalmente ela se submeteu à lei de Deus. Então, inconscientemente dizemos a ela: Boa menina! Já que obedeceu ao comando, vou te recompensar. E geralmente, a recompensa que ela espera é algo que desagrada a Deus. Mesmo que seja apenas a manutenção de um sentimento de orgulho, de superioridade ( eu disse “apenas”?... como se isso por si só não se constituísse no maior insulto que se possa fazer a Deus).

Agora, vamos analisar o outro lado da moeda.

Geralmente, quando atacamos a doutrina das obras meritórias, abordamos apenas o aspecto do mérito, negligenciando o aspecto do demérito. E assim, nossa consciência se mantém refém sem se aperceber disso.

E quando pecamos, o que fazemos? Inconscientemente, buscamos uma maneira de nos infringir algum castigo. A lógica aqui é a mesma, a do mérito e demérito. O nome disso é penitência. Tento convencer-me de que meu pecado foi tão grave que a maneira de castigar-me é renunciando qualquer coisa de bom que a vida possa me dar e aceitando com resiliência a mediocridade. Vale salientar que nem sempre isso ocorre no nível da consciência. Na maioria das vezes é inconsciente.

“Não mereço nada melhor que isso”, nos convencemos. Ou como diz o adágio, “pra quem é, bacalhau basta.”

Há que se romper com tal lógica perversa se quisermos desfrutar do que Deus, por Sua graça, tem reservado para nós a fim de que nossa existência sirva a Seus propósitos. E isso faremos quando aprendermos a depender exclusivamente de Sua graça e não na força de nosso braço.

Em se tratando de salvação, nada fizemos para merecê-la e nada podemos fazer para perdê-la. Em se tratando do propósito de Deus para a nossa existência, o princípio é o mesmo.

A lógica meritocrática nos mantém reféns do passado. A graça nos liberta e nos remete para o futuro. Não vivemos em função do que fizemos ou deixamos de fazer, mas em função daquilo para o qual fomos alcançados.

Em Filipenses 3, Paulo fala sobre a subversão da lógica do livro caixa. Ele diz por A + B que o que antes considerava lucro, ele agora considerava perda. Isso significa que ele não levava mais em conta nada além da própria graça. Não há mais nada a ser cobrado. Nada a cobrar de si, nada a cobrar dos demais. Deixamos para trás as coisas que devem ficar no passado e avançamos para as que estão diante de nós, a fim de alcançar aquilo para o qual fomos alcançados.

Se a carne busca nos submeter às suas pulsões, o Espírito nos guia pelo Seu ímpeto. A carne nos segura ao passado, o Espírito nos remete para frente. Não se trata apenas de impulsos, mas de ímpeto. Impulso é força que vem de fora. Ímpeto é força que vem de dentro.

Imagine um carro enguiçado sendo empurrado ladeira a cima. Cada vez que empurram, o carro anda alguns centímetros e voltar a descer com mais força ainda. É como uma reação pendular. Mas se o motorista girar a chave e lograr fazer funcionar o motor, o carro vai subir a ladeira sem dificuldade. A força do motor gera o ímpeto necessário para fazê-lo andar sem voltar para trás.

Se desligar o carro e destravar o freio de mão, o carro vai descer a ladeira sem que ninguém consiga detê-lo. Assim é quem se entrega de vez às pulsões da carne. Qualquer um que se coloque no caminho é atropelado.

Outra passagem que lança luz sobre a questão é encontrada em I João 3:20-21:

“Sabendo que, se o nosso coração nos condena, maior é Deus do que o nosso coração, e conhece todas as coisas. Amados, se o nosso coração não nos condena, temos confiança para com Deus.”

Tenho a impressão de que temos entendido equivocadamente esta passagem. Se nosso coração é enganoso, não devemos confiar em seu veredito, seja-nos favorável ou não, condenando-nos ou absolvendo-nos. Se ele nos condenar, devemos recorrer a uma instância superior: DEUS! Mas se ele nos absolver, nossa confiança segue sendo em Deus.

Mesmo quando nos absolve, sua motivação pode não ser confiável. O que ele realmente pretende é conquistar nossa confiança para que no futuro, nos submetamos cegamente a qualquer de suas avaliações.

Redobremos os cuidados para não confundirmos a voz do Espírito com a de nossa própria carne. Quando o Espírito nos justifica, Ele não nos inocenta. Temos a convicção de que erramos, porém, nos arrependemos. Já a carne tenta nos inocentar, apresentando-nos justificativas para os nossos erros. Não confunda justificação com justificativa. Ser justificado é ser perdoado e receber de Deus um nada-consta do tribunal celestial. Deus só justifica quem admite não haver justificativa para os seus pecados. O veredito do Espírito ao nos justificar produz verdadeira paz para a nossa consciência. O veredito do nosso coração, por ser aliado de nossa carne, produz uma sensação de trégua. A paz de Deus é eterna. A trégua proposta pela carne é temporária.

Da mesma forma, quando pecamos, o Espírito não põe pano quente e nem propõe algum tipo de acordo. Somos tomados por uma tristeza que visa conduzir-nos ao arrependimento sincero.  Se o Espírito nos conclama ao arrependimento, o diabo segue nos acusando. E a carne, o que faz? Descaradamente, ela nos propõe uma espécie de delação premiada. E assim, põe para fora todos os nossos podres, mas sai ilesa, como verdadeira heroína. Não se esqueça de que se trata de “delação premiada”. Mais cedo ou mais tarde, ele cobra seu prêmio.  E não pense que ela se contenta apenas em ser ‘inocentada’. Ela quer mais. Ela quer o direito de continuar pecando a seu bel-prazer.  E assim, o ciclo se retroalimenta ad infinitum.

Somente a graça interrompe este “karma”, liberando-nos para viver plenamente o propósito de Deus para a nossa existência neste mundo. 

domingo, janeiro 14, 2018

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A maldição das múmias vivas




Por Hermes C. Fernandes


A expressão “ossos do ofício” é usada comumente quando nos referimos às dificuldades de uma determinada atividade. Por exemplo: por trás de todo glamour que envolve a medicina, o contato diário que o médico tem com portadores de doenças contagiosas pode ser considerado como ossos do ofício.  A origem desta expressão é, no mínimo, curiosa. Diz-se que antigamente utilizava-se pó de tutano para obter o tom alvo das folhas de ofício. O tutano é uma substância encontrada no interior dos ossos e era conhecido por suas propriedades alvejantes. Como esse processo de branqueamento era lento e trabalhoso, convencionou-se chamar de “ossos do ofício” toda e qualquer atividade que oferecesse alguma dificuldade para o exercício pleno de uma profissão. Toda e qualquer atividade tem seus "ossos". Porém, alguns desses "ossos" são completamente desnecessários, constituindo-se pesos extras que carregamos nos ombros e que acabam por retardar nossa caminhada.

Durante o êxodo dos hebreus, Moisés se lembrou de um juramento feito quatro séculos antes entre José e seus irmãos: seus ossos não poderiam ficar no Egito quando o Senhor removesse de lá o Seu povo para introduzi-lo na terra que prometera a Abraão, Isaque e Jacó (Gênesis 50:25; Êxodo 13:19; Josué 24:32; Hebreus 11:22).

Se já é difícil carregar um caixão desde a capela até o túmulo, imagine ter que carregar um sarcófago egípcio (bem mais pesado que um caixão!) por quarenta dias pelo deserto. Este era o tempo estimado da jornada entre o Egito e a Terra Prometida. O que Moisés jamais poderia supor é que, em vez de quarenta dias, a jornada duraria quarenta anos. Quantos se interessariam em ser voluntários para carregar os ossos de José? Por mais que ele tenha sido o instrumento usado por Deus para prover a subsistência daquele povo em seus primórdios, não duvido que não raras vezes alguém tenha sugerido a Moisés que largasse seus restos mortais no meio do caminho. Mas juramento é juramento. Aquela múmia teve que acompanhá-los até que atravessassem o Jordão e pisassem na terra da promessa.

De maneira semelhante, muitos têm carregado um "peso morto" durante sua peregrinação existencial. A caminhada, além de longa, se torna insuportavelmente pesada. Esses "ossos" podem representar um padrão de comportamento, resquício de nosso velho homem, que deveria ter sido sepultado juntamente com ele no batismo, porém, teima em nos assombrar. Podem ser uma palavra que ouvimos lá trás e que ainda repercute em nosso coração, minando nossas energias e sobrecarregando-nos de expectativas fantasiosas e sobre-humanas. Podem ser um paradigma que precisa ser rompido. Um vício que deveria ter sido abandonado. Um hábito que ainda não foi desarraigado. Um ciclo que se retroalimenta. Um relacionamento tóxico. Mesmo que jamais nos tire da rota, no mínimo, retardará nossa caminhada.

