domingo, maio 20, 2018

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O casamento do século e o fim de uma era



Por Hermes C. Fernandes

O mundo está em polvorosa! E no meio desse fogo cruzado se encontra uma jovem americana afrodescendente divorciada que desafia o protocolo real britânico, casando-se com ninguém menos que o príncipe Harry.  Algumas feministas festejam o fato de ela ter se recusado a pronunciar o verbo “to obey” (obedecer) na cerimônia, e de ter decidido entrar sozinha na igreja. Ela prometeu amar, confortar, honrar e proteger o marido, mas não obedecê-lo. Outras acusam-na de haver traído à causa ao aceitar viver um conto de fadas, abrindo mão de sua privacidade, de seus perfis nas redes sociais, e até de sua religião, já que abdicou da fé católica para ser batizada na igreja anglicana. 

Rachel Meghan Markle não é apenas uma plebeia se infiltrando na mais poderosa família real do mundo. Nem é apenas uma feminista se aproveitando da cerimônia de seu próprio casamento para panfletar. Tampouco, apenas uma negra desafiando a supremacia branca. Nem ainda, uma divorciada quebrando um tabu, ou uma mulher desprovida de atributos físicos desdenhando dos padrões de beleza ocidentais.  Ela é bem mais que isso. Ela encarna os anseios dos oprimidos e excluídos do mundo inteiro. Ela é um sinal dos tempos. Uma Ester do nosso século. Ela carrega em seu DNA séculos de exploração. Uma agente infiltrada nas engrenagens responsáveis por perpetrar no mundo o machismo, o racismo, o imperialismo, o colonialismo, o sexismo, a moral vitoriana, etc.

A julgar por sua postura na cerimônia, há que se esperar que ela dê mais dor de cabeça à coroa britânica do que sua falecida sogra Lady Di. Meghan terá que assumir alguns deveres oficiais, o que inclui caridade e ações humanitárias, como fazia Lady Di esplendidamente. Mas isso não é novidade para ela, que já foi embaixadora mundial da World Vision Canada, uma organização que angaria fundos para ajudar crianças em situação de pobreza, foi conselheira do One Young World, uma instituição de caridade que agrupa líderes mundiais para criar mudanças positivas no mundo e trabalhou como defensora da Entidade para a Igualdade de Gênero e o Empoderamento das Mulheres das Nações Unidas.

A razão pela qual preferiu entrar sozinha na igreja e não acompanhada de seu sogro se deve ao fato de que seu pai teria se submetido a uma cirurgia cardíaca, ficando impossibilitado de comparecer à cerimônia. Deve ter sido um choque e tanto para ele que é de origem irlandesa, ver sua filha entrando para a família que tem mantido a Irlanda sob seu domínio por séculos. Já sua mãe é afro-americana, nascida e criada em Los Angeles.  

A noiva fez questão de chamar o reverendo Michael Bruce Curry, conhecido por se manifestar pela igualdade racial e a favor do casamento homoafetivo. Como se não bastasse o sermão do pastor negro citando Martin Luther King, o violoncelista negro Sheku Kanneh-Mason, de apenas 19 anos, um coral gospel negro regido por uma maestrina cantando “Stand Bye Me”, escrita pelo artista soul Ben E. King dentro de um contexto segregacionista norte-americano nos anos 60, pela primeira vez na história as trombetas que anunciavam o início da cerimônia foram tocadas por mulheres.  Que representem a última trombeta que anuncie o fim de uma era prenunciada pelo mais célebre dos Beatles, John Lennon, responsável por eternizar aquela velha canção. 





sexta-feira, maio 18, 2018

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E se Deus lhe desse um filho gay?



Por Hermes C. Fernandes

“Quando se destrói um velho preconceito, 
 sente-se a necessidade duma nova virtude.” 
Madame de Staël 

Durante uma festa de casamento, meu cunhado Rodrigo contou-me acerca de uma casa de amparo para gays rechaçados pela própria família em São Paulo. Ao visita-la, teve seu apoio desprezado provavelmente por tomarem conhecimento de que era pastor. A razão? Parte dos internos era formada por filhos de pastores expulsos de seus lares pelos próprios pais.[1] Doutra feita, em uma das minhas andanças pelo nordeste brasileiro como preletor, fui levado por meu anfitrião a um sofisticado restaurante na orla de uma linda cidade. Após um apetitoso jantar, aquele pastor de pouco mais de cinquenta anos desabafou comigo, contando-me que seu filho criado na igreja, ministro de louvor, assumiu sua homossexualidade. O que poderia ter sido mantido em segredo espalhou-se como um incêndio na caatinga, depois que o rapaz confidenciou-se com alguém de seu círculo de amizade. Resultado: a igreja sofreu a maior sangria de membros de sua história. As pessoas alegavam que não estavam dispostas a frequentar uma igreja onde o filho do pastor fosse declaradamente gay. Em vez de posicionar-se contra seu filho e a favor da congregação, aquele veterano pastor abraçou seu filho e disse à igreja que mesmo que todos o abandonassem, ele jamais abandonaria seu filho. Talvez um dos mais tristes casos que me chegaram ao conhecimento foi o de um menino de apenas 10 anos, coleguinha de várias crianças de nossa igreja, que cansado de sofrer bullying na escola e preconceito dentro de sua própria família, depois de tomar veneno de rato, pôs um saco plástico na cabeça, sufocando-se até a morte. Como não sensibilizar-se ante uma tragédia como esta? Ouvi muitas histórias de pais que, envergonhados pela orientação sexual de seus filhos, preferiram renega-los. Mas também ouvi tantas outras de pais que peitaram o mundo, desafiando sua hipocrisia e preconceito, para oferecer a seus filhos o devido apoio em face de sua condição existencial. Mais difícil do que ouvir um relato é se vir envolvido diretamente numa situação complexa entre pais e filhos homossexuais. Em um dos episódios mais melindrosos em que me envolvi, um rapaz que a pouco havia começado a frequentar nossa comunidade procurou-me online. Ele já havia me confidenciado sua orientação sexual, razão pela qual deixara sua antiga igreja, já que a mesma encarava com certa hostilidade a questão. Mas agora, depois de tomar coragem, resolveu contar à sua mãe. Seu mundo parecia haver desabado. Filho único, não sabia o que fazer caso sua mãe decidisse contar a seu pai. Seu receio era que seus pais o expulsassem de casa ou que acontecesse coisa pior. Enquanto tentava acalma-lo, outro chat se abriu na tela do meu computador. Era sua mãe desesperada pedindo ajuda. “Pastor, o que faço? Meu filho acaba de me confessar que é gay? Não sei se devo contar ao meu marido! Tenho medo da sua reação. Ele pode passar mal e até morrer se souber que tem um filho gay.” Nem ele sabia que eu estava conversando simultaneamente com sua mãe, nem ela sabia que eu estava conversando com seu filho. Graças a Deus consegui contornar a situação e convencer a ambos a lidar com aquilo com leveza. Mais tarde, pude conversar também com o seu pai, orientando-o a proceder com carinho e amor. O fato de ser gay não deveria impedi-lo de ser amado por seus pais. Tudo terminou bem. A família se manteve unida. Algum tempo depois, o rapaz concorria a uma vaga numa faculdade de medicina. Ele não só seguiu sendo amado, mas também sendo orgulho para o seus pais. 

Um caso que teve um desfecho trágico é o de Ronald David Roberts, filho primogênito do famoso evangelista norte-americano Oral Roberts[2], que após assumir sua homossexualidade, suicidou-se com um tiro no coração depois de ouvir de seu pai que iria para o inferno caso não abandonasse sua orientação sexual. 

