terça-feira, setembro 19, 2017

38

Ser gay não é uma opção! - As razões biológicas da homossexualidade



Por Hermes C. Fernandes 

Em posts anteriores, abordei o preconceito sofrido pelos homossexuais, e defendi que a igreja deveria acolher respeitosamente a tais indivíduos. Mas a partir deste ponto, quero dar um passo além. Sei dos riscos que corro. Porém, não me vejo em condição de me acovardar ante o sofrimento de tantos por causa de sua orientação sexual. 

Como já tenho alardeado, homofobia é pecado. E quanto à homossexualidade, poderíamos dizer o mesmo? É pecado ser homossexual? O que diz a Bíblia acerca disso? O que dizem as últimas descobertas científicas? Sim, uma questão está intimamente ligada a outra, porque, se for comprovado cientificamente que a orientação sexual tem fatores biológicos, logo, teremos que rever o que tem sido dito acerca da homossexualidade em nossos púlpitos. Como Deus poderia condenar algo sobre o qual o indivíduo não tenha qualquer controle? Se o próprio Deus o criou nessa condição, que culpa lhe restaria? 

Por favor, em nome do amor, peço que leia as próximas linhas, não apenas com a mente aberta, mas, sobretudo, com o coração enternecido. Lembre-se de que poderia ser um filho seu. 

Vamos começar pela ciência. No próximo post, abordarei o tema sob o prisma bíblico. É verdade que ninguém nasce gay? Aquele papo de que não há gene gay procede? Quando alguém resolve sair do armário, ele ou ela se tornaram gay ou simplesmente resolveram assumir sua orientação sexual? Afinal, ser gay é uma opção ou orientação? Sejamos sinceros: alguém em sã consciência optaria por ser alvo de todo tipo de ódio e preconceito? Você consideraria isso uma opção razoável? A menos que, além de homossexual, fosse também masoquista. Se concluirmos que é uma opção, então, ninguém nasce nesta condição. Trata-se de um comportamento aprendido. Simples assim. Logo, Malafaia, Feliciano e Marisa Lobo estariam cobertos de razão. Tudo dependeria do ambiente e/ou da educação recebida. Porém, se concluirmos que é uma orientação, logo, teremos que admitir que se trata de uma condição inata. 

O fato de alguém ter sido violentado quando criança explicaria sua homossexualidade? Será que todo gay foi molestado na infância? E os que por ventura foram violentados, não o teriam sido por já manifestarem trejeitos que acabaram atraindo os predadores? Veja: não se trata de culpá-los pela violência sofrida. Nada justifica esta monstruosidade. O fato é que meninos com trejeitos femininos podem atrair a atenção de pedófilos, tanto como meninas. Pais que têm filhos homossexuais deveriam redobrar sua atenção e orientar seus filhos a evitar contato com pessoas que demonstrassem tal índole. Mas, afinal, o que diz a ciência?

Estudos biológicos indicam que a formação da sexualidade acontece antes mesmo do nascimento. Parte disso se deve aos genes, mas também há fatores que atuam no desenvolvimento do feto. Bem da verdade, não há nada comprovado. Entretanto, as evidências que estão surgindo a cada dia têm potencial para provocar uma revolução no pensamento científico. Se forem comprovadas, podem subverter o entendimento que temos acerca da homossexualidade, fazendo com que deixemos de encará-la como um comportamento antinatural, e, por conseguinte, pecaminoso.

Entre os séculos 19 e 20 a psiquiatria considerava a homossexualidade como um transtorno mental resultantes de uma educação equivocada. Se tal teoria fosse comprovada, então, seria plausível acreditar numa reversão da homossexualidade, bastando que o indivíduo fosse submetido a terapias baseadas em teorias de condicionamento. Em 1973, a Associação Psiquiátrica Americana decidiu tirar de sua lista de distúrbios mentais a atração sexual por pessoas do mesmo sexo. A partir daí, o termo homossexualismo foi substituído por homossexualidade, uma vez que o sufixo “ismo” denotava doença. Em 1991, o neurocientista Simon LeVay afirmou ter encontrado diferenças em cérebros de homens gays e héteros, depois de examinar o hipotálamo, zona cerebral responsável pela sexualidade, e descobrir que a região chamada INAH-3 era entre duas e três vezes menor nos homossexuais. Aquela foi a primeira evidência da origem biológica da homossexualidade. LeVay acreditava que algo acontecia ainda no ambiente intrauterino que afetaria a sexualidade do indivíduo. [1] 