Diferentemente de José, Miriam e Arão, ambos irmãos de Moisés que tiveram participação importante na retirada dos hebreus do Egito, morreram a caminho de Canaã, e ali mesmo, onde morreram, foram sepultados. Nenhum deles deu trabalho extra para o seu povo como o fez José. O próprio Moisés, apesar de sua liderança inquestionável, morreu também no caminho, faltando pouquíssimo para adentrar a terra prometida. Moisés nem sequer deu trabalho para que o sepultassem. Deus mesmo o sepultou e seu túmulo jamais foi encontrado. Nenhum mausoléu foi construído em sua memória. Todavia, o legado que deixou à humanidade jamais se perderá. 

Que ninguém tenha que se ocupar de carregar o que restar de nós. Que em vez de um peso a ser carregado pelas próximas gerações, deixemos uma chama que lhes caberá manter acesa até que adentremos à Era prometida. Que sejam depositárias de nossos sonhos e não de nossos ossos. Que perpetuem nossas virtudes, jamais nossos vícios, nossa paixão pelo bem comum e não nossos interesses mais vis. Que se sintam desobrigadas a nos carregar nos ombros, mas que nos carreguem no coração como inspiração, e não como modelos inquestionáveis a serem seguidos. 

Assim como não devemos ser pesos mortos na vida de ninguém, não temos o direito de transformar ninguém em uma múmia viva. Qualquer pessoa que se sinta nosso refém é uma forte candidata a múmia viva. Já não basta sermos assombrados por fantasmas do passado? Já não é suficiente ter que lidar com o peso extra da culpa por algo que não foi o que esperávamos? É sério que teremos que transformar relacionamentos em prisões eternas? Ao ressuscitar a Lázaro, Jesus ordenou às suas irmãs: "Desatai-o e deixai-o ir" (João 11:44b). Em outras palavras: não pensem que o fato de haverem intercedido por ele torna-o prisioneiro da vida que levava antes de morrer. Quem está vivo é livre para ir aonde quiser. Se ele quiser retomar a vida que levava antes, ele é livre para fazê-lo. Mas se quiser retomar as rédeas de sua vida e refazê-la em outro lugar,ele também é livre para fazê-lo. Não basta desatá-lo. Vocês devem deixá-lo ir. 

Adivinhem para onde Lázaro foi depois disso. Para casa. Ele poderia ter ido para qualquer outro lugar. Afinal, estava vivo. E mais: estava livre. Mas preferiu voltar para casa onde vivia antes com suas irmãs. A vida simplesmente voltou ao que era antes. A cena se repetia: enquanto Marta, como sempre, servia, "Lázaro estava entre os que se reclinavam à mesa com ele" (João 12:2).

Quem está vivo deve sentir-se livre. Quem está livre deve sentir-se vivo. Nosso papel é desatar, não mumificar. Libertar, não aprisionar. Emancipar em vez de manter uma dependência doentia e castradora.  

Livres das ataduras das chantagens emocionais, das expectativas inalcançáveis, das cobranças, da gratidão vista equivocadamente como dívida, deixamos de ser peso morto, carregados de um lado para o outro, sem vida própria. Passamos a ser bênção, não maldição. Tornamo-nos motivo de gratidão, não de assombração. 

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Trate de colocar a barba de molho!

Por Hermes C. Fernandes

“Tu, porém, não devias olhar com prazer para o dia da desgraça de teu irmão (...) 
nem falar arrogantemente no dia da angústia...” Obadias 1:12a,c 

Eu estava no aeroporto de Stuttgart, no interior da Alemanha, aguardando uma conexão para Berlim, quando me deparei com esta intrigante passagem. Pelos lábios de Obadias, Deus chama a atenção de Edom, os descendentes de Esaú, pelo fato de haver tripudiado de seus irmãos israelitas devido a invasão sofrida por Jerusalém. Eles não apenas se negaram a prestar qualquer socorro aos judeus, como facilitaram para que os inimigos tomassem a cidade. Sim, eles estavam lá! Assistiram de camarote, mas nada fizeram. Não moveram uma palha para impedir a desgraça de seus irmãos.
“Por causa da violência feita a teu irmão Jacó, a confusão te cobrirá, e serás exterminado para sempre. No dia em que estavas presente, no dia em que estranhos lhe levaram os bens, e os estrangeiros lhe entraram pelas portas e lançaram sortes sobre Jerusalém, tu mesmo eras como um deles.” Obadias 1:10-11 
Mesmo que aquilo fosse a execução do juízo de Deus sobre Jerusalém, isso não lhes dava o direito de tripudiar sobre a desgraça de seus irmãos. Deveriam, antes, dar ouvidos à sabedoria destilado pelos lábios de Salomão: “Quando o teu inimigo cair, não te alegres, nem quando ele tropeçar se regozije o teu coração, para que o Senhor não o veja, e isso seja mau aos seus olhos, e dele desvie a sua ira” (Provérbios 24:17-18). Ou à advertência de Davi: “Retrocedam cobertos de vergonha os que dizem: Benfeito! Benfeito!”(Salmos 70:3). Por isso, o Senhor os admoesta severamente: “Como tu fizeste, assim se fará contigo; tua maldade cairá sobre a tua cabeça” (Obadias 1:15b).

Sempre que assistimos à derrocada de alguém, devemos ser remetidos à nossa própria humanidade, lembrando-nos de que amanhã poderá ser a nossa vez. O que ocorre aos nossos desafetos pode ser um indigesto lembrete, e até um aviso do que poderá nos ocorrer em seguida. “Deus que me livre e guarde!”, você dirá. Sim, o mesmo Deus que não livrou, nem guardou o seu inimigo de passar por isso, talvez permita que você passe pelo mesmo a fim de não se sentir superior a ele e a ninguém. 

Lucas narra um episódio vivido por Jesus em que “estavam presentes alguns que lhe falavam dos galileus, cujo sangue Pilatos misturara com os seus sacrifícios. E, respondendo Jesus, disse-lhes: Cuidas vós que esses galileus foram mais pecadores do que todos os galileus, por terem padecido tais coisas? Não, vos digo; antes, se não vos arrependerdes, todos de igual modo perecereis. E aqueles dezoito, sobre os quais caiu a torre de Siloé e os matou, cuidais que foram mais culpados do que todos quantos homens habitam em Jerusalém?” (Lucas 13:1-4). Em outras palavras, pau que dá em Chico, dá em Francisco. Ninguém está isento. Portanto, antes de rir da desgraça alheia ou referir-se a ela como castigo de Deus sobre seu desafeto, trate de colocar a barba de molho. O próximo pode ser você.

Faço minhas as palavras de Davi: “Confundidos sejam por causa da sua afronta os que me dizem: Benfeito! Benfeito! Folguem e alegrem-se em ti os que te buscam; digam constantemente os que amam a tua salvação: Engrandecido seja o Senhor! Contudo, eu sou pobre e necessitado; mas tu, ó Senhor, cuidas de mim. Tu és o meu auxílio e o meu libertador; não te detenhas, ó Deus meu.” Salmos 40:15-17

quarta-feira, janeiro 10, 2018

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E se Deus lhe desse carta branca para fazer o que quisesse?


Por Hermes C. Fernandes

Assim que ungiu Saul a rei de Israel, Samuel o advertiu que ao se afastar dele, três grupos distintos cruzariam o seu caminho naquele mesmo dia.[1]  O primeiro grupo formado por apenas duas pessoas o encontraria junto ao sepulcro de Raquel e de maneira sutil o acusaria de haver falhado em recuperar as jumentas que seu pai havia perdido, e de haver se tornado no motivo de sua aflição.

Geralmente, este grupo é rápido no gatilho. Pessoas prontas a nos acusar são sempre as primeiras a se apresentar. Paulo os identifica como “mensageiros de Satanás” que surgem do nada para nos esbofetear, isto é, jogar em nossa cara nossas falhas (2 Coríntios 12:7). O tormento que produzem é comparado ao provocado por espinhos dilacerantes em nossa carne.  E o pior é que não dá para escapar de suas investidas. Não há oração capaz de nos livrar deles. Resta-nos tão somente refugiar-nos na suficiência da graça

Não foi em vão que aqueles homens escolheram o sepulcro de Raquel como cenário onde encontrariam Saul.  Saul era da tribo de Benjamim, talvez a mais desprezada tribo de Israel, devido ao fato de que em seu parto, Benjamim causara a morte de sua própria mãe, Raquel. Os membros da tribo de Benjamim carregavam a culpa de descenderem daquele que causou a morte da esposa predileta de Jacó. Por ironia do destino, justamente aquela tribo proveria o primeiro rei de Israel. Assim como Benjamim teve que carregar aquele estigma o resto de sua vida, Saul teria que carregar a culpa de ter falhado e decepcionado a seu pai.

O sepulcro de Raquel era o triste lembrete da dor e da perda provocadas pelo nascimento de Benjamim. Talvez por isso, Jacó tenha escolhido ser enterrado ao lado de Lia, sua primeira esposa e não de Raquel, a que ele realmente amou e cujo dote lhe custou catorze anos de trabalho.

O “sepulcro de Raquel” representa em nossa vida aqueles momentos cruciais em que temos que escolher o que deve sobreviver e o que deve ser sacrificado. Toda escolha implica renúncia. Raquel preferiu morrer para que Benjamim fosse poupado, mesmo sabendo que ele teria que carregar esta culpa o resto de sua vida.