Não me vejo em condição de julgar os pais de um homossexual por sua reação abrupta ante a sua orientação sexual. No caso acima, por ser filho único, era óbvio que havia por parte dos pais a expectativa de que um dia lhes desse um neto. De repente, tal possibilidade parece remota, quase impossível. E o que os parentes vão dizer? Será que vão culpar a educação que deram? E a igreja? Quais serão os comentários de seus membros? Será que dirão que seu filho tão querido está endemoninhado? Não dá para mensurar o sentimento de culpa, a angústia, as dúvidas que pairam sobre a cabeça dos pais ao descobrirem que têm um filho ou uma filha homossexual. O fato é que, por mais que afirmemos não termos qualquer preconceito, raramente alguém vai querer ter um filho gay. Uns por puro preconceito mesmo, mas outros, por achar que não suportariam ver seu filho sendo discriminado e sofrendo todo tipo de bullying por causa de sua orientação sexual. Penso que justamente por esta razão, até mesmo casais homossexuais prefeririam que seus filhos fossem héteros, já que isso os pouparia de tanto sofrimento. 

E se Deus lhe desse um filho gay? Qual seria a sua reação? Você o aceitaria? Tentaria mudá-lo? E se ele fosse vítima de bullying, você o defenderia? Talvez alguém diga: “Isso jamais aconteceria! Por que Deus me daria um filho assim? O que eu teria feito para merecer isso?” Primeiro, ter um filho gay não seria um castigo. Mas pode ser que Deus queira tratar com seus preconceitos. Como também pode ser que Ele intente fazer de sua família uma referência para que outros pais aprendam a lidar com esta questão com serenidade e amor. Há casos de pais que expulsaram o filho de casa, deixando-o numa situação tal que não lhe restou alternativa senão prostituir-se. O apoio que não recebeu em casa é encontrado entre outros homossexuais, vítimas do mesmo desamor. Alguns chegam a dizer que preferiam ter um filho bandido a um filho gay. Imagine crescer ouvindo isso o tempo todo. Por isso, muitos preferem sofrer calados, sem jamais confidenciar seus conflitos com os seus pais e irmãos. 

A igreja, por sua vez, parece não estar preparada para lidar com isso. Em vez de trazer um discurso conciliador, a igreja provoca um abismo quase intransponível entre o homossexual e seus pais. A igreja parece estar tão preparada para lidar com filhos homossexuais quanto os discípulos estavam preparados para atender àquele pai desesperado cujo filho possesso se lançava, ora no fogo, ora na água. Não estou aqui fazendo qualquer comparação entre homossexualidade e possessão, mas comparando o despreparo dos discípulos com o despreparo da igreja atual para lidar com a questão. Jesus havia acabado de descer do monte com três dos seus discípulos mais chegados, onde ouvira dos lábios do Pai: “Este é meu Filho amado, em quem tenho prazer, a Ele ouvi!”[3] Agora se deparava com um pai aflito e desesperado pela condição de seu filho. Que contraste! O que fez o Filho de Deus? Atendeu ao clamor do pai, fazendo o que seus discípulos falharam em fazer. Igualmente, devemos descer de nosso pedestal moral e sair ao encontro daqueles cujas vidas estejam aquém do padrão que muitos consideram ser o correto. E em vez de sair por aí exorcizando o "demônio" da homossexualidade, deveríamos colocar nosso ego para jejuar. O jejum sem o qual certas castas de demônios se recusam a sair não é a abstinência de comida, mas o abdicar-se da presunção, do preconceito, da arrogância religiosa. Gente que arrota santidade prefere construir seus tabernáculos no alto do monte e manter-se separada da gentalha lá embaixo, como sugeriu Pedro no alto daquele monte ao presenciar a transfiguração de Jesus. Com o nosso ego inflado, jamais daremos conta de exorcizar nossos próprios demônios, quanto mais os que assombram os outros. O fato de sermos declarados "amados por Deus" não nos confere o direito de olhar com desdém para os que sofrem, não apenas por sua condição, mas, sobretudo, pela maneira como a sociedade e a família os tratam devido a esta condição. 

O que o homossexual necessita não é de sessão de exorcismo, terapias para voltar para o armário, sermões moralistas inflamados, mas de amor. Apenas isso: amor. A igreja e a família devem oferecer um ambiente acolhedor, desprovido de julgamentos e preconceitos. Com que moral podemos anunciar ao mundo que temos o remédio para suas moléstias, se nem sequer fomos curados de nossa homofobia? Queremos tratar o mundo, enquanto Deus pode estar querendo tratar conosco. O único remédio capaz de tratar tanto o homossexual (devido as feridas que lhe fizemos), quanto o homofóbico, é o amor revelado na graça de Deus. Amor que tudo sofre, tudo suporta e tudo crê. Amor que jamais se acaba. Amor que cobre multidão de pecados[4], tanto dos pais, quanto dos filhos. Tanto de héteros, quanto de homossexuais, quer sejam assumidos ou enrustidos. 

De acordo com a psicanalista e professora da USP Edith Modesto, autora do livro “Mãe sempre sabe? Mitos e Verdades Sobre Pais e seus Filhos Homossexuais”[5], houve uma mudança social muito grande nas últimas décadas que resultou em um tímido, porém vitorioso avanço no que diz respeito à tolerância, sobretudo, nos grandes centros urbanos. Avanços singelos, porém cheios de significado. Em 1992, Edith descobriu que seu filho caçula era gay. Por não saber como lidar com a situação, resolveu recorrer à ajuda de outras mães que houvessem enfrentado o mesmo, mas sua busca foi em vão. Anos depois, decidiu criar o Grupo de Pais de Homossexuais (GPH) com a intenção de oferecer ajuda a outros pais que também não souberam o que fazer ao tomarem conhecimento da orientação sexual de seus filhos. Em seu livro, Edith explica que apesar das mudanças ocorridas nas últimas gerações, uma coisa que não mudou foi a reação dos pais ao descobrirem que os filhos são gays. Mesmo os pais considerados mais descolados, abertos e modernos, a reação inicial não difere muito. 

Baseado no trabalho da psicanalista, o site Donna[6] elencou 10 frases que pais e mães costumam dizer aos filhos quando descobrem que são gays. Ei-las abaixo com algumas adaptações: 

1. “É só uma fase! Vai passar!” - Segundo a psicanalista, os pais sempre passam por uma fase de negação no processo de aceitação. Compreensível, afinal, não deve ser fácil descobrir que o filho não vai ter aquela vida que os pais imaginavam. No entanto, quando um jovem resolve abrir o jogo é porque já está convicto ou, no máximo, confuso com relação à sua sexualidade. Dizer que é uma fase não ajuda os filhos, nem é bom para os próprios pais. Porque se for, pode ser uma fase para a vida toda. Negar não vai ajudar. 

2. “Não te criei para isso!” - Nenhum pai ou mãe cria um filho para ser gay. A psicanalista conta que a primeira fase pela qual os genitores passam é a do desespero, e aí vem todo tipo de reação. Por mais que a família desconfie da orientação sexual dos filhos, a tendência que é neguem consciente ou inconscientemente até que venha a confirmação. 

3. “O que os outros vão pensar?” - Há sempre aqueles pais que estão preocupados com o que vizinho vai pensar ou o que o colega de trabalho pode dizer. Mas isso é realmente mais importante do que bem-estar do filho? Edith explica que a vergonha é a primeira reação a aparecer e a última a ir embora durante o processo de aceitação. As mães geralmente entram no armário depois que o filho se assume – ou “sai dele”– e acabam se isolando. 