Surge, então, a embaraçosa questão: o que ocorreria para definir a orientação sexual e não apenas seu gênero? Haveria um gene gay? Em 1993, o geneticista Dean Hamer, do Instituto Nacional do Câncer nos Estados Unidos, percebeu que a ocorrência de gays era maior do lado materno das famílias. Sua descoberta chamou sua atenção para o cromossomo X. Com um escâner, Hamer viu que uma região do cromossomo X, chamada de Xq28, era idêntica em muitos irmãos gays. Pode-se dizer que em vez de descobrir um gene gay, ele encontrou uma tira inteira de DNA.[2] A conexão entre a orientação sexual e os genes sugeria que ninguém escolhia ser homossexual, antes, tratava-se de uma condição congênita. Portanto, já não se podia dizer que a homossexualidade seria antinatural. Pelo menos, não à luz das descobertas científicas. 

Não obstante, pesquisas mais recentes dão conta de que a homossexualidade transcende o componente genético. A maior evidência disso é o caso de gêmeos, onde, apesar de serem geneticamente semelhantes, apenas um desenvolve a homossexualidade. Ora, se a causa da homossexualidade fosse estritamente cromossômica, os dois deveriam apresentar a mesma orientação sexual. Todavia, de acordo com os pesquisadores americanos Michael Bailey e Richard Pillard, entre gêmeos bivitelinos, quando um é gay, o outro teria 22% de possibilidade de ser gay. Já entre univitelinos, a probabilidade é maior que o dobro: 52%. Considerando que a taxa entre a população estaria entre 2% e 5%, fica provado a existência de um componente genético na homossexualidade.[3] 

Entretanto, fica igualmente provado que os genes não são a resposta para tudo nesta questão. Segundo o pesquisador Alan Sanders, os estudos com gêmeos sugerem uma estimativa de que até 40% da orientação sexual deva-se à influência genética. E quanto aos outros 60%? Uma possível resposta seria o desenvolvimento biológico do feto no ambiente intrauterino. De acordo com uma das mais promissoras pesquisas neste campo, os hormônios sexuais masculinos (andrógenos) se conectam às partes responsáveis pelos desejos sexuais no cérebro, influenciando seu crescimento, tornando o cérebro mais tipicamente masculino ou feminino. A conexão dependeria das proteínas receptoras de andrógenos. Supondo que cada célula do cérebro fosse uma casa, as proteínas receptoras de andrógenos (AR) funcionariam como o portão que controla a entrada. A quantidade e localização desses portões variam entre homens e mulheres. O hipotálamo masculino tem mais ARs que o feminino, por exemplo. Segundo esta teoria, a homossexualidade nos homens seria causada por portões que restringiriam a entrada de andrógenos nas regiões responsáveis pela sexualidade, produzindo, assim, um cérebro submasculinizado. Já nas mulheres, esses portões facilitariam entradas maiores, produzindo uma estrutura supermasculinizada. Tudo, portanto, seria consequência do número de ARs de cada feto, que possivelmente estaria relacionado à carga genética. Apesar de os cientistas admitirem que se trata de um processo complexo, o fato é que as pistas da ação dos hormônios pré-natais estão por toda a parte, revelando-se até nos aspectos físicos. É importante ressaltar que os hormônios importantes na formatação da orientação sexual não são os que circulam no sangue nos adultos, e cujos níveis são iguais entre héteros e homossexuais, e sim os hormônios que atuaram durante a gestação. 

Fica desacreditada e descartada a hipótese de que o abuso sexual na infância seria a causa da homossexualidade, como também a que sugere que haja mais probabilidade de que haja gays em lares chefiados por mulheres ou entre filhos criados por casais de homossexuais. Dean Hamer conclui que os fatores biológicos (genes e hormônios) seriam responsáveis por mais de 50% da orientação sexual. Os outros quase 50% podem ser atribuídos a fatores psicológicos e sociais. Em outras palavras, a predisposição à homossexualidade vai se manifestar dependendo das experiências de vida da pessoa. Alguns indivíduos aprendem a sublimar, outros simplesmente se abdicam de sua sexualidade por uma causa maior. Estudo feito pelo Instituto Karolinska na Suécia, publicado em 2005, detectou através do escaneamento de atividades cerebrais que homossexuais homens apresentam resposta fisiológica aos feromônios do sexo masculino igual às mulheres heterossexuais, evidenciando claramente um componente biológico na orientação sexual. 