Quantos já não temos machucado ao fazer nossas escolhas? Quanta frustração geramos nas pessoas a quem amamos? Quantos “jumentos” perdidos foram achados por outros? Quantas vezes deixamos de ser motivos de orgulho e alegria para nos tornarmos motivo de queixa e decepção? Falhamos como pais, como filhos, como irmãos, como cônjuges, como amigos. 

O que fazer ante a esta realidade? O mesmo que Saul fez:  seguir jornada. Ou como disse Paulo: “Deixando as coisas que para trás ficam, avanço para as que estão diante de mim...” (Filipenses 3:13).

Se os jumentos já foram encontrados, a busca de Saul se encerrou. A missão que recebera de seu pai era apenas o pretexto usado por Deus para que Saul encontrasse seu próprio destino. Portanto, o extravio dos jumentos foi um prejuízo necessário e temporário que resultaria num ganho infinitamente maior. Por isso, ao anunciar a Saul que eles haviam sido encontrados, Samuel lhe disse: "O que é isso diante de tudo o que é desejável em Israel e que Deus reservou para você e sua família?" 

O que não dá é ficar lamentando a vida inteira sem se aperceber do propósito maior por trás dos fatos.  Algumas feridas, o tempo e a graça se encarregarão de cicatrizar. Saul estava certo de que a aflição que causara ao coração de seu pai eventualmente cessaria. O que bem que estava por vir compensaria toda angústia que provocara, ainda que involuntariamente.

Saul prosseguiu sua jornada, indiferente ao que aqueles homens diziam. Aliás, eles não lhe disseram nada que já não soubesse.

O segundo grupo que cruzou seu caminho era formado por três homens que iam ao encontro do Senhor em Betel e levavam consigo suas ofertas. Ao encontra-lo, a primeira coisa que fazem é perguntar-lhe como ele estava. Além de demonstrar preocupação com seu estado atual, um deles lhe oferece pão. O profeta lhe deixou de sobreaviso de que ele não rejeitasse aquele suprimento. Para cada dedo em riste, há mãos que se estendem para nos ajudar. Para cada pessoa que nos encontra no sepulcro de Raquel, há quem nos encontre a caminho de Betel. São estes que nos trazem provisão, seja de ordem material, emocional ou espiritual.

Se o primeiro grupo representava o passado, o segundo representava o presente.

O principal compromisso de Deus é com a execução de Seus propósitos. Mas isso não se sucederá sem que se garanta a manutenção da vida. Por isso, antes de pedir que venha  o Seu reino e seja feita a Sua vontade, Jesus nos ensinou a pedir que o pão nosso de cada dia nos seja dado HOJE. Buscamos em primeiro lugar o Seu reino e a Sua justiça, mas na certeza de que as demais coisas nos serão acrescentadas. E para tal, Ele usa canais sempre dispostos a serem bênção na vida dos outros. Quem sobe a Betel para buscar ao Senhor, tem que está disposto a encontra-lo no próximo. O Deus revelado no Evangelho escolheu ser amado no próximo. Aqueles homens poderiam ter agido como o sacerdote e o levita da parábola, que por estarem a caminho do templo, não se dignaram a atender o moribundo encontrado no caminho. Cada um estava preocupado em garantir que chegariam a tempo para cumprir sua escala no culto. Não podemos usar Deus como desculpa para a nossa indiferença. Se as mãos que se estendem a Deus em louvor não forem as mesmas que se estendam ao próximo em amor, qualquer gesto de adoração será nulo.

Não perca tempo dando ouvidos a quem lhe acusa. Prefira escutar atentamente aos que ao lhe encontrarem no caminho demonstrem preocupar-se com você através de uma simples pergunta: como você está?

Se há quem se preocupe com os bens perdidos, há quem se preocupe com você, e que se dispõe a lhe ouvir em vez de lhe acusar. 

O terceiro e último grupo com que Saul se encontrou naquele dia representava o futuro. Cada um dos seus componentes trazia instrumentos usados para louvar a Deus, e enquanto caminhavam, profetizavam. Saul foi orientado por Samuel a misturar-se com eles. Não deu outra coisa: ele também começou a profetizar. Seu coração foi transformado. Ele já não era o mesmo homem que saíram em busca dos jumentos perdidos de seu pai, mas o homem escolhido por Deus para ocupar o trono de Israel. Somente alguém que tenha passado por esta metamorfose poderia receber de Deus carta branca para fazer o que bem desejasse.

"Faze o que achar melhor, porque Deus é contigo!" (1 Samuel 10:7b). Somente corações transformados recebem este voto de confiança da parte de Deus. 

Paulo, xará de Saul,[2] nos orienta a que sejamos cheios do Espírito Santo falando entre nós com salmos, hinos e cânticos espirituais.[3] Ninguém será transformado naquilo que está destinado a ser enquanto se mantiver isolado. A transformação feita por Deus, mesmo sendo de caráter subjetivo e individual, ocorre no contexto coletivo.  Precisamos caminhar ao lado de quem vislumbra o futuro, desafiando-nos a ser melhores a fim de estarmos preparados para aquilo que ele nos reserva. Os representantes do passado, passam por nós. Os representantes do “aqui e agora” cruzam nosso caminho, trazendo-nos provisão e encorajamento. Mas é na companhia dos representantes do futuro que devemos prosseguir em nossa jornada.




[1] 1 Samuel 10:1-24
[2] Saul e Saulo são variações do mesmo nome. Engana-se quem pensa que Deus mudou o nome de Saulo para Paulo. Não há menção disso nas Escrituras. Paulo simplesmente é a variante grega do nome Saulo.
[3] Efésios 5:18-19

sexta-feira, dezembro 29, 2017

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DIVÓRCIO: MORTE EM VIDA?



Por Hermes C. Fernandes

Morte em vida! Foi assim que um amigo divorciado referiu-se ao processo que culminou em sua separação. Apesar de toda dor envolvida, ele me confidenciou que não se arrependia de haver optado pelo divórcio. Se o divórcio era “morte em vida”, manter um casamento de fachada era o próprio inferno.

O divórcio custou-lhe a perda de muitos amigos que ele e seu ex-cônjuge tinham em comum. Custou-lhe dois anos sem falar com seu filho. Custou-lhe a perda de bens materiais. E por fim, o descrédito de seu ministério. Ainda assim, ele preferiu passar por tudo isso a ter que manter uma mentira. Ao término de nossa conversa, ele arrematou: “Apesar de longo e escuro, sempre há uma luz no fim do túnel.”

Sem dúvida, o divórcio é um dos mais persistentes tabus dentro das igrejas. Ainda que haja tido um avanço considerável na maneira como encaramos o tema, no fundo, vivemos um desconcertante conflito entre o que diz o bom senso e o que dizem as Escrituras. Se ainda é um problema mal resolvido hoje, imagina dois mil anos atrás?

Não basta saber o que disse Moisés, Paulo ou o próprio Jesus. Temos que verificar em que contexto tais palavras se aplicavam antes de sair por aí condenando quem amargou um divórcio.

Mateus relata o episódio em que Jesus foi abordado sobre o tema pelos fariseus. “É lícito ao homem repudiar sua mulher por qualquer motivo?” (Mateus 19:3), perguntaram-lhe. Subentende-se que eles aceitavam o divórcio como uma legítima concessão divina. A questão não era o divórcio em si, mas o divorciar-se “por qualquer motivo”. Bem da verdade, a concessão feita por Moisés parecia indicar que qualquer motivo fosse válido. Repare nela:

“Se um homem casar-se com uma mulher e depois não a quiser mais por encontrar nela algo que ele reprova, dará certidão de divórcio à mulher e a mandará embora. Se, depois de sair da casa, ela se tornar mulher de outro homem, e o seu segundo marido não gostar mais dela, lhe dará certidão de divórcio, e mandará embora a mulher. Ou também, se ele morrer, o primeiro marido, que se divorciou dela, não poderá casar-se com ela de novo, visto que ela foi contaminada. Seria detestável para o Senhor. Não tragam pecado sobre a terra que o Senhor, o seu Deus, lhes dá por herança.”
Deuteronômio 24:1-4

Verifica-se aí até a possibilidade de um segundo matrimônio. O que era vetado era, em caso de viuvez no segundo casamento, a mulher voltar a casar-se com o marido do qual havia se divorciado antes.

Nos tempos de Jesus, a coisa estava tomando uma proporção jamais prevista pelo legislador hebreu. Os homens se respaldavam na lei para se divorciarem por razões frívolas. Obviamente que era uma questão de má interpretação do texto sagrado, torcendo-o em causa própria. Se a mulher perdesse um dente, divórcio! Se não revelasse dotes culinários, divórcio! Engordou, divórcio!

Os fariseus queriam que Jesus se posicionasse sobre o assunto, fosse justificando ou condenando tal postura.