4. “Seu pai vai morrer do coração quando souber disso.” - Não acredito que um pai morra ao saber que o filho é gay. Se a reação for dramática, nada que uma água com açúcar ou um calmante não ajude. Assustar o filho também não vai resolver. Essa frase geralmente vem acompanhada de “o que eu vou dizer para a família?” 

5. “Isso é culpa daqueles seus amigos!” - Em 1990, a Organização Mundial da Saúde excluiu a homossexualidade da lista de distúrbios mentais. Apesar de tardia, a medida surtiu algum efeito, afinal, com isso pode-se afirmar que ser gay não é ser ou estar doente. E, mesmo que fosse, não seria contagioso. Ninguém é gay por influência dos amigos. Segundo a psicanalista, os pais precisam confiar na educação que deram aos filhos. Nenhum pai busca criar um filho influenciável a ponto de pôr a própria sexualidade em questão por causa dos amigos. 

6. “Mas você já tentou com uma menina?” - Até dá para entender a dúvida, mas a verdade é que cada indivíduo tem suas próprias experiências. Enquanto alguns passam por relacionamentos diversos antes de entender a própria orientação, outros não precisam sequer experimentar para ter uma confirmação. Edith conta que certa vez foi abordada por um pai que disse que não era possível o filho ser gay se nunca havia dormido com uma mulher. A psicanalista então perguntou ao pai como era possível ele ter certeza de que era heterossexual, se nunca havia dormido com um homem? O pai silenciou. 

7. “Devia ter dado um skate e não patins.” - Ou então “devia ter te levado para escolinha de futebol!”. Os pais costumam se culpar pelas escolhas dos filhos, principalmente as mães, que se sentem pressionadas para criar a prole da maneira mais adequada possível. Logo, quando os filhos parecem fazer algo errado, elas se culpam. “Foi alguma coisa que eu fiz?” é uma das perguntas recorrentes. 

8. “Eu não tenho preconceito, mas tenho medo do que você vai passar.” -  Há uma fase na aceitação dos pais que é a da vergonha, que às vezes vem junto do medo. Para Edith, as mães acabam deslocando o próprio preconceito para os outros. “E se meu filho apanhar na rua?”, pensam elas. A partir daí, o filho não pode ir a lugar nenhum. Mas, para a psicanalista, esconder o filho não é proteger. 

9. “Você tem certeza?”-  A adolescência é um período efervescente, repleto de pequenas grandes descobertas. É nesta fase em que geralmente se conhece o primeiro amor, que damos o primeiro beijo, que vamos a nossa primeira festa. É também nessa fase que surgem as dúvidas naturais peculiares ao período. Para alguns, as dúvidas vão um pouco além: “será que eu sou gay?”. É natural que os pais questionem a certeza dos filhos sobre a orientação sexual, assim como os próprios filhos o fizeram. Para Edith, os filhos, muitas vezes, acabam exigindo que os pais aceitem em 15 dias o que eles próprios levaram anos para aceitar. É preciso paciência de ambos os lados. 

10. “Vou ama-lo e apoia-lo incondicionalmente, independente da sua orientação sexual.” - Esta foi a reação daquele pastor que me contou sobre seu dilema com o filho homossexual. Em vez de rechaça-lo, ele o acolheu sem se importar com o olhar discriminatório dos membros de sua própria congregação. Lembro-me de ter ouvido dele que preferia perder a igreja a perder o filho. “Se a igreja me desse um pontapé, Deus poderia levantar outra para me apoiar. Mas se eu perdesse o meu filho, jamais me perdoaria.” 

Como podemos ver, nem toda reação é negativa. Existem pais que imersos em seu próprio preconceito e sofrimento, acabam se esquecendo do sofrimento dos filhos, assim como filhos que acabam ignorando o sofrimento dos pais. Aceitar é um processo que pode ser lento e difícil tanto para os filhos, como para os pais. Muito mais que simplesmente aceitar, que, diga-se de passagem, é uma opção individual de cada um, o essencial é respeitar, que, afinal, é dever de todos nós. Se você tem um filho homossexual, ame-o, ainda que não o compreenda num primeiro momento. Não desista dele. Se você é um homossexual, considere-se amado. Se não por sua família, por Aquele que lhe criou. Sua vida é um presente de Deus ao mundo. 

Que as palavras do salmista sejam um consolo para o seu coração: 

 “Se meu pai e minha mãe me abandonarem, o Senhor me acolherá.” Salmos 27:10



[1] A “Casa 1” funciona na cidade de São Paulo e foi idealizada por Iran Giusti, que oferecia o sofá para os amigos expulsos de casa pela família.  Quando o sofá já não tinha espaço suficiente para a demanda, surgiu a ideia de criar um espaço para abriga-los.
[2] O evangelista Oral Roberts começou em uma humilde tenda de avivamento e depois fundou um ministério que administrava milhões de dólares, além de criar uma universidade que leva seu nome.
[3] Mateus 17:5
[4] 1 Pedro 4:8
[5] MODESTO, Edith, Mitos e Verdades Sobre Pais e Seus Filhos Homossexuais, São Paulo: Editora Record, 2008.
[6] http://revistadonna.clicrbs.com.br/noticia/nao-e-uma-fase-10-frases-que-um-filho-ouve-dos-pais-quando-conta-que-e-gay/

segunda-feira, maio 07, 2018

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A IGREJA DE PAPEL - O maior assalto da história



Por Hermes C. Fernandes

“O maior assalto da história!” É assim que o personagem conhecido como “El profesor” anuncia suas pretensões à quadrilha organizada para assaltar a Casa da Moeda da Espanha na série “La Casa de Papel”. A fim de realizar o ambicioso e minucioso plano, ele recruta oito pessoas dotadas de certas habilidades e que não tenham nada a perder. O objetivo é se infiltrar na Casa da Moeda, de modo que eles possam imprimir 2,4 bilhões de euros. Para tal, eles teriam que se manter por pelo menos onze dias ali, mantendo sessenta e sete reféns e lidando com a Polícia de elite pronta a invadir o local. Quanto mais tempo permanecessem lá, mais dinheiro poderia ser fabricado. Por isso, as negociações com a polícia deveriam ser arrastadas o máximo possível. E para coibir uma invasão policial, todos os reféns foram obrigados a usar as mesmas roupas e máscaras usadas pelos assaltantes. O plano parecia perfeito. Os membros da quadrilha foram treinados por cinco meses para que nenhum erro fosse cometido. Só uma coisa não estava prevista: o envolvimento sentimental entre eles e os reféns, fenômeno psicológico conhecido como “síndrome de Estocolmo”. Nem o professor estava imune a isso, e acabou se envolvendo com a chefe da operação policial.

Enquanto assistia à trama, pus-me a pensar no quanto ela serviria de analogia para o que, de fato, seria o maior assalto da história. Assalto que já se arrasta por quase dois mil anos e que está acontecendo bem debaixo do nosso nariz.

Tudo começou quando alguém se atreveu a achar que “a piedade é fonte de lucro.”[1] Um tal Simão, conhecido como “o mago” se aproximou de outro Simão, também chamado Pedro, oferecendo-lhe uma considerável quantia em dinheiro para que lhe contasse o segredo por trás dos milagres operados em seu ministério. Porém, o apóstolo se lembrou das palavras de Cristo advertindo a Seus discípulos quanto ao estranho que quisesse entrar no curral das ovelhas sem passar pela porta. Jesus o chamou de “ladrão e salteador”[2], que vem apenas para roubar, matar e destruir.[3] Como bom porteiro, a quem Cristo confiou as chaves do reino, Pedro soube dizer não à pretensão daquele impostor: “O teu dinheiro seja contigo para perdição, pois cuidaste que o dom de Deus se alcança por dinheiro. Tu não tens parte nem sorte nesta palavra, porque o teu coração não é reto diante de Deus.”[4]

Mas aquela era apenas a primeira investida.