No mesmo ano, os pesquisadores Gleen Wilson e Qazi Rahm publicaram sua conclusão de que a orientação sexual seria determinada por uma combinação de fatores genéticos e atividade hormonal durante a gestação, e que as experiências posteriores na infância, bem como o ambiente familiar, a educação e a escolha pessoal teriam pouca ou nenhuma influência no assunto. [4] De acordo com os autores, homossexuais nascem homossexuais, e a proporção de indivíduos com esta orientação sexual na população mundial parece não variar significativamente. Em 1994, a Associação Americana de Psicologia declarou que a investigação científica sugere que a orientação sexual é determinada muito cedo no ciclo da vida, possivelmente antes mesmo do nascimento. 

Homossexualidade no reino animal 

Se o comportamento homossexual fosse antinatural como defendem alguns, como explicar o fato de ser tão comum no reino animal, envolvendo desde insetos até mamíferos? Pesquisa feita em 1999 pelo biólogo canadense Bruce Bagemihl [5]  revela que o comportamento homossexual já foi observado em cerca de 1500 espécies animais, desde primatas até vermes intestinais, e foi bem documentado em pelo menos 500 delas.[6] Dados atuais indicam que várias formas de comportamento sexual homossexual são encontradas em todo o reino animal.[7] Uma revisão das pesquisas feita em 2009 revelou que este comportamento é um fenômeno quase universal entre as espécies. Bem da verdade, apesar de indivíduos de centenas de espécies manterem relações sexuais com parceiros do mesmo sexo em ocasiões isoladas, poucos fazem disso uma rotina.[8]  Seu interesse pelo sexo oposto continua ao longo da vida. Portanto, não se pode classificá-los de homossexuais na acepção da palavra. 

Somente duas espécies exibem preferência pelo mesmo sexo pelo resto da vida, mesmo havendo parceiros disponíveis do sexo oposto: a espécie humana e o carneiro domesticado. No segundo caso, até 8% dos machos do rebanho preferem outros machos mesmo quando há fêmeas férteis por perto.[9] Em 1994, neurocientistas descobriram que os machos desta espécie tinham cérebro ligeiramente diferente do resto, com um hipotálamo menor, que é a parte que controla a liberação de hormônios sexuais.[10] Isso endossa o já citado estudo do neurocientista Simon LeVay que descrevia uma diferença entre a estrutura cerebral de homens héteros e homossexuais. 

Outro animal considerado um dos mais inteligentes e que mantém relações com indivíduos do mesmo sexo é o golfinho. Em um caso que chamou a atenção de muitos pesquisadores um par de golfinhos machos manteve um relacionamento por dezessete anos. 

Nem os leões, conhecidos como os reis da selva, escapam deste curioso fenômeno. Os leões africanos geralmente mantém haréns de fêmeas e exercem sua liderança através de uma hierarquia patriarcal. Apesar disso, uma porcentagem de leões africanos machos abandonam suas fêmeas para formar seus próprios grupos homossexuais. Os leões são reconhecidamente os felinos com o maior desejo sexual, o que não os impede de desenvolver este tipo de comportamento. Entre as aves, sabe-se que mais de setenta tipos acasalam-se com indivíduos do mesmo sexo, incluindo os fascinantes pinguins. 

O certo é que enquanto a homossexualidade está presente em tantas espécies animais, a homofobia só é verificada na espécie humana, e isso, para vergonha nossa. 