Sabiamente, Jesus recorre aos textos bíblicos para expor o plano original do Criador:

“Não tendes lido que aquele que os fez no princípio macho e fêmea os fez, e disse: Portanto, deixará o homem pai e mãe, e se unirá a sua mulher, e serão dois numa só carne? Assim não são mais dois, mas uma só carne. Portanto, o que Deus ajuntou não o separe o homem.” Mateus 19:4-6

Este é, sem dúvida, o ideal divino. Mas a questão não se esgota aí. Entre o mundo ideal e o mundo real há uma considerável distância que não podemos ignorar. Há demandas que não podem ser varridas para debaixo do tapete. Os fariseus tinham esta percepção e por isso, retrucaram: “Então, por que mandou Moisés dar-lhe carta de divórcio, e repudiá-la?” (Mateus 19:7).

Haveria aí uma incongruência entre a vontade expressa de Deus e a concessão que fizera através de Moisés? Nego-me a acreditar nisso. O fato é que há um ideal à que a natureza humana nem sempre é capaz de se ajustar. O que Deus faz ante a esta inconteste verdade? Desiste de nós?  Nos entrega à própria sorte? Não! Ele simplesmente acrescenta uma cláusula em Sua própria Lei. A meu ver, esta é a maneira de Deus lidar com as demandas do mundo real.

Não creio, por exemplo, que Deus apoie algum tipo de escravidão. Mas já que havia escravos na configuração social da época, então, que se atenue o sofrimento desses seres humanos, assegurando-lhes, ao menos, alguns direitos básicos.  Não era o ideal, porém, era o possível à época.  Pode-se dizer que o mesmo se aplica ao divórcio. Por isso, Jesus respondeu: “Moisés, por causa da dureza dos vossos corações, vos permitiu repudiar vossas mulheres; mas ao princípio não foi assim...” (Mateus 19:8).  Deus sabe que estamos sujeitos às contingências históricas, bem como ao nosso grau de consciência e a situações que nos fogem o controle. Então, dos males, o menor.

A preocupação de Deus sempre girou em torno da parte mais fraca. À época, a mulher dependia de seus pais ou de seu marido para sobreviver. Sair de casa sem mais, nem menos, sem uma carta de divórcio, seria interpretado como um insulto a ambos. Seus pais ou seu marido jamais a receberiam de volta. O que, possivelmente, a empurraria para a prostituição a fim de manter-se. A carta de divórcio a salvaguardaria de muitas coisas, dentre elas, a desonrosa acusação de ter abandonado seu lar. Hoje, porém, vivemos numa configuração social bem diferente, em que as mulheres são incentivadas a serem economicamente independentes. O divórcio, por sua vez, deixou de ser o tabu de antigamente. Ainda que o estigma permaneça, não tem a força de outrora.

Em defesa da mulher, Jesus estabelece parâmetros. Ninguém tinha o direito de despedir sua mulher por razões frívolas.

 “Eu vos digo, porém, que qualquer que repudiar sua mulher, não sendo por causa de imoralidade sexual, e casar com outra, comete adultério; e o que casar com a repudiada também comete adultério.” Mateus 19:9

Esta parte da fala de Jesus é que tem gerado o maior número de controvérsias em torno do divórcio. Por duas razões: primeiro, só deveria se divorciar se fosse por imoralidade sexual (grego= porneia). Portanto, acaba aí a farra dos que se divorciavam por qualquer motivo. Segundo, quem aceitaria divorciar-se para permanecer sozinho?  Aqui Jesus iguala homens e mulheres. Tanto o homem que repudiasse a mulher, quanto a mulher repudiada, não poderia voltar a se casar. Tal postura se constituía num salto enorme. A mulher deixava de ser a única prejudicada. Portanto, os homens deveriam pensar muitas vezes antes de se divorciarem. Qualquer aparente vantagem que os homens pudessem obter foi descartada por Jesus.

Infelizmente, estamos tão condicionados a uma leitura inflexível das Escrituras que perdemos de vista seu teor subversivo. Nem os discípulos escaparam a isso. Daí responderem: “Se assim é a condição do homem relativamente à mulher, não convém casar” (Mateus 19:10). Em outras palavras, se é assim, se não podemos nos livrar facilmente de uma mulher sem que isso também nos prejudique, a melhor coisa a fazer é ficar longe delas. Não há como evitar a percepção de quão machista era a mentalidade dos discípulos de Jesus, refletindo com exatidão a tendência de sua época. Ninguém pensou em como isso resguardava a mulher.

Palavras mais duras sobre isso foram ditas por Jesus em Mateus 5:31-32: “Também foi dito: Quem repudiar sua mulher, dê-lhe carta de divórcio. Eu, porém, vos digo que todo aquele que repudia sua mulher, a não ser por causa de infidelidade, a faz adúltera; e quem casar com a repudiada, comete adultério.” Aqui, só o fato de ser repudiada já a tornaria adúltera, independentemente dela contrair ou não novas núpcias, exceto em caso de infidelidade.  Não estaria Jesus demonstrando preocupação com a reputação da mulher? Não estaria simplesmente cogitando os efeitos devastadores que o divórcio produziria na vida da mulher? Creio que devemos entender a frase “a faz adúltera” como uma referência ao estigma que isso representaria, e não como sua condição diante de Deus. Algo semelhante ao que Paulo diz acerca de Jesus, que mesmo não tendo pecado, Deus “o fez pecado por nós” (2 Coríntios 5:21). Alguém ousaria interpretar isso como que atribuindo pecado a Jesus? Da mesma forma, seria precipitado atribuir pecado a uma mulher pelos simples fato de haver se divorciado. Está claro que Jesus estava tratando da repercussão e não do fato em si. E ela não só carregaria o estigma de adúltera, como o estenderia àquele que a desposasse.

Será que podemos concluir daí que Jesus fechou a questão relativa ao divórcio? Restar-nos-ia alternativa senão uma leitura dogmática acerca do tema?

Por conta disso, muitos torcem para que seus cônjuges cometam um deslize moral que possa justificar o divórcio. Outros, nem sequer admitem a menor possibilidade de um segundo matrimônio, tachando de adúlteros os que o contraem.

Há, também, os que apelam a Paulo, alegando que somente a morte do cônjuge liberaria o outro para se casar novamente. Imagine ter que torcer pela morte de alguém para sentir-se livre. Pois, creia-me: há quem o faça. Afinal, “a mulher casada está ligada pela lei a seu marido enquanto ele viver; mas, se ele morrer, ela está livre da lei do marido” (Romanos 7:2).

Tanto Jesus, quanto Paulo, abordaram o assunto considerando a configuração social e cultural de sua época. Não creio que tivessem a pretensão de dogmatizar sobre isso.

Todavia, mesmo reconhecendo que os tempos são outros e que o divórcio já não se constitua no tabu de então, não podemos fazer vista grossa ante a sua seriedade. Não se pode banalizar o que poderia ser comparado a uma amputação.

Para que o médico opte pela amputação do membro de um paciente, sua vida deve estar em jogo. Entre a manutenção da vida e a preservação de um membro, obviamente que ele optará pela primeira. Assim é o divórcio.

A vida tem primazia sobre qualquer instituição, mesmo a mais antiga delas, o casamento. Deve-se, porém, esgotar todas as possibilidades antes de apelar a um expediente tão traumático e doloroso. Parafraseando Jesus, “é melhor que se perca um dos teus membros” do que viver num inferno em vida (Mateus 5:29-30).

Paulo, que transitava entre dois mundos, o greco-romano e o judaico, trata o assunto dando-lhe o peso de um mandamento.

“Aos casados dou este mandamento, não eu, mas o Senhor: que a esposa não se separe do seu marido. Mas, se o fizer, que permaneça sem se casar ou, então, reconcilie-se com o seu marido. E o marido não se divorcie da sua mulher...”
1 Coríntios 7:10-13

O fato de atribuir-lhe o peso de mandamento nos isentaria de uma reflexão mais profunda? Se fosse o caso, Paulo não se atreveria fazer um adendo seu ao mandamento do Senhor:

“Aos outros eu mesmo digo isto, e não o Senhor: se um irmão tem mulher descrente, e ela se dispõe a viver com ele, não se divorcie dela. E, se uma mulher tem marido descrente, e ele se dispõe a viver com ela, não se divorcie dele. Pois o marido descrente é santificado por meio da mulher, e a mulher descrente é santificada por meio do marido. Se assim não fosse, seus filhos seriam impuros, mas agora são santos. Todavia, se o descrente separar-se, que se separe. Em tais casos, o irmão ou a irmã não fica debaixo de servidão; Deus nos chamou para vivermos em paz.” 
1 Coríntios 7:12-15

Nenhum mandamento divino nos isenta da responsabilidade de refletir. Toda letra tem potencial mortífero se não examinada à luz do Espírito. Apesar de reconhecer o peso de um mandamento, Paulo atribui aos cônjuges a última palavra. O que manteria um casamento misto seria a disposição do descrente a manter a relação. E caso optasse pela dissolução, o cônjuge cristão estaria livre. Creio piamente que Paulo estivesse abrindo um importante precedente, onde o cônjuge que já não estivesse sob a servidão pudesse contrair novas núpcias, assim como estaria se o cônjuge viesse a falecer.