Se Simão, o mago, fosse admitido entre os apóstolos, ele certamente seria o mercenário que abriria a porteira ao lobo para que se servisse das ovelhas. Pois é assim que os mercenários agem. E assim eles têm agido ao longo dos séculos.

A advertência de Jesus quanto a infiltração de estranhos evitou que a igreja sucumbisse ao assédio de quem pretendesse se locupletar do rebanho. Todavia, o adversário tinha uma carta na manga. Foi Paulo o primeiro a perceber isso. Em sua despedida dos efésios, ele os advertiu: “Porque eu sei isto que, depois da minha partida, entrarão no meio de vós lobos cruéis, que não pouparão ao rebanho; e que de entre vós mesmos se levantarão homens que falarão coisas perversas, para atraírem os discípulos após si.”[5]

Já que as ovelhas não seguiriam a voz de estranhos, nada mais eficaz do que arregimentar rostos familiares, gente que não levantasse qualquer suspeita. Os tais são representados no livro de Apocalipse como aquele que tem aparência de cordeiro, mas cuja voz é a de um dragão. Dentre os adjetivos listados por Paulo para classificá-los estão: “amantes de si mesmos, gananciosos, presunçosos, soberbos, blasfemos, desobedientes a seus pais, ingratos, ímpios, sem afeição natural, implacáveis, caluniadores, incontinentes, cruéis, inimigos do bem, traidores, atrevidos, orgulhosos, mais amigos dos prazeres do que amigos de Deus, tendo aparência de piedade, mas negando-lhe o poder.”[6]

Por trás da pele de cordeiro, lobos cruéis que não poupam o rebanho, devorando-lhes as carnes e apropriando-se de sua lã. Os tais “falsos apóstolos”, denuncia Paulo, “são obreiros fraudulentos, transfigurando-se em apóstolos de Cristo. E não é de admirar, pois o próprio Satanás se transfigura em anjo de luz. Não é muito, pois, que os seus ministros se transfigurem em ministros da justiça; o fim dos quais será conforme as suas obras.”[7]

Voz aveludada. Olhar convincente. Gestos calculados. Discurso inflamado. Conduta aparentemente ilibada. Quem poderia supor que tudo isso poderia esconder um lobo cruel?

E o pior é que “muitos seguirão as suas dissoluções, e, por causa deles, será blasfemado o caminho da verdade. Também, movidos pela ganância, e com palavras fingidas, farão negócio de vós.”[8] Não é exatamente isso que temos visto em nossos dias? Quantos já não estão vacinados contra o evangelho por causa da compostura desses lobos vorazes!

O lobo não obteria igual êxito se não encontrasse cúmplices entre as próprias ovelhas. Como bem disse Simone de Beuavoir, “o opressor não seria tão forte se não tivesse cúmplices entre os próprios oprimidos.”[9]

Em “La Casa de Papel”, há um episódio em que o professor sugere que se faça uma oferta aos reféns. Aqueles que quisessem, poderiam ser liberados. Mas os que preferissem permanecer reféns voluntariamente, receberiam cada um a cifra de um milhão de euros. Obviamente que um grupo optou pela oferta enganosa e passou a colaborar com o assalto, trocando o papel de vítima pelo de cúmplice.

Tornamo-nos cúmplices quando achamos que o que o lobo nos oferece vem de encontro aos nossos anseios. Paulo nos deixou de sobreaviso de que viria um tempo em que não suportariam a sã doutrina, mas, “tendo coceira nos ouvidos”, se cercariam de mestres “segundo as suas próprias cobiças”, recusando-se a dar ouvidos à verdade, e voltando-se às fábulas.[10] E relativamente fácil enganar alguém quando este está predisposto a ser enganado.

E como poderíamos julgar se uma doutrina é ou não saudável? Basta verificar que tipo de sentimento e postura tal doutrina suscita. Confira o que diz Paulo sobre isso:

“Se alguém ensina outra doutrina e não concorda com as sãs palavras de nosso Senhor Jesus Cristo e com a doutrina que é segundo a piedade, é soberbo e nada sabe, mas delira acerca de questões e contendas de palavras, das quais nascem invejas, porfias, blasfêmias, suspeitas malignas, contendas de homens corruptos de entendimento e privados da verdade.” 1 Timóteo 6:3-5

Qualquer ensinamento, por mais eficaz que pareça, se não nos torna seres humanos melhores não deve ser considerado saudável.

Tais lobos arrebanham multidões porque dizem o que as pessoas querem ouvir. Eles não as confrontam com a verdade, não expõem suas mazelas e preconceitos, não as desafiam a serem justas, mas as atraem “adulando pessoas por causa do interesse.”[11]

Algo precisa ser feito para impedir o avanço desta matilha descontrolada. “É preciso tapar-lhes a boca”, afirma Paulo, “porque arruínam casas inteiras ensinando o que não convém, por pura ganância.”[12] Se nos calarmos, seremos igualmente cúmplices de suas obras. E só há uma maneira de calá-los: denunciando-os.[13]

Ainda que para isso tenhamos que cortar na carne.

Em ano eleitoral como o que estamos vivendo, muitos mercenários abrirão a porteira de seu redil e entregarão seus púlpitos e ovelhas de mão beijada aos lobos. O que muitas ovelhas não sabem é que seus votos estão sendo negociados à surdina. Quanto mais membros tem uma congregação, maior poder de barganha tem o líder. E assim, a Bíblia deixa de ser nosso livro de cabeceira, substituída pelo “O príncipe” de Maquiavel, onde aprendemos que os fins justificam os meios.

De repente, o pastor cede às investidas do lobo, e em troca de uma laje, ou de um equipamento de som, ou mesmo de uma propriedade para a igreja, apresenta o candidato durante um culto e pede que os irmãos o apoiem. Que mal há nisso? Se o candidato tira o dinheiro do próprio bolso para ofertar, não são os cofres públicos que estão sendo lesados. Ledo engano. Caso seja eleito, aquele candidato vai querer repor o que gastou, e assim, a laje da igreja, o equipamento de som, o terreno, terão custado o dinheiro desviado da merenda escolar, das ambulâncias que deixaram de ser adquiridas, dos salários atrasados dos professores, etc.

Até quando assistiremos a este assalto sem nos pronunciarmos?

Em La Casa de Papel, as autoridades achavam que os ladrões pretendiam apenas roubar o que estivesse guardado nos cofres da Casa da Moeda. Porém, suas pretensões eram bem mais ambiciosas. Eles queriam colocar suas máquinas trabalhando a todo vapor na fabricação de dinheiro. Da mesma maneira, muitos líderes religiosos chegaram à conclusão que não bastaria extrair do rebanho sua lã, extorquindo-o através de promessas de prosperidade. Eles querem mais que isso. Querem o poder. Querem o erário público. Querem incentivos fiscais. Querem cargos. Querem leis que os protejam. Querem concessões de rádio e TV. Querem a desapropriação de imóveis. Querem o direito de pregarem o que bem entenderem, ainda que isso alimente preconceitos e promova o ódio.

Alguém precisa emperrar esta máquina eclesiástica que nada tem a ver com o Cristo e Sua mensagem subversiva de amor e justiça. Precisamos abandonar as pretensões do cristianismo, religião fundada por Constantino, e voltar ao genuíno evangelho, que de religião não tem nada. E para isso, há que se abandonar aquilo que é a raiz de todos os males, o amor ao dinheiro, e voltar ao princípio de tudo, o primeiro amor. Que nos libertemos desta Síndrome de Estocolmo que nos torna duplamente reféns, isto é, reféns dos que nos enganam para se locupletar e reféns de nossa própria cobiça.