No próximo post falarei sobre a presença gay na igreja evangélica e o que dizem as Escrituras. Peço ao Espírito Santo que ilumine nossa consciência para que compreendamos as angústias sofridas por homossexuais, pelo simples fato de não se aceitarem como são, ou por não serem aceitos pelos que os cercam. Peço que as feridas em seus corações sejam cicatrizadas e a hemorragia em suas almas se estanque por completo. Que se sintam plenamente amados em sua condição. Que se entreguem inteiramente a este amor, de modo que possam viver dignamente, guardados de uma vida promíscua em que sejam tão-somente usados como objetos descartáveis. Que encontrem quem os ame de verdade, sem exigir que se mutilem, tendo sua integridade dissolvida para atender expectativas puramente moralistas. E que assim, vivam para a glória d'Aquele que os criou, enfrentando valentemente todo preconceito raivoso, mesmo aquele impingido em nome da religião.


[1] LeVay S. A difference in hypothalamic structure between heterosexual and homosexual men Science, 1991 
[2] HAMER, Dean H. et al. A linkage between DNA markers on the X chromosome and male sexual orientation. Science, n. 261, 1993, p. 321-327. 
[3] BAILEY, J. Michael, PILLARD, Richard C. A genetic study of male sexual orientation. Archive of General Psychiatry, n. 48, 1991, p. 1089-1097 
[4] WILSON, Gleen, RAHM, Qazi, Born Gay: The Psychobiology of Sex Orientation, London, 2005 
[5] Bruce Bagemihl, Biological Exuberance: Animal Homosexuality and Natural Diversity, St. Martin's Press, 1999. 
[6] Harrold, Max (16 de fevereiro de 1999). Biological Exuberance: Animal Homosexuality and Natural Diversity The Advocate, reprinted in Highbeam Encyclopedia. 
[7] "Same-sex Behavior Seen In Nearly All Animals, Review Finds", Science Daily 
[8] Levay, Simon. Queer Science: The Use and Abuse of Research into Homosexuality. Cambridge, Massachusetts: MIT Press, 1996. 
[9] Levay, Simon. Gay, Straight, and The Reason Why The Science of Sexual Orientation. Cambridge, Massachusetts: Oxford University Press, 2011. 
[10] Roselli, Charles E.; Kay Larkin, John A. Resko, John N. Stellflug and Fred Stormshak. (2004,). "The Volume of a Sexually Dimorphic Nucleus in the Ovine Medial Preoptic Area/Anterior Hypothalamus Varies with Sexual Partner Preference". Journal of Endocrinology, Endocrine Society, Bethesda, MD 145 (2)

quarta-feira, setembro 13, 2017

16

Ubuntu, o legado e a demonização da cultura negra




Por Hermes C. Fernandes

“Enquanto a cor da pele for mais importante que o brilho dos olhos, haverá guerra.” 
Bob Marley

Anos atrás, uma de nossas congregações resolveu fazer uma apresentação na Sede da Reina homenageando a cultura negra. Mulheres vestidas a caráter começaram a dançar ao ritmo dos tambores, bem ao estilo africano. Por ser uma festa, tínhamos a presença de irmãos de muitas igrejas. Nem todos demonstravam o correto discernimento do que ocorria ali. Não demorou muito para que se ouvissem murmurinhos e expressões do tipo "tá amarrado!"[1] Aquilo me deixou tão incomodado, que ao término da apresentação (que incluía um grupo de capoeira), vi-me na obrigação de chamar a atenção dos que murmuravam. 

Por que insistimos em demonizar a cultura africana? Suas danças, música, folclore e tradições são entendidos como expressões malignas. Nossa contradição, todavia, é exposta ao nos referirmos às tradições religiosas nórdicas, celtas, anglo-saxônicas e greco-romanas como mitologia. Quanto preconceito ainda há em nós, quer admitamos ou não.

A única coisa que poupamos da cultura africana é a sua comida, desde que não seja servida por uma baiana de roupa branca e turbante. Recentemente, a comunidade candomblecista ganhou a liminar que proíbe evangélicos de venderem acarajé, uma comida típica da Bahia como "bolinho de Jesus". O acarajé foi tombado como patrimônio cultural brasileiro, e é uma manifestação cultural da culinária baiana que tem sua origem na religiosidade candomblecista como o alimento de Iansã. Quando um patrimônio cultural é tombado, seja material ou imaterial, a ideia é expressar sua importância para a construção de uma identidade cultural dos grupos sociais. O acarajé não é apenas uma comida de oferenda a uma entidade cultuada numa religião de matiz africano, mas um meio de garantir a sobrevivência de famílias que cultivam seus saberes culinários de geração em geração. Quando uma baiana arma seu tabuleiro na rua, sua intenção não é a de fazer oferendas a um orixá, mas tão-somente o de sustentar sua família. Sem contar que uma boa parte destas baianas é negra, pobre e arrimo de seus lares. Não é a alteração do nome da iguaria que vai santificá-la para ser consumida por cristãos evangélicos sem que isso lhes pese na consciência. À luz das Escrituras, o que santifica qualquer alimento é a gratidão com que o consumimos.[2] 