Em Romanos 7:3, o apóstolo afirma que “vivendo o marido, será chamada adúltera se unir-se a outro homem. Mas, se o marido morrer, está livre da Lei, e assim não será adúltera, se vier a casar com outro marido.” Repare que a preocupação de Paulo é com a reputação da mulher (“será chamada adúltera...”). Fica claro, porém, que houve uma evolução significativa aqui, pois se admite a possibilidade de um segundo matrimônio para a mulher, ainda que somente em caso de viuvez.

Será que uma mulher terá que torcer pela morte de seu esposo para livrar-se de um casamento marcado pela violência doméstica constante? Ou um homem terá que torcer para que sua esposa adultere para livrar-se de um matrimônio marcado pela incompatibilidade? Creio que não.

Não é necessário que um adultério se concretize para que um dos cônjuges se veja no direito de pedir o divórcio, assim como o médico não vai esperar que a perna gangrenasse para só então decidir amputá-la. Assim como a amputação, por mais traumática que seja, pode ser uma medida preventiva, o divórcio também o será.

Quanto à incompatibilidade, convém lembrar-se do que Paulo fala acerca do jugo desigual, que não se limita à questão da fé, mas de qualquer coisa que impossibilite que dois percorram juntos a mesma jornada. “Andarão dois juntos se não estiverem de acordo?” (Amós 3:3). Não basta professarem o mesmo credo, se não abraçarem o mesmo propósito. Como disse Antoine de Saint-Exupéry: “Amar não é olhar um para o outro, mas olhar juntos na mesma direção.”

Se cada um olha para um lado, o casamento será um cabo de guerra. Nenhum dos dois chegará a lugar algum. Eventualmente, o cabo se partirá ou um dos dois sucumbirá.

Não ouso afirmar que para que um casamento dê certo seja necessário que os cônjuges sejam 100% compatíveis. Sempre haverá algum grau de incompatibilidade. Mas se o amor que os une não for suficiente para bancar isso, o rompimento será inevitável. Como disse Pedro, “o amor cobre multidão de pecados” (1 Pedro 4:8). Quando olhamos um vasto oceano, nem nos apercebemos que abaixo da superfície de suas águas haja grandes cânions, montanhas, abismos insondáveis. Porém, toda esta saliência geológica é nivelada ao ser coberta pelas águas do mar. Semelhantemente, se o amor que uniu dois corações for suficientemente profundo, há de cobrir quaisquer diferenças que houver entre eles. Porém, se um dos cônjuges prefere manter a relação num nível raso, as diferenças gritantes acabarão vindo à tona, e, assim, dificilmente o casamento se sustentará.

Também não se deve esperar a morte de um dos cônjuges quando se percebe que ela poderá decorrer da violência impetrada por ele. Qualquer ato de violência, seja física ou verbal é inadmissível numa relação matrimonial. Se faltar respeito, se atentar contra a dignidade ou a integridade física, o cônjuge vítima tem o direito de requerer a separação. Ninguém é obrigado a conviver com seu agressor.

Quantas mulheres aguentam caladas as agressões sofridas dentro de casa por receio de perder seu casamento e assim estarem condenadas a viverem sozinhas o resto de suas vidas?

Isto é desumano! Isto é um absurdo!

Outro argumento muito usado por quem não admite a possibilidade de um divórcio entre cristãos se baseia na passagem bíblica em que Deus afirma detestar o divórcio. “Eu detesto o divórcio, diz o Senhor Deus de Israel, e aquele que cobre de violência as suas vestes, diz o Senhor dos Exércitos. Portanto cuidai de vós mesmos e não sejais desleais” (Malaquias 2:16).

Alguém já se perguntou por que Deus detesta o divórcio? Não creio que seja apenas por causa dos efeitos devastadores que ele provoque tanto nos cônjuges, quanto nos filhos. Creio que também seja pelo fato de o próprio Deus ter passado por um.  Não conheço ninguém que tenha experimentado uma separação e que não aconselhe a outros a tentar de tudo para salvar seu próprio casamento. Só quem experimentou na pele sabe o quanto dói. Portanto, Deus conhece por experiência própria, os efeitos colaterais de um divórcio. Ele mesmo testifica haver se divorciado de Seu povo, Israel (Isaías 50:1; Jeremias 3:8). E não só isso: Ele também passou por um segundo matrimônio, contraído com a igreja. O que seria a antiga aliança senão os termos que envolviam Seu matrimônio com Israel? O que é a nova aliança senão os termos que envolvem Seu matrimônio com a igreja? Um casamento teve que ser rompido para que um novo casamento fosse constituído. Por isso, Jesus deixou os judeus de sobreaviso: “Portanto eu vos digo que vos será tirado o reino de Deus, e será dado a um povo que dê os seus frutos” (Mateus 21:43). Obviamente que não foi uma ruptura fácil. Paulo fala sobre isso em sua epístola aos Romanos. Reproduzindo uma profecia de Oseias, ele escreve: “Chamarei meu povo ao que não era meu povo; e amada à que não era amada. E sucederá que no lugar em que lhes foi dito: Vós não sois meu povo; aí serão chamados filhos do Deus vivo” (Romanos 9:25-26). E mais adiante, ele diz: “Porventura Israel não o soube? Primeiro diz Moisés: Eu vos porei em ciúmes com aqueles que não são povo, com um povo insensato vos provocarei à ira. E Isaías ousou dizer: Fui achado pelos que não me buscavam, manifestei-me aos que por mim não perguntavam. Quanto a Israel, porém, diz: Todo o dia estendi as minhas mãos a um povo rebelde e contradizente” (Romanos 10:19-21). Por séculos, a aliança entre Deus e Israel se arrastou sem que houvesse por parte daquele povo a disposição de corresponder ao Seu amor. Até que ocorreu algo semelhante à história narrada no livro de Ester. O fato de Vasti se negar a atender ao chamado do rei, abriu espaço para Ester, a jovem judia escolhida por Deus para ser rainha em seu lugar. Graças a isso, os judeus foram salvos de um genocídio. Como entender os caminhos de Deus? Graças a um divórcio e a um novo matrimônio, práticas condenadas pelas Escrituras, Deus deu livramento ao Seu povo.

Um Deus divorciado e que detesta o divórcio certamente há de olhar com compaixão àqueles que são vitimados pela dor que o divórcio provoca. Por isso mesmo, creio que a igreja deveria acolher com mais carinho os que passaram pelo trauma da separação e buscam reconstruir suas vidas através de um segundo matrimônio. Não se pode recriminá-los. As feridas que lhes foram abertas necessitam ser tratadas e não será com acusações, dedos em riste e olhares desconfiados, mas com compreensão, compaixão e amor. 

sábado, dezembro 23, 2017

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13 razões que levam pastores ao suicídio



Por Hermes C. Fernandes

Recentemente, às vésperas do Natal, dois pastores deram cabo de sua vida. A repercussão foi imediata.  Tornou-se assunto de debates nas redes sociais, no final dos cultos, na escola dominical, nos seminários. O que, afinal, levaria um pastor a tirar a própria vida? O que poderia justificar tal desatino? Será que ele não pensou na dor que causaria em seus familiares e amigos? Não pensou no escândalo que geraria para a igreja? Proponho que examinemos honestamente a questão sem pender para especulações teológicas acerca da possibilidade de um suicida ser ou não salvo.

Para início de conversa, precisamos entender que o pastor é um ser humano como outro qualquer. Assim como o grande profeta Elias, ele está sujeito às mesmas paixões e angústias.

Tendo por base minhas experiências com suicidas em potencial, inclusive pastores que me confidenciaram o desejo de tirarem sua vida, elenco a seguir treze razões que poderiam levar um ministro do evangelho a considerar tal possibilidade.

1 – Pressão por perfeição moral – Se há alguém que não tem o direito de errar, esse alguém é o pastor.  Qualquer deslize no campo moral o desabilitaria a continuar pregando o evangelho. Todos esperam que ele seja um exemplo a ser seguido em todos os aspectos. Sua família deve ser a típica de comercial de margarina. Seu casamento, irretocável. Seus filhos, irrepreensíveis. Ele deve estar acima da média no desempenho de todos os seus papéis sociais. Ao perceber-se inapto a atender a esta demanda moral desumana, ele desaba. “Não me sinto digno de ocupar aquele púlpito”, confessam alguns ao se sentirem hipócritas cada vez que pregam sobre uma perfeição moral que não são capazes de alcançar. Sentem-se como os fariseus denunciados por Jesus, que colocavam sobre os ombros dos outros, o que não conseguiam carregar sobre os seus. Em vez de pastores, acham-se impostores. Duas possibilidades lhes vêm à mente: desistir do ministério ou desistir da vida. Caso optem pela primeira, terão que conviver com o estigma de covarde e desertor; alguém que olhou para trás e por isso não é digno do reino dos céus. Por isso, a segunda opção começa a soar plausivelmente tentadora. Se tirarem a vida, não estarão aqui para ouvir piadinhas. Ouvem falar de colegas que são capazes de levar uma vida dupla. Mas eles, definitivamente, não têm estômago para isso. Preferem a morte ao cinismo.