[1] 1 Timóteo 6:3-5
[2] João 10:1-5
[3] João 10:10-12
[4] Atos 8:20,21
[5] Atos 20:29,30
[6] 2 Timóteo 3:1-5
[7] 2 Coríntios 11:13-15
[8] 2 Pedro 2:1-3
[9] BEAUVOIR, S. O Segundo Sexo Vol 2: A Experiência Vivida, Difusão Europeia do Livro, 1967.
[10] 2 Timóteo 4;3-4
[11] Judas 1:16
[12] Tito 1:10-11
[13] Efésios 5:11

segunda-feira, abril 30, 2018

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Deus e suas pegadinhas...




Por Hermes C. Fernandes

Sempre haverá quem se aproveite dos momentos de transição ou crise para rebelar-se contra a ordem estabelecida, seja para o bem ou para o mal, bastando para isso uma justificativa plausível que o deixe bem com a consciência e com a opinião pública.

Assim foi com Mesa, rei dos moabitas. Por anos ele serviu a Acabe, rei de Israel, pagando impostos altíssimos, sem sequer reclamar. Eram cem mil cordeiros, e cem mil carneiros com a sua lã. Mas tão logo Acabe morreu, e seu filho Jorão assumiu seu trono, Mesa se revoltou e resolveu virar a mesa e romper com Israel. A troca de gestão foi apenas o pretexto perfeito para rebelar-se.

Jorão, ainda inexperiente, para não abrir um precedente em seu reino, buscou a ajuda do rei de Edom, e de Josafá, rei de Judá.

Josafá era homem temente a Deus, bem diferente de Acabe, pai de Jorão. Porém, aceitou entrar numa guerra que não era sua. Talvez ambos os reis temessem que a rebelião de Mesa provocasse uma espécie de “efeito dominó”, abrindo um precedente para que outros reinos se rebelassem, e assim, tanto Israel, quanto Judá e Edom experimentassem um caos político.

Jorão tentara livrar-se do estigma deixado por seus pais, Acabe e Jezabel, pois não queria ter o mesmo fim que eles. Por isso, elegeu outro referencial em quem pudesse se espelhar: Jeroboão. O texto sagrado relata que Jorão “aderiu aos pecados de Jeroboão, filho de Nebate, que fizera pecar a Israel” (2 Reis 3:3). Em outras palavras, Jorão trocou seis por meia-dúzia.

Sem consultar a Deus, os três reis saíram em direção a Moabe, pelo caminho do deserto de Edom. “Após andarem rodeando durante sete dias, não havia água para o exército, nem para os animais que os seguiam. Então disse o rei de Israel: Ah! O Senhor chamou estes três reis para entregá-los nas mãos dos moabitas” (vv.9-10). Ora, que direito Jorão tinha de reclamar assim, já que fora ele quem decidira por qual caminho subir? Não se pode tomar a soberania de Deus como justificativa para os fracassos resultantes de nossas más escolhas. Interessante notar que quando o homem é bem-sucedido, usurpa todos os créditos para si. Mas quando experimenta um fracasso, logo busca a quem culpar. E às vezes, petulantemente, culpa o próprio Deus.

Que bom que Josafá estava ali. Imagino que ele poderia estar se perguntando por que havia se metido naquela furada. Mas em vez disso, perguntou: “Não há aqui algum profeta do Senhor, para que consultemos ao Senhor por ele?” (v.11). Eis a diferença entre Jorão e Josafá. Enquanto Jorão buscava respaldar-se em Jeroboão, que foi o rei responsável pela divisão entre Israel e Judá, Josafá buscava respaldar-se em Deus, origem de toda autoridade. Jorão bebia de uma fonte turva e amarga. Josafá bebia de uma fonte doce e cristalina. Jorão se alimentava do pão da rebelião. Josafá se alimentava do pão da vida.

Um dos servos de Jorão respondeu: “Aqui está Eliseu, filho de Safate, que deitava água sobre as mãos de Elias. Disse Josafá: Está com ele a palavra do Senhor. Então o rei de Israel, Josafá e o rei de Edom desceram a ter com ele” (vv.11b-12).

O que interessava a Josafá era saber com quem estava a Palavra do Senhor. Por que Eliseu? Porque ele havia sido fiel a Elias até a sua partida. A Palavra do Senhor é tal água cristalina que só deveria jorrar de canais fiéis que não comprometessem sua pureza original. Quando o servo de Jorão referiu-se a Eliseu como aquele que“deitava água sobre as mãos de Elias”, Josafá não teve dúvida. Era esse que eles precisavam ouvir. Sua referência era bem diferente da referência de Jorão.

Jorão se espelhava em Joroboão que usurpou o trono de Salomão. Em outras palavras, Jorão bebia da fonte da infidelidade. Quando Eliseu viu aqueles reis se aproximarem, recusou-se recebê-los. Fitando os olhos de Jorão, bradou: “Que tenho eu contigo? Vai aos profetas de teu pai e aos profetas de tua mãe. Porém o rei de Israel lhe disse: Não, porque o Senhor chamou estes três reis para entregá-los nas mãos dos moabitas” (v. 13).

Jorão era um legítimo representante de uma dinastia maligna que se levantara em Israel. Vê-lo fazia com que a memória de Eliseu fosse remetida às perversidades cometidas por Acabe e Jezabel, seus pais. Mas quando percebeu que Jorão se fazia acompanhar de Josafá, Eliseu reconsiderou sua posição, e disse: “Tão certo como vive o Senhor dos Exércitos, em cuja presença estou, se eu não respeitasse a presença de Josafá, rei de Judá, não olharia para ti, nem te veria” (v.14). Ufa! Esta passou por pouco! Que sorte a de Jorão fazer-se acompanhar de um legítimo representante de uma dinastia iniciada na fidelidade.

O encontro entre Jorão e Josafá era como o encontro entre as águas escuras do rio Negro e as águas limpas do Solimões, que se encontram, mas não se misturam. Há convergência, mas não comunhão.

Em respeito à presença de Josafá, Eliseu decidiu ajudá-los. Mas não sem antes fazer uma exigência: “Mas agora trazei-me um harpista. Enquanto o harpista tocava, veio sobre Eliseu a mão do Senhor, e disse: Assim diz o Senhor: Fazei neste vale muitas covas, porque assim diz o Senhor: Não vereis vento, nem vereis chuva, contudo este vale se encherá de água, e bebereis vós, o vosso gado e os vossos animais” (vv.15-17). Imagine milhares de homens cansados, exauridos, sedentos, tendo que cavar buracos no meio do deserto. Simplesmente não fazia qualquer sentido. Talvez, enquanto cavassem, alguns comentassem entre si: Estamos cavando nossas próprias covas. Mas as coisas nem sempre são o que parecem. O que não faz sentido agora, poderá fazer num futuro próximo. Se a orientação de Deus é cavar, então, o que é que está esperando? Cave!

Não se preocupe com os comentários maldosos. Apenas obedeça às instruções divinas, mesmo que não façam sentido. Deus prometera, por intermédio de Eliseu, que viria água capaz de saciar a todos os soldados, e até mesmo a seus animais. Porém, tais águas não viriam pelos meios comuns. Não haveria chuva, nem vento. Deus faria algo diferente que os surpreenderia.

Aprendi desde cedo que nossos pedidos a Deus devem ser sempre bem específicos. Porém hoje, acredito que quando somos muito específicos, corremos o risco de subestimarmos o Seu poder.