Nunca encontrei uma única passagem bíblica em que Jesus ou os apóstolos se referissem aos espíritos malignos com nomes de divindades dos panteões pagãos. Jamais flagrei os apóstolos expulsando um espírito de Júpiter ou Diana. Então, por que identificamos as divindades cultuadas nos terreiros como demônios? Por que não podemos enxergá-las apenas como seres mitológicos, como fazemos com Zeus, Thor e Hermes?

Responda-me com sinceridade: Você iria ao cinema prestigiar um filme intitulado "Xangô de Ife", onde um personagem negro, portando um machado de dois gumes, vindo de Aruanda, controla os raios e os trovões? Certamente que um filme desses seria execrado por muitos cristãos. Mas, se o filme se chama Thor, deus nórdico dos trovões, a quem se sacrificavam homens, mulheres e crianças, pendurando-os em carvalhos, protagonizado por um louro bonitão de olhos azuis, é assistido sem o menor peso de consciência. Enquanto para Xangô são sacrificados pombos e galinhas de angola, para Thor eram sacrificados seres humanos. 

Que haja espíritos malignos que se aproveitam da superstição para se instalar em certas culturas, não me atrevo a duvidar. Inclusive por trás de muita devoção popular católica e da velada idolatria evangélica. Tais espíritos são ávidos por adoração, e para isso, escondem-se por trás de figuras mitológicas e de crendices de qualquer credo. Tenho a forte impressão de haja demônios ocultos em muitas das práticas evangélicas de hoje em dia, principalmente quando envolvem os chamados "pontos de contato". De acordo com a espiritualidade proposta no evangelho, o culto genuíno é aquele que prescinde de objetos, sejam da devoção afro-brasileira como patuás, banhos mágicos e etc., sejam do espírito judaizante imperante em muitas igrejas como shofar, arcas da aliança, montes sagrados e etc. O culto que agrada a Deus se dá em Espírito e em Verdade,[3] e não em superstições e amuletos.

Proponho que tratemos os elementos de qualquer culto em seu aspecto mitológico, sem, contudo, faltar-lhes o devido respeito. Mas que, em contrapartida, mantenhamos puro o culto que prestamos a Deus, sem nos apropriar indevidamente de qualquer um desses elementos, nem para o mal, nem para o bem. O sincretismo atenta contra a pureza do culto prestado. Isso vale para os cultos judaico, nórdico, indígena e, obviamente, africanos. 

Chega a ser um desrespeito a maneira como algumas igrejas se apropriam indevidamente de elementos pertencentes a outros credos. Um desrespeito à nossa própria fé e à fé alheia. Refiro-me a elementos estritamente cultuais, e não os culturais de modo geral. Não precisamos nos privar da boa música, da comida e de costumes inofensivos que já foram absorvidos pela nossa cultura. O que seria da música popular brasileira sem a contribuição da cultura africana? 

Devemos a ela o nosso samba, a bossa nova, o axé, e tantos outros ritmos que embalam nossas festas e enchem nossos corações de alegria. Aliás, a maior parte da música do ocidente tem os dois pés no continente africano: o blues, o rhythm and blues, o jazz, o rock’n roll, o rap, o funk, o soul e o gospel.

Viva a cultura negra! Muito de sua mitologia encerra importantes arquétipos que revelam a natureza humana em toda a sua ambiguidade. Não os reconhecemos como deuses, mas também não os chamamos de demônios. Demônios são os que se escondem por trás de todo engano, ódio e preconceito, ainda que para isso se façam passar até por Jesus Cristo.