2 – Expectativas desumanas – Por mais que se esmere, o pastor nunca consegue agradar a todos os que lhe foram confiados. Todos têm direito a férias.  Exceto o pastor. Todos têm direito a um dia de folga. Menos o pastor. Qualquer um pode ficar doente. O pastor, não. Todos estão sujeitos a ter suas desavenças conjugais. O pastor, nem pensar. Todos contraem dívidas que não podem pagar. O pastor, jamais! Os fiéis querem encontra-lo sempre sorridente e bem disposto. Ao menor sinal de abatimento, suspeitas são levantadas acerca de sua comunhão com Deus. Se estiver de carro velho, criticam-no por não ter fé. Como seguir a um homem que não tem fé para trocar o carro todos os anos? Mas se estiver de carro novo, acusam-no de estar se locupletando da fé dos irmãozinhos. Qualquer coisa que venha a fazer, tem que ficar se explicando para não escandalizar aos mais fracos na fé. Se adoecer, prefere manter segredo e sofrer sozinho até se recuperar. Chega ao ponto em que suas forças se esvaem e acaba sofrendo um esgotamento nervoso. O constante estresse vai drenando suas energias até deixa-lo em frangalhos. Neste estado, pensamentos suicidas podem lhe ocorrer com certa frequência. Se lhe falta coragem de atentar contra sua própria vida, ele apela a orações suicidas ao estilo de Elias e Jonas.

3 – Críticas e comparações – Todos conhecem um pastor melhor que o seu. Se é brincalhão, chamam-no de palhaço. Se é do tipo sério, chamam-no de ranzinza. Se apresenta candidatos nos cultos, chamam-no de interesseiro. Se se nega a fazê-lo, chamam-no de idiota alienado. “Bom mesmo é o pastor Beltrano...”, dizem alguns. “Vejam como sua igreja está cheia!” Se não o comparam com algum pastor midiático bem-sucedido ou com o pastor de alguma igreja próxima, comparam-no com seu antecessor: “Aquele sim é que era pastor de verdade...”  Para convencer-se a subir ao púlpito a cada dia sem perder o prazer de pregar, diz para si mesmo: “Nem Jesus conseguiu agradar a todos, não serei eu que vou conseguir esta proeza.”  Esta desculpa pode até funcionar por um tempo, mas chega uma hora que o que antes era prazeroso passa a ser penoso. O friozinho na barriga é substituído pelo estômago embrulhado. As pernas bambas por pés arrastados que sustentam pernas que parecem pesar uma tonelada. Se a mensagem parar de fluir, o fim estará próximo. Não havendo razão para continuar no ministério, talvez não haja mais razão para viver.

4 – Vida conjugal incompatível – Boa parte dos pastores casou-se cedo demais para evitar uma vida sexual ativa pré-marital. Em outras palavras, casaram-se só para poder fazer sexo sem culpa. A mesma igreja que exerce pressão para que os namorados se casem o quanto antes, faz pressão para que tenham filhos logo em seguida. Mal começaram a aprender a conviver, e lá vêm os filhos. Sem gozar de um tempo necessário para se adequar à vida conjugal, o casal começa a enfrentar constantes crises. As relações sexuais vão ficando cada vez menos frequentes. Os diálogos, raros. A igreja passa a ser uma fuga para o pastor que já não tem prazer de estar em casa. Sua libido é deslocada para as atividades ministeriais. Alguns descambam para a pornografia. Outros acabam se entregando a relações extraconjugais. E há até os que recorrem aos préstimos de profissionais do sexo. Um número relativamente pequeno, embora crescente, opta pelo divórcio mesmo sabendo do alto preço que terá que pagar. A igreja prefere que o pastor e seu cônjuge exibam um sorriso hipócrita no púlpito a vê-los realmente felizes e realizados. Mal percebe que os elogios que o pastor faz à esposa em público pode ser uma tentativa de salvar o casamento. Para manter seu ministério intacto, o pastor prefere seguir em frente com seu matrimônio de fachada e assim, ainda que não tire sua vida de uma vez, vai se suicidando à prestação. A culpa não é dele, nem da esposa. A culpa é da pressão religiosa que os fez contrair um matrimônio fadado a naufragar devido à incompatibilidade. Podem até professar a mesma fé, mas são jugos desiguais. Ambos infelizes tentando aparentar viver uma lua-de-mel infindável.  Há casos como o de Jó, em que o pastor ouve dos lábios da própria esposa a sugestão de tirar sua vida.

5 – Sexualidade mal resolvida – Sem dúvida, trata-se de um terreno pantanoso. Mas ouso afirmar, com base em casos que me chegam ao conhecimento, que o púlpito tem se tornado no armário no qual muitos escondem sua verdadeira orientação sexual.  No fundo, a igreja não tem problema com a homossexualidade, mas com a verdade. Se o pastor for homossexual, porém, discreto, mantendo sob sigilo absoluto sua orientação sexual, a igreja não o rejeitará. Em vez disso, fará vista grossa a seus trejeitos femininos ou a qualquer outra coisa que sugira uma homossexualidade enrustida, desde que mantenha um casamento de fachada ou se declare celibatário. Obviamente, a primeira opção é a mais concorrida. Não são todas as igrejas que aceitam numa boa um pastor celibatário. Viver uma mentira sempre será a pior das opções, mesmo sendo a mais conveniente e socialmente aceitável. Sob o manto da hipocrisia, alguns pastores procuram garotos de programa durante as madrugadas. Outros se deixam envolver emocionalmente por membros de sua congregação, vivendo uma espécie de amor platônico inconfessável. Outros acabam mantendo sórdidos casos amorosos que, quando vêm a público, provocam escândalos irreparáveis. No afã de evitar tudo isso, alguns se deixam seduzir pela proposta suicida.

6 – Difamação“Os escândalos são inevitáveis. Mas ai de onde vêm os escândalos”, teria dito Jesus. Quem ama a obra de Deus, jamais deseja ser um estorvo a ela. Por isso, muitos preferem se anular, vivendo de maneira inautêntica. Mesmo assim, são obrigados a suportar às más línguas de gente inescrupulosa, invejosa e cruel. Trata-se de pessoas que ficam à espreita, esperando um escorregãozinho que seja, ou ao menos um indício de que algo não esteja correto, para saírem por aí detonando a reputação alheia. Infelizmente, alguns prezam mais o seu bom nome do que a sua própria vida. Por isso, preferem a morte a ver seu nome enlameado.

7 – Surto psicótico – A mente humana é um impenetrável labirinto em que muitas vezes se esconde um minotauro. Não subestime a sua complexidade. Aquele homem polido, de fala rebuscada, elegantemente trajado, pode ser um psicótico prestes a surtar, bastando um clique de uma situação traumática e angustiante insuportável. O que muita gente julga ser sinônimo de espiritualidade à flor da pele e manifestações de dons espirituais, pode não passar de um surto psicótico. Ele vê coisas que ninguém vê. Ouve vozes frequentemente. Suas mensagens se tornaram desconexas. É possível que esteja surtando. Daí para um desatino pode ser um pulo.

8 – Culpa – Todos pecam! Mas nem todos sabem lidar com a culpa. Mesmo sabendo da disponibilidade do perdão divino, muitos pregadores da graça se negam a perdoar a si mesmos. Vivem esmagados pelo peso da culpa. Nem sempre por haver cometido alguma falta. Por vezes, se culpam por não serem tão bons quanto gostariam de ser. Culpam-se por não atenderem às expectativas do seu rebanho. Culpam-se pela falta de crescimento da igreja. Culpam-se até pelo deslize de terceiros.

9 – Lidar com jogo de interesses entre membros – Nada mais desgastante do que estar no meio de um cabo de guerra. De vez em quando, Jesus se via num fogo cruzado entre fariseus e saduceus. Nem Paulo escapou disso. Se atende à solicitação de um grupo, acusam-no de predileção. Se não atende, sentem-se preteridos. Se evita entrar em contendas, dizem que está em cima do muro. O que resta ao pastor?

10 – Conflitos existenciais“Será que fui mesmo chamado para ocupar esta posição?”, “seria esta a minha vocação?” ou: “Eu acho que não passo mesmo de um embuste.” São frases que insistem em ocupar a mente de muitos ministros. Dentre os mais agudos conflitos existenciais, destaca-se o produzido pela sensação de que a sua vida é mais lamentada do que seria a sua morte. Para quê viver se a vida deixou de ser motivo de louvor a Deus? Quem se sente confortável ao saber que sua vida se tornou motivo de queixa e murmuração?

11 – Solidão – Não há classe mais solitária que a pastoral. Ainda que cercado por uma multidão, o pastor se sente só. Ele tem seguidores, mas falta-lhes amigos. Ele tem quem ouça seus sermões, mas poucos que se ofereçam para ouvir suas angústias. Sabe que tudo o que disser poderá ser usado contra ele. O amigo de hoje pode ser o desafeto de amanhã. Por isso, prefere isolar-se.  Mas o isolamento cobra caro à alma. Sem ter com quem se desabafar, vai acumulando sentimentos nocivos até que um dia, explode.