Não podemos colocar nossas expectativas nos meios usados por Deus. Em vez de colocá-las nos canais, devemos colocá-las na Fonte. Deixemos que Ele escolha por quais meios vai nos atender. Afinal de contas, Ele é Deus que decreta os fins e estabelece os meios.

O profeta concluiu:
“Ainda isto é pouco aos olhos do Senhor; também entregará ele os moabitas nas vossas mãos”(v.18).
Espera aí! O que é que eles estavam fazendo ali no meio do deserto? Qual era o seu objetivo inicial? Eles não estavam ali à passeio, estavam? Óbvio que não. Seu objetivo era o empreendimento de uma campanha militar. A escassez de água fez com que eles se esquecessem do propósito original de sua jornada.

Quantas vezes deixamos de ser guiados por propósito para ser guiados por necessidades? A vida só faz sentido quando mantemos o foco num propósito maior que nossa própria existência. Não vale a pena viver apenas em função da manutenção da própria existência. Jesus disse que a vida vale mais que o alimento. Um propósito digno é aquele que sobrevive a nós!

Não deixe que suas necessidades imediatas ofusquem seus objetivos principais. Muitas pessoas são induzidas a pensar que seu relacionamento com Deus só serve para o suprimento de suas necessidades. O “deus” que elas cultuam está mais para o gênio da lâmpada de Aladim, do que para o Deus revelado nas Escrituras. É claro que Deus se interessa em suprir nossas necessidades! Se não, Paulo não teria dito: “E o meu Deus suprirá todas as vossas necessidades segundo a sua gloriosa riqueza em Cristo Jesus” (Fp.4:19). Entretanto, isso ainda é pouco aos olhos do Senhor.

O próprio Jesus demonstrou isso, ao declarar: “Portanto, não andeis ansiosos, dizendo: Que comeremos? Que beberemos? Ou: Com que nos vestiremos? (...) De certo vosso Pai celestial bem sabe que necessitais de todas elas. Mas buscai primeiro o seu reino e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas” (Mt. 6:31,32b).

Ele quer nos suprir e saciar, pra que prossigamos na execução dos Seus propósitos neste mundo. Cuidado para não transformar os meios em fins!

Voltemos para o texto que estamos considerando:
“Na manhã seguinte, na hora da oferta dos cereais, vinham as águas pelo caminho de Edom, e a terra se encheu de água” (v.20).
Não me pergunte como. Só sei que a promessa de Deus se cumpriu. As águas irromperam e vieram pelo caminho de Edom. Interessante notar um detalhe: as águas vieram justamente da terra daquele rei cujo nome sequer é citado no texto. Os figurões eram Jorão e Josafá. O rei de Edom estava ali só de figurante. Mas foi de lá, de Edom, que as águas jorraram.

Pelo jeito, Deus gosta mesmo é de fazer surpresa. Ele faz com que a provisão venha por canais que não esperamos, para aprendemos a depender da fonte, e não de um canal específico.

A história não termina aqui. Há uma guerra a ser travada.
“Ouvindo todos os moabitas que os reis tinham subido para pelejar contra eles, convocaram-se todos os que cingiam cinto desde o mais novo até o mais velho, e puseram-se às fronteiras. Levantaram-se os moabitas cedo de manhã e, brilhando o sol sobre as águas, viram diante de si as águas vermelhas como sangue, e disseram: Isto é sangue! Certamente os reis se destruíram, e se mataram um ao outro! Agora, à presa, moabitas!” (vv.21-23).
Você sabia que Deus também faz pegadinhas? Ele sabe o quanto somos enganados por nossas próprias percepções. Lembra das covas que Eliseu mandou que cavassem? A que propósito serviriam? Confundir os inimigos.

Os moabitas foram enganados por seus próprios sentidos. O reflexo da luz solar sobre as covas cheias de água, produziu um efeito que sugeria sangue. A seu juízo, os exércitos ali reunidos tinham brigado entre si, e se auto-destruído. Por isso, guardaram suas espadas e foram afoitos em busca dos despojos. Quando entraram no arraial... SURPRESA!

Os soldados já estavam prontos para dar-lhes a recepção que mereciam. Nem tudo parece o que é. Somos sempre ludibriados por nossos sentidos e emoções. Por isso, deixe-se conduzir por convicções, não por emoções; por propósitos, não por necessidades. Por fé, não por vista. 

Por que ficar preocupados com aquilo que dizem sobre nós? Não temos que provar nada a ninguém. Que pensem o que quiserem! Que achem que estamos cavando nossa própria cova. Ou que nos autodestruímos. A verdade sempre prevalecerá! O tempo a revelará.

quarta-feira, abril 25, 2018

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Jesus, o Traidor



Por Hermes C. Fernandes

Sim, Jesus traiu. Não se espante com esta afirmação. Ele só foi traído, porque traiu antes. Ele traiu as expectativas de Seus discípulos ao desperdiçar Sua popularidade, e em vez de marchar em direção ao palácio para depor tanto Herodes, quanto Pilatos, preferiu invadir o Templo, derrubar  as mesas dos cambistas e ferir os interesses da casta sacerdotal.

Imagine uma conversa em off entre Jesus e Judas, antes que este se suicidasse. Judas, como sempre, tentando aplacar sua culpa por haver traído o movimento.

“Jesus, o erro não foi seu. Na verdade, o erro foi nosso, ao permitir que as coisas tomassem o rumo que tomaram. Bem que poderíamos ter evitado, chamando o Senhor para uma conversa franca e séria. Mas deixamos rolar e deu no que deu. O Senhor sabe que só chegou aonde chegou porque eu e alguns outros trabalhamos nos bastidores para isso. Fomos nós que atiçamos a massas para que saíssem ao Seu encontro e o recebessem com mantos e palmas na entrada da cidade. Nós que puxamos o coro: “Hosana! Hosana ao que vem em nome do Senhor!” E mais: Fui eu que convoquei os discípulos para orar quando vimos que as coisas estavam ficando feias para o Seu lado. Mas parece que o Senhor não entendeu.  Por isso, não me restou alternativa senão pular fora.”

Judas não apenas pulou fora do movimento. Ele se uniu ao que havia de pior. Ele somou forças com quem antes havia traído Jesus, conspirando para mata-lo. E não apenas isso: ele o vendeu a eles por causa de uma maldita agenda política. Talvez por acreditar que dava para fazer do movimento um trampolim político.

Com isso, os sacerdotes conseguiram atingir o coração do movimento, alguém muito próximo de Jesus, um dos Seus mais chegados discípulos.

Como se não bastasse, o vírus conseguiu contagiar outros dois, Pedro e Tomé, fazendo com que um o negasse, e outro viesse a duvidar dele. Sem contar os próprios familiares de Jesus que desde o início duvidavam dele. As multidões que o seguiam foram reduzidas a um punhado de seguidores. O movimento parecia ter chegado ao fim. E por incrível que pareça, Jesus não facilitava as coisas. Pelo contrário, Ele dava cada vez mais munição para quem queria derrubá-lo.

Enquanto os discípulos se desagregavam, a ponto de só restar um ao pé da cruz, alguns inimigos resolviam se reconciliar para combater um inimigo em comum. Lucas diz que “nesse mesmo dia Pilatos e Herodes tornaram-se amigos; pois antes andavam em inimizade um com o outro” (Lc.23:12). É aquela velha estória... inimigo de inimigo meu é meu amigo.