Ubuntu

Ubuntu [4] é uma filosofia de origem africana que expressa a consciência da relação entre o indivíduo e a comunidade. Trata-se de um conceito amplo sobre a essência do ser humano e a maneira como deve se comportar em sociedade. Este conceito foi uma importante ferramenta na luta contra o regime Apartheid na África do Sul. Nelson Mandela inspirou-se nele para conduzir a política de reconciliação nacional, que uniu várias etnias em torno de um projeto que visava transformar aquele país num exemplo de superação de conflitos étnicos. De acordo com o manifesto do movimento criado por Mandela em 1944, “o africano quer o universo como um todo orgânico que tende à harmonia e no qual as partes individuais existem somente como aspectos da unidade universal.”[5]

De acordo com o arcebispo anglicano Desmond Tutu, autor de uma teologia ubuntu “a minha humanidade está inextricavelmente ligada à sua humanidade.”[6] Em seu livro "No Future Without Forgiveness" (em português: "Sem perdão não há futuro"), Tutu explica: “Uma pessoa com Ubuntu está aberta e disponível para as outras, apoia as outras, não se sente ameaçada quando outras pessoas são capazes e boas, com base em uma autoconfiança que vem do conhecimento de que ele ou ela pertence a algo maior que é diminuído quando outras pessoas são humilhadas ou diminuídas, quando são torturadas ou oprimidas.”[7] Tudo isso, porque, “uma pessoa é uma pessoa por intermédio de outras pessoas”[8]. O ser humano solitário é uma contradição. Diferente da lógica cartesiana que tem conduzido o Ocidente por séculos, em vez de “penso, logo existo”, a filosofia africana Ubuntu diz: “Existo porque pertenço.” Ubuntu, portanto, implica compaixão, comunhão e abertura de espírito ao outro, opondo-se ao narcisismo e ao individualismo tão predominante nas sociedades ocidentais.

A educadora sul-africana Dalene Swanson, professora da University of British Columbia, em Vancouver, Canadá, fala o seguinte a respeito do ubuntu:
“Diferentemente da filosofia ocidental derivada do racionalismo iluminista, o ubuntu não coloca o indivíduo no centro de uma concepção do ser humano. Este é todo o sentido do ubuntu e do humanismo africano. A pessoa só é humana por meio de sua pertença a um coletivo humano; a humanidade de uma pessoa é definida por meio de sua humanidade para com os outros: (…) o valor de sua humanidade está diretamente relacionado à forma como ela apoia ativamente a humanidade e a dignidade dos outros; a humanidade de uma pessoa é definida por seu compromisso ético com sua irmã e seu irmão.”[9] 
Há uma história que circula na internet atribuída a filosofa e jornalista Lia Diskin, que teria sido contada durante o Festival Mundial da Paz ocorrido em Florianópolis em 2006, e que exemplifica eloquentemente o sentido da filosofia Ubuntu:
“Um antropólogo estava estudando os usos e costumes da tribo e, quando terminou seu trabalho, teve que esperar pelo transporte que o levaria até o aeroporto de volta pra casa. Como tinha muito tempo ainda até o embarque, ele então propôs uma brincadeira para as crianças, que achou ser inofensiva. Comprou uma porção de doces e guloseimas na cidade, botou tudo num cesto bem bonito com laço de fita e tudo e colocou debaixo de uma árvore. Aí, ele chamou as crianças e combinou que quando ele dissesse "já!", elas deveriam sair correndo até o cesto e a que chegasse primeiro ganharia todos os doces que estavam lá dentro. As crianças se posicionaram na linha demarcatória que ele desenhou no chão e esperaram pelo sinal combinado. Quando ele disse "Já!", imediatamente, todas as crianças se deram as mãos e saíram correndo em direção à árvore. Chegando lá, começaram a distribuir os doces entre si e os comerem felizes. O antropólogo foi ao encontro delas e perguntou por que elas tinham ido todas juntas, se uma só poderia ficar com tudo que havia no cesto e, assim, ganhar muito mais doces. Elas simplesmente responderam: "Ubuntu, tio. Como uma de nós poderia ficar feliz se todas as outras estivessem tristes?" Ele ficou pasmo. Meses e meses trabalhando nisso, estudando a tribo e ainda não havia compreendido, de verdade, a essência daquele povo...” 
Como é difícil para alguém acostumado ao espírito competitivo que rege as culturas consideradas mais avançadas do mundo, pelo menos do ponto de vista econômico, entender este tipo de comportamento baseado na cooperação, em que ninguém precisa perder para que outro ganhe. Segundo o espírito de Ubuntu, as pessoas não devem buscar levar vantagem pessoal em detrimento do bem-estar do grupo. A felicidade de um não pode custar a infelicidade dos demais. Para que uma pessoa seja plenamente feliz será preciso que todas do grupo se sintam igualmente felizes. E não é isso que dizem as Escrituras? O apóstolo João afirma que nossa alegria só será completa num ambiente de comunhão, onde a alegria de um completa a alegria do outro.[10] Ninguém é feliz sozinho. Por isso, Paulo não se incomodou em suplicar: “Completem a minha alegria, tendo o mesmo sentimento, o mesmo amor, um só espírito e uma só atitude.”[11] 