12 – Depressão – Não se trata de estar ocasionalmente triste, mas de perder totalmente o ânimo pela vida. Elias pediu a morte quando passou pelo vale da depressão. Jonas, idem. Ambos vinham de situações em que foram ministerialmente bem-sucedidos. Elias havia acabado de protagonizar um dos mais icônicos episódios do Antigo Testamento, fazendo descer fogo do céu ante os olhos de todo o Israel. Jonas havia testemunhado a conversão de toda uma cidade através de sua pregação. O sucesso, porém, não os impediu de fazer a oração suicida. É possível estar dirigindo um carro do ano, morando num condomínio luxuoso, com o nome estampado nas manchetes dos jornais, gozando de notoriedade, e, ainda assim, ficar deprimido a ponto de não querer mais viver.

13 – Ingratidão, traição e abandono – Se não quiser experimentar tais coisas, não se meta com ministério pastoral. Todos os candidatos ao pastorado deveriam ser avisados antes. A maioria só enxerga o glamour. Não imaginam as noites mal dormidas, as enxaquecas constantes, as manchas no corpo, o risco de um AVC fulminante, etc.  Tudo isso é potencializado pela ingratidão de que é uma vítima constante. Pessoas a quem se dispôs a ajudar, repentinamente, tornam-se desafetos e saem difamando-o sem dó, nem piedade. A ingratidão costuma desaguar na traição, e, consequentemente, no abandono. Justamente aqueles em quem confiou cegamente, são os que o abandonam nos momentos cruciais de sua jornada. Sem chão e sem fôlego para prosseguir, a morte passa a ser uma tentadora alternativa.

Apesar das razões elencadas acima, nenhuma delas deveria ser suficiente para levar um homem de Deus a dar cabo de sua vida. Se deixarmos de olhar para nós mesmos, e de nos distrair com as críticas dos que nos cercam, não nos restará alternativa senão a de olhar firmemente para Jesus, autor e consumador de nossa fé. Somente assim não desfaleceremos e cumpriremos nossa jornada sem ter do que nos envergonhar.

Qualquer decisão nesta vida pode ser revertida, com exceção do suicídio. É mais necessário coragem para prosseguir do que para interromper drasticamente nossa caminhada. Então, bola pra frente! Não é aqui o nosso descanso!

"Por que estás abatida, ó minha alma, e por que te perturbas dentro de mim? Espera em Deus, pois ainda o louvarei, o qual é a salvação da minha face, e o meu Deus." SALMOS 42:11



quarta-feira, dezembro 13, 2017

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SUICÍDIO - Como prevenir e como lidar com o fato já consumado



Por Hermes C. Fernandes 

Sem sombra de dúvida, o suicídio é um dos principais tabus entre os cristãos, tanto católicos, quanto evangélicos. Alguns o classificam como um pecado imperdoável. No outro extremo, há uma tentativa assustadora de glamourização do suicídio, principalmente entre os adolescentes.

Não há como não se chocar com o fato de alguém ter atentado contra sua própria vida. Somos tomados por um misto de sentimentos. Preferimos condenar severamente o ato como uma medida preventiva para que outros não se sintam estimulados a cometê-lo. Mas neste afã, esquecemo-nos da dor dos familiares que acaba por intensificar-se significativamente por achar que a alma do suicida está irremediavelmente condenada ao suplício eterno.

O que dizer a uma avó cuja netinha de apenas 15 aninhos se suicidou com uma overdose de medicamentos depois de haver brigado com o seu namorado? E o que pensar de uma pastora que durante o sepultamento desta menina foi capaz de dizer diante dos familiares que aquela alma teria se perdido para sempre? Quanta falta de sensibilidade!

A primeira vez que lidei com a questão do suicídio, eu tinha apenas nove anos. Estávamos voltando de uma visita a uma tia de minha mãe que morava em São Gonçalo. Durante a travessia entre Niterói e Rio, eu e Maria, a moça que auxiliava minha mãe nos serviços domésticos, estávamos debruçados no parapeito do segundo andar da barca quando flagramos um homem que ameaçava pular no mar. Saímos ao seu encontro e conseguimos dissuadi-lo de cometer o desatino. Apesar de não ter ainda consciência das implicações do ato, ouso dizer que foi o Espírito Santo quem colocou palavras em meus lábios, bem como nos de Maria, para convencer àquele homem do valor de sua vida.

Estou convencido de que a melhor maneira de prevenir o suicídio não é condenando suicidas ao inferno, e sim, nos oferecendo para ouvi-los e acolhê-los em sua luta interna. Há várias razões que levam alguém a desistir de viver. Antes de julgá-lo e sentenciá-lo, deveríamos considerar seus motivos, tentando nos imaginar em seu lugar.

Em meados da década de 90, eu estava num shopping center na zona norte do Rio quando avistei um conhecido que não via há anos. Sem muita disposição para conversar, entrei numa loja e fiquei esperando que ele passasse sem me perceber. Subitamente, uma voz falou ao meu coração: Quem ama não evita. Reconhecendo ser a voz do Espírito, saí do meu esconderijo e fui em sua direção. Ele havia parado e se debruçado sobre a grade de proteção do segundo andar e estava chorando muito. Dirigi-me a ele que, assustado com minha presença, me abraçou e confessou que estava disposto a tirar a sua vida naquele dia. E ali mesmo, no meio de um dos mais movimentados shoppings da cidade, consegui dissuadi-lo do suicídio. Além de ser um rapaz de ótima aparência, ele tinha uma das mais belas vozes que já ouvira em toda a minha vida, porém, sofria de uma deficiência física. Sentindo-se rejeitado por quem ele desejava ser amado, decidiu dar cabo à sua existência.

De todas as experiências que tive envolvendo potenciais suicidas, nenhuma me marcou mais do que a que tive durante a apresentação de um programa de rádio. Dentre os ouvintes que atendi no ar, uma mulher chorava copiosamente, dizendo estar diante de uma janela, pronta a se atirar. Tentei acalmá-la e pedi que me contasse o que estava havendo. Ela me explicou que havia crescido em uma igreja evangélica extremamente legalista, mas que se desviara e se tornara numa garota de programa. Para piorar as coisas, ela se engravidou de uma dos seus clientes, mas não tinha a menor ideia de qual deles era a criança. Foi um momento muito difícil e delicado para mim, pois nossa conversa estava sendo ouvida por milhares de pessoas, e se ela resolvesse pular da janela, eu me sentiria culpado para o resto de minha vida. Com muito custo, consegui dissuadi-la de pular. Insisti que voltasse para igreja, mas ela argumentou dizendo que todas as vezes que visitava sua antiga igreja, as pessoas a olhavam de cima a baixo, julgando-a e condenando-a. Em vez de amor, ela só encontrava juízo. Mesmo sustentando sua família com o dinheiro advindo da prostituição e de filmes pornográficos, sua família a rejeitava. Depois de muitas lágrimas, ela aceitou orar comigo, reconciliando-se com Deus. Após a oração, ela pediu para conversar comigo fora do ar. Contou-me que tinha um contrato com uma produtora internacional de filmes pornôs, e que, se resolvesse abandonar aquela vida, teria que pagar uma alta soma pela quebra de contrato. Procurei mostrar-lhe que todo o dinheiro que aquela vida lhe proporcionava não valia a pena, e que, mesmo sofrendo eventuais prejuízos, nada seria melhor do que voltar-se para Cristo e retornar ao seio de sua família.

Infelizmente, nem sempre fui bem sucedido em minhas abordagens com suicidas em potencial. Não faz muito tempo, um rapaz me procurou pelo in box do facebook. Ele se apresentou como um cristão em crise por causa de sua homossexualidade. Tanto sua família, quanto a igreja que frequentava, o rejeitaram. Seus comentários em meus posts nas redes sociais revelavam-no uma pessoa de extrema sensibilidade e aguçada inteligência. Apesar disso, confessou-me ter tentado suicídio algumas vezes. Disse-me que meus textos o haviam ajudado a desistir de se matar. Até que um dia, percebi a súbita ausência de seus comentários em minhas postagens e resolvi visitar seu perfil para saber o que havia acontecido. Levei um choque. No auge de seus vinte e poucos anos, aquele rapaz desistiu de viver. Foi uma das piores sensações que senti em minha vida, como se eu houvesse falhado. Se eu, sem conhecê-lo pessoalmente, senti-me assim, como não devem ter se sentido seus familiares?

Inteligência e sensibilidade não impedem que alguém cometa tal desatino. Basta lembrar-se de que Santos Dumont, o pai da aviação, tirou a própria vida. Getúlio Vargas, o pai dos pobres, o mais popular presidente que este país já teve, também cometeu suicídio. Kurt Corbain, líder da banda Nirvana, em sua carta de despedida, atribui à sua aguçada sensibilidade a decisão de se matar.