O que eles não sabiam era que assim se cumpria uma antiga profecia que dizia: “Levantaram-se os reis da terra, e os príncipes se ajuntaram à uma, contra o Senhor e contra o seu Ungido. Porque verdadeiramente contra o teu santo Filho Jesus, que tu ungiste, se ajuntaram, não só Herodes, mas Pôncio Pilatos, com os gentios e os povos de Israel; para fazerem tudo o que a tua mão e o teu conselho tinham anteriormente determinado que se havia de fazer” (Atos 4:26-28).


Não há improvisos nos planos de Deus! Mas há uma enorme diferença entre participar deste plano sendo João, fiel até o último momento, e sendo Judas ou mesmo Tomé ou Pedro.

quinta-feira, abril 19, 2018

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A VAQUINHA SAGRADA - O OUTRO LADO DA HISTÓRIA



Por Hermes C. Fernandes 

Acredito que a maioria dos meus leitores conheça a estória da vaquinha sagrada que precisou ser lançada num precipício para que a família que dela dependia encontrasse outros caminhos e viesse a prosperar. Mas quero propor aqui uma releitura da fábula sob a ótica da tal vaquinha. Afinal, toda estória tem dois lados. Que tal conhecermos o lado dela?

***

Era uma vez uma vaquinha. O leite que produzia ajudava a manter uma família inteira. Todos pareciam amá-la, pois dela dependia a sua sobrevivência. Porém, num certo dia, ela estava faminta. A família só se preocupava em ordenha-la, mas se esquecera de alimentá-la. Fraca, ela saiu em busca de pastagem, mas se viu presa, cercada de arames farpados.

Vendo um boi do outro lado da cerca, perguntou-lhe:

– Como é a sensação de poder pastar livremente num lugar tão amplo?

– É maravilhoso – respondeu.

– E você, querida amiga, não está satisfeita com a grama que lhe dão?

– Como você pode ver, a grama aqui já secou faz tempo e meus donos nem sequer se preocupam em me alimentar. Só fazem exigir de mim todas as manhãs que lhes dê leite suficiente para alimentá-los. E de você, amigo boi, o que seus donos esperam receber?

– A única coisa que posso oferecer é minha força para puxar o arado. – Então é por isso que lhe mantém tão bem alimentado. E quando não tiver mais condições de puxar o arado, o que será de você?

– Logo, logo, eles me enviarão para o matadouro.

– Que triste sina a sua! Felizmente, meus donos parecem gostar muito de mim. Duvido que me deem o mesmo destino.

– Por que não aproveita o espaço entre os arames, e tenta alcançar um pouco de grama verdinha para se alimentar?

– Acho que meus donos não ficariam contentes de me ver comendo da grama de um pasto alheio. Por isso que substituíram a cerca de madeira por uma de arame farpado. Se tentar enfiar meu focinho por entre os arames, acaberei me machucando feio.

Enquanto os bovinos conversavam, o dono da vaca se aproximou, e julgou que a sua vaquinha estivesse se alimentando do pasto do vizinho e até planejando fugir. Com raiva, pôs-se a espanca-la severamente.

– Sua vaca ingrata! Como pode desejar a grama do quintal vizinho e se esquecer de toda a grama com que já te alimentamos ao longo dos anos?

No outro dia, fraca por não haver se alimentado bem e com o corpo todo dolorido devido à coça que recebera, a vaca não conseguiu produzir o tanto de leite que costumeiramente produzia. Os filhos do dono começaram a reclamar.

– Quem esta vaca pensa que é? Será que se esqueceu de suas obrigações?

Sem paciência, espancaram-na um pouco mais e fizeram pequenos talhos em suas patas. Como se não bastasse, usaram de força bruta para ordenha-la, fazendo sangrar suas tetas. Por causa disso, o leite perdeu a brancura, e misturado ao sangue, apresentou uma coloração rosa.

– Que nojo! Como poderemos beber disso? – indagou um dos filhos do dono.

– E o pior é que não dá pra vender leite estragado! – concluiu o outro, aplicando-lhe um golpe de chicote no lombo. Num reflexo defensivo, a vaca deu-lhe um coice e o machucou.

– Esta vaca está merecendo um castigo! Vamos deixa-la sozinha por um tempo, sem poder pastar, presa no curral. Só assim, ela verá o mal que nos fez – disse o dono.

Naquela noite, a família recebeu em casa uma visita inusitada: Um monge e um noviço que não tinham para onde ir. Ouvindo o mugido triste da vaca, o monge pediu para vê-la no curral.

– Não se avexe não, seu monge. Fique à vontade. O curral fica bem atrás da casa – disse o dono.

Ao entrar no curral, o monge e o noviço se depararam com uma cena deprimente. A vaca parecia desolada, prostrada sobre suas patas como se carregasse uma tonelada nas costas.

– Então, você é a famosa mimosa? – disse o monge, aproximando-se vagarosamente e acarinhando sua cabeça.

– Ela não lhe parece muito machucada, meu senhor? – perguntou o noviço.

– Sim, e pelo jeito essas feridas foram abertas recentemente – avaliou o monge.

– Isso está me parecendo maus tratos. Mas esta família me parece tão boa praça. Não tem jeito de ser do tipo que maltrata animais – comentou o noviço.

– Quem vê cara não vê coração, meu jovem – asseverou o monge.

– Se permanecer aqui por mais tempo, esta vaca vai acabar morrendo. Precisamos fazer alguma coisa urgentemente – disse o noviço.

– Nada disso é de nossa conta. E além do mais, não podemos ser ingratos à família que nos hospedou – disse o monge.

– Não é o senhor mesmo que diz que quem sabe fazer o bem e não faz comete pecado? Então... Temos que fazer algo por esta criaturinha de Deus – pressionou o noviço.

O monge não respondeu uma só palavra. Durante a madrugada, perdeu o sono, ouvindo os mugidos e pensando na tristeza daquele animal e em como aliviá-la. Quando o dia já se insinuava, levantou-se pé por pé, chamou o noviço fazendo-lhe sinal de silêncio, ambos se dirigiram ao curral. Lá chegando, desprenderam a vaca, abriram-lhe a porteira e levaram-na até um precipício.

– Ajude-me a empurrá-la – pediu o monge ao noviço.

– O senhor sabe mesmo o que está fazendo? – Não me faça perguntas. Apenas obedeça. Isso faz parte de seu treinamento.

A vaca resistiu o quanto pôde. Alguns que passavam por ali, vendo a cena, ofereceram-se para ajudar a empurrá-la. Gente que durante anos bebeu do seu leite, agora se prontificava a livrar-se de uma vaca magra, cuja carne nem dava para aproveitar. Quando a vaca finalmente se despencou precipício abaixo, o monge fez sinal para o noviço indicando que era hora de partirem.

– O senhor não vai nem ao menos se despedir da família?

– Depois de termos libertado aquela que era seu ganha-pão? Só se eu fosse louco!

– E o senhor ainda tem coragem de dizer que aquilo que fizemos foi libertá-la? Nós a matamos!

– Depende do ponto de vista. Para quem estava sofrendo como ela, morrer precipitada num despenhadeiro era um destino mais digno do que viver sofrendo nas mãos de donos tão cruéis.

Um ano depois, o monge e o noviço voltaram a passar por aquelas terras.

– Está reconhecendo este lugar? – perguntou o monge ao noviço.

– Sinceramente, a paisagem não me é estranha. Mas não me lembro de ver uma casa como esta por essas bandas – respondeu apontando para uma linda casa recém-construída.

– Que tal pedirmos um copo d’água para sabermos quem mora lá? – sugeriu o monge.

Tocando a campainha, foram atendidos por um rapaz vistoso que os reconheceu de imediato.

– Pai, veja quem está aqui – disse o garoto.

O dono da casa se aproximou e os recebeu com grande alegria.

– Pelo jeito, os senhores não estão me reconhecendo – disse o homem.