Ainda mais triste é quando o suicídio é cometido por uma criança, como aconteceu recentemente com um menino de apenas doze anos, colega de algumas crianças que frequentam nossa igreja. Cansado de sofrer bullying na escola, tomou chumbinho (veneno de rato) e pôs um saco plástico na cabeça. O que deveríamos dizer aos pais dessa criança? Condená-lo ao inferno vai evitar que outra criança cometa o mesmo ou só agravará o sofrimento de seus familiares e amigos?

E o que a Bíblia diz acerca do suicídio? Haveria algum mandamento específico? A resposta é não. A menos que coloquemos o suicídio no mesmo pacote do “Não matarás”. Entretanto, as Escrituras nos apresentam alguns casos que podem nos auxiliar na compreensão deste ato de desespero.

Em Juízes 9:52-54 lemos sobre Abimeleque que, ferido gravemente por um pedra que lhe foi arremessada por uma mulher, percebendo a iminência da morte, implorou que seu escudeiro lhe tirasse a vida. Tecnicamente não foi um suicídio, mas a decisão de morrer foi dele, ainda que pelas mãos de outro. Neste caso, o suicídio foi motivado por uma questão de honra. Era considerado vergonhoso a um guerreiro morrer pelas mãos de uma mulher. Certas culturas levam muito a sério questões relativas à honra. Não são raras notícias de executivos ou políticos japoneses que se suicidaram envergonhados de sua má gestão ou por terem sido pegos em atos de corrupção.

Em 1 Samuel 31:4 lemos que Saul, gravemente ferido, ordenou que seu escudeiro o matasse. Como não conseguiu fazê-lo, o próprio Saul se lançou sobre sua espada. Diante da cena, o escudeiro também acabou se matando. Em 2 Samuel 17:23, Aitofel, conselheiro de Absalão, se enforcou, amargurado pelo fato de seu senhor ter se recusado a atender seu conselho. 

Em 1 Reis 16:18-19, lemos que Zinri, tornou-se rei depois de um golpe de estado. Sem o esperado apoio popular, foi à cidadela do palácio e o incendiou estando dentro dele.

Um dos mais famosos casos de suicídio registrados na Bíblia é o de Sansão (Juízes 16:29-30). Ao derrubar o templo de Dagon, o herói hebreu sabia que morreria juntamente com os seus inimigos. Portanto, foi uma espécie de suicídio heroico. Sansão agiu como os camicazes, os pilotos japoneses da segunda guerra mundial que arremessavam seus aviões contra alvos inimigos sabendo que morreriam também. Algum se atreveria a dizer que Sansão foi para o inferno? Ora, se Deus sabia qual era o propósito de Sansão ao pedir que lhe devolvesse suas forças, por que o atendeu?

Outro caso emblemático é o de Judas, que se enforcou consumido pela culpa após ter traído o seu Mestre.

E finalmente, encontramos nas páginas do registro apostólico o caso do carcereiro que optara pelo suicídio após o terremoto que poderia ter resultado na fuga dos presos sob sua responsabilidade, pois sabia que se fosse acusado de haver facilitado, tanto ele quanto sua família seriam condenados à morte. Graças à intervenção de Paulo, a fuga foi contida, e o carcereiro foi dissuadido de cometer o suicídio. Naquela madrugada, na casa de um pretenso suicida, nascia a igreja na cidade de Filipos. Ele e sua família foram os primeiros a serem batizados (Atos 16:26-28).

Culpa, vergonha, medo, depressão, desespero, são alguns dos ingredientes capazes de levar alguém a atentar contra a própria vida. Em muitos casos, até a química do organismo é comprometida, de modo que um eventual desequilíbrio é capaz de afetar o juízo da pessoa que momentaneamente perde a noção de certo e errado. Naquele fatídico instante, ela não consegue enxergar alternativa se não tirar a própria vida.

Dois dados interessantes é que o maior número de suicídios ocorre entre os ricos e não entre os pobres, e o maior índice se encontra nos países desenvolvidos. Quando estive em Logano, na Suíça, conheci o edifício de onde muitos executivos saltavam com suas maletas 007 e seus ternos Armani, encorajados pela turba que gritava: Pula! Pula! Pula!

Não dá para comparar o caso de um executivo que acaba de perder milhões num negócio arriscado e de alguém que pula de um prédio em chamas, como aconteceu durante os atentados terroristas nas Torres Gêmeas em Nova York em 11 de setembro de 2001.

Especialistas apontam vários tipos de suicídio. Há, por exemplo, o suicídio egoísta, resultado do individualismo excessivo que impede a pessoa de se importar com o sofrimento que vai provocar na família e nos amigos. Não se trata de um ato de coragem, mas de covardia. Não resolve o problema, mas deixa a bomba para os que ficarem.

Há o suicídio altruísta, heroico , em que se abre mão da vida por uma causa considerada justa. Paulo se reporta a este tipo de suicídio em 1 Coríntios 13:3: “Ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, e não tivesse amor, nada disso me aproveitaria.” Este tipo de suicídio era comum nas sociedades orientais primitivas. Visando o bem da coletividade, a pessoa se entregava a morte. Para poupar a outros, ela abria mão de seu direito de viver.

Há ainda o suicídio fatalista, decorrente do excesso de regulamentação da sociedade sobre o indivíduo. Pelo fato de as paixões serem reprimidas de forma violenta, alguns preferem morrer. Shakespeare trata disso em seu clássico “Romeu e Julieta”. O casal apaixonado, dada a impossibilidade de viver plenamente seu romance, opta pelo suicídio.

Há também casos de pessoas que sofreram rejeição na infância, perderam, quando adultas o interesse pela vida. Outras guardam tanta mágoa no coração que se entregam a uma espécie de suicídio gradual; matam-se à prestação através do consumo de cigarro, bebidas, drogas, etc. Outros praticam um tipo de roleta russa, vivendo desregrada e promiscuamente, sabendo dos riscos de se contrair uma DST. Outras, optam por viver perigosamente, afirmando que só se sentem vivas quando estão próximas da morte.

Num certo sentido, somos todos suicidas, em menor ou maior grau. Todos fazemos coisas que reconhecemos que nos são prejudiciais, mas preferimos correr todos os riscos, mesmo sabendo o quão frágil é a vida. Freud se refere a isso como pulsão de morte. Não seria a isso que Paulo se referia?: “Porque não faço o bem que quero, mas o mal que não quero esse faço” (Romanos 7:19). Porém, isso não é desculpa para se viver de maneira inconsequente, flertando com a morte. Jamais nos esqueçamos de que não pertencemos a nós mesmos. Nosso corpo é templo do Espírito Santo, e que, um dia teremos que prestar contas do que fizemos a ele (1 Coríntios 3:16; 6:19).

Concluindo a nossa reflexão, resta saber como devemos reagir diante do suicídio de alguém a quem amamos ou conhecemos? Ou ainda: o que dizer a família que perdeu um ente querido desta forma?

1 – A psicologia e a psiquiatria têm revelado que geralmente o suicídio é resultado de um transtorno emocional, ou mesmo de um desequilíbrio bioquímico associado a um profundo estado de depressão. Se a pessoa está revelando tendências suicidas, além de orar e cobri-la de amor, sugiro que procure ajuda profissional.

2 – A justiça de Deus que é perfeita e leva em consideração o impacto que nossa mente perturbada tenha sobre nós. Há quem nunca tenha tido a disposição de tirar sua vida, mas seja capaz de fazer verdadeiras orações suicidas, como as de Elias e de Jonas. Ambos suplicaram que Deus lhes tirasse a vida depois de obterem um estrondoso sucesso em seus ministérios. Quão complexa a mente humana!

3 – Muitas famílias se sentem culpadas, achando que não fizeram o suficiente para evitar a tragédia. Com a ajuda de Deus pode-se encarar e vencer a culpa, admitindo que o suicida precisava de ajuda profissional que nós mesmos não pudemos proporcionar. Entretanto, estejam atentos aos sinais. Ao menor sinal, busquem ajuda imediatamente. Não acreditem no argumento de que quem ameaça, nunca comete. Promessas e tentativas não visam só chamar a atenção.

Para a família do suicida, digo: Há esperança. Entre a tentativa do suicídio e a morte pode haver um tempo de arrependimento. Mesmo que em milésimos de segundo, alguém pode se arrepender. Entre o décimo andar do edifício até o chão é tempo suficiente para o Espírito Santo trabalhar na consciência de alguém. E ainda que não haja, Deus é justo e misericordioso.

Para quem pensa em tirar sua vida, digo: Não posso ser conivente. Não pense apenas em livrar-se de sua dor, mas também na dor que provocará em pessoas que lhe amam. Além do mais, quantos tentaram e não conseguiram dar cabo de sua própria vida, passando o resto da vida vegetando, dando trabalho aos outros? Não é isso que você quer, é? Então, trate de tirar isso de sua cabeça. Qualquer coisa que faça, pode ser revertida e consertada, menos o suicídio. Trata-se de caminho sem volta. Lembre-se de que “o Senhor é quem tira a vida e a dá. Faz descer a sepultura e faz tornar a subir dela” (1 Samuel 2:6). Portanto, finque seus pés na estrada da vida. Viva e deixe viver.