– Sua fisionomia é familiar, mas realmente não nos lembramos de onde nos conhecemos.

– Sou aquele homem que os hospedou um ano atrás. Vocês partiram sem ao menos se despedir.

– Perdoe-nos a indelicadeza. Tínhamos nossas razões. E o que houve com vocês para que prosperassem tanto em tão pouco tempo?

– Ah sim... lembra daquela vaquinha? Ela desapareceu misteriosamente!

– Sentimos muito pelo ocorrido.

– Não deveriam. Foi a melhor coisa que poderia nos acontecer. Pois desde então, meus filhos tiveram que procurar um rumo em suas vidas. A família teve que se reestruturar. Eu mesmo encontrei outra atividade a que me dedicar. E assim, tudo começou a fluir e cá estamos nós.

O monge olhou para o noviço como se dissesse: “Está vendo o bem que fizemos a eles?”

O noviço aproximou-se do monge e sussurrou-lhe:

– Seria esse o destino que mereciam depois de tudo o que fizeram àquela vaquinha?

O monge respondeu-lhe:

– Não se trata de méritos, meu jovem. Libertamos a vaca do sofrimento e ainda por cima, libertamos a família da dependência. Ninguém aqui saiu perdendo. Você só se precipitou em julgar minha atitude.

O que eles não sabiam era que a vaca havia sobrevivido ao tombo, sendo acolhida pelos donos da propriedade vizinha que, encontrando-a machucada, cuidaram de suas feridas e lhe franquearam seus verdejantes pastos.

terça-feira, abril 17, 2018

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É possível ser leal, sem ser fiel e verdadeiro sem ser sincero



“Não existe grandeza onde não há simplicidade, bondade e verdade.”
Leon Tolstoi


Ter esperança nada mais é do que seguir confiante de que o melhor, eventualmente, se sucederá. Todavia, há desfechos pelos quais jamais ousaríamos ansiar. Nem tudo nessa vida é preto no branco. Há vitórias que são verdadeiros fracassos. Davi experimentou isso. A crise gerada por seu filho Absalão não poderia terminar bem. Qualquer das alternativas seria igualmente devastadora para o coração do velho pai. Se Absalão obtivesse êxito em sua conspiração, Davi perderia o trono. Porém, se fosse derrotado, Davi perderia o filho.

Insistentemente esperançoso, Davi ordenou a seus generais que por amor a ele tratassem brandamente ao jovem Absalão. Para garantir que sua ordem fosse cumprida, o rei tratou de falar pessoalmente com todos os capitães na presença do povo. Ele queria desbaratar a rebelião, mas manter ileso o seu causador. Afinal, tratava-se de seu filho e não de um estranho qualquer.

Durante a sangrenta batalha no bosque de Efraim que estancou a rebelião, eliminando ao menos vinte mil soldados, Absalão foi encontrado por acaso pelos servos de seu pai. Montado numa mula, seus cabelos longos se prenderam nos ramos de um carvalho. A mula seguiu sua marcha, mas ele ficou suspenso no ar. Um dos homens correu e contou a Joabe, general de Davi, o que flagrara. Indiferente ao que Davi tanto lhe recomendou, Joabe perguntou ao soldado: “Por que não o derrubaste logo por terra? Eu te haveria dado dez siclos de prata e um cinto.”[1]Duvido que Joabe esperasse ouvir dos lábios daquele anônimo a resposta que recebeu: “Ainda que eu pudesse pesar nas minhas mãos mil siclos de prata, não estenderia a mão contra o filho do rei, pois bem ouvimos que o rei deu ordem a ti, e a Abisai, e a Itai, dizendo: Guardai-vos, cada um, de toca no jovem Absalão. E se eu tivesse procedido falsamente contra a sua vida, coisa nenhuma se esconderia ao rei, e tu mesmo te oporias a mim.”[2]

Esta resposta merece que nos debrucemos um pouco mais sobre ela. Engana-se quem pensa que todos têm um preço. Entre as massas facilmente manipuláveis, sempre encontraremos quem tenha valor e jamais permita que sua alma seja etiquetada. Infelizmente temos que admitir que não são muitos. Há que se garimpa-los. Geralmente, estão entre os anônimos, entre os que não venderam suas almas em busca de fama e reconhecimento. Joabe, considerado fiel escudeiro de Davi, finalmente se deparou com alguém mais fiel do que ele. E aqui se vê a diferença entre lealdade e fidelidade. Joabe se revela leal a Davi ao se prontificar a matar quem se lhe opunha. Ao passo que se mostra infiel ao mesmo rei ao deixar de atender à sua solicitação de poupar o rapaz. Num mesmo gesto, lealdade e infidelidade. Numa cortada brusca e deselegante, Joabe respondeu àquele homem: “Não vou perder tempo assim contigo. E, tomando três dardos, trespassou com eles o coração de Absalão.”[3] Alguém como Joabe não se prestaria a perder tempo com quem não se deixasse manipular. Aquele moço era carta fora do baralho, um idiota inútil.  

Havia a necessidade de tão grande covardia? Não teria sido melhor simplesmente prendê-lo e entrega-lo vivo ao rei?  Porém, Joabe achou que matando a Absalão, estaria zelando pelos mais nobres interesses do reino. Por isso, não se importou com a ferida que abriria no coração de Davi. Não se importou com a dor dilacerante que provocaria em seu amigo. Seus interesses falavam mais alto que seus sentimentos.

Quem diria que o mesmo Joabe que lá trás intercedeu a Davi para que recebesse de volta a seu filho Absalão, agora remetia contra a sua vida. Talvez fosse justamente por isso, por um sentimento de culpa, pois se sentia responsável por haver reintroduzido Absalão em Jerusalém, convencendo seu pai a perdoá-lo. Joabe havia sido seu avalista, daí achar-se no direito de interromper seu motim mesmo que fosse através de um ato covarde como aquele. Possivelmente pensasse que, sendo ele quem abrira aquela ferida no reino de Davi, competia a ele estancá-la, mesmo que fosse por uma atitude tão covarde, matando-o a sangue frio, sem direito de defesa. Seja qual tenha sido o mecanismo usado para driblar sua consciência, o fato é que Joabe foi infiel ao seu rei na medida em que se negou a atender a um pedido seu.

Há quem pense fazer o bem, enquanto faz o mal. Há quem destile ódio em nome de um amor não correspondido. Há quem seja movido por vingança, alegando agir por justiça. Há quem viva uma mentira alegando ser em defesa da verdade. De fato, só precisamos de uma boa justificativa para sermos cruéis. E assim, sacrificamos nossa fidelidade no altar da lealdade. A lealdade visa preservar o interesse do outro, desde que este não se esbarre com o nosso. A fidelidade leva mais em conta o desejo, a vontade expressada, do que meramente o suposto interesse.

Jesus advertiu aos Seus discípulos: “Vem a hora em que qualquer que vos matar julgará prestar um serviço a Deus.”[4]  Poderia haver mal entendido maior que esse? Paulo mesmo admite que perseguia a igreja por causa do zelo que tinha pela lei de Deus.[5] Portanto, Paulo era-Lhe leal, porém, sem ser-Lhe fiel. Não basta estar do lado certo da história, defendendo o belo, o justo e o bom. Nem é suficiente ser zeloso do bem De que adianta fazer o bem sem ser bom? De que vale uma generosidade cruel? De que vale fazer justiça com as próprias mãos, sem ser realmente justo, ser honesto, sem ser íntegro, ser verdadeiro, sem ser sincero?



[1] 2 Samuel 18:11
[2] vv.12-13
[3] v.14
[4] João 16:2
[5] Filipenses 3:6