Estamos conectados uns com os outros e essa relação estende-se aos que vieram antes de nós e aos que ainda hão de nascer. Fomos convidados por Jesus a tomar assento à mesa do reino de Deus, ao lado de Abraão, Isaque e Jacó e de toda a sua descendência espiritual. Formamos todos uma única família, a família humana, reconciliados com Deus e uns com os outros por meio de Seu Filho Jesus Cristo. Vemos, então, que o legado que recebemos dos povos africanos vai muito além da música, da comida, das crenças, do folclore. Fomos agraciados com conceitos desta envergadura, capazes de demolir estruturas injustas como a do Apartheid.




[1] Bordão típico usado no neopentecostalismo que significa a neutralização de qualquer investida por parte de entidades demoníacas.
[2]Porque toda a criatura de Deus é boa, e não há nada que rejeitar, sendo recebido com ações de graças. Porque pela palavra de Deus e pela oração é santificada” (1 Timóteo 4:4-5).
[3] João 4:24
[4] Ubuntu é uma noção existente nas línguas zulu e xhosa - línguas bantu do grupo ngúni, faladas pelos povos da África Subsaariana.
[5] Nelson Mandela and the Rainbow of Culture, Anders Hallengren, Nobelprize.org, site oficial do Prêmio Nobel.
[6] All you need is ubuntu (28 de setembro de 2006).
[7] TUTU, Desmond. No future without forgiveness, New York: Image Books, 2000.
[8] TUTU, Desmond, Deus não é cristão, Rio de Janeiro: Thomas Nelson, 2012, pg. 41
[9] Fonte: site “Ensinar História” de Joelza Esther Domingues. http://www.ensinarhistoriajoelza.com.br/ubuntu-o-que-a-africa-tem-a-nos-ensinar/
[10] 1 João 1:3-4 – “O que vimos e ouvimos, isso vos anunciamos, para que também tenhais comunhão conosco (...) Estas coisas vos escrevemos, para que a vossa alegria seja completa.”
[11] Filipenses 2:2

quinta-feira, agosto 17, 2017

12

Os paradigmas subversivos do Reino






Por Hermes C. Fernandes

Jesus tem muitos admiradores, porém, poucos discípulos. Tem muitos adoradores, mas poucos seguidores. Muitos chamados, poucos escolhidos. Seguir Jesus é muito mais do que aceitar um dogma, é dispor-se a quebrar paradigmas que vêm formatando nossa civilização por milênios.

Quero destacar aqui três destes paradigmas:

# Comparação 

 # Competição 

 # Concentração

Nossa sociedade está alicerçada sobre este tripé. Ele é, por assim dizer, a trindade comportamental que forma nosso Ego.

Para que o Reino de Deus seja estabelecido entre os homens, há que se fazer uma limpeza no terreno antes de lançar seus fundamentos. Estes paradigmas têm que ser removidos para dar lugar a novos paradigmas, que por sua vez são centrados em Deus e no semelhante, e não no indivíduo em si.

Em lugar da comparação, complementação. Ninguém é melhor ou pior do que o outro. Se Deus desse a todos os mesmos dons e aptidões, tornaríamos como ilhas auto-suficientes. Em vez disso, Deus distribuiu dons da maneira como Lhe aprouve, para que aprendêssemos a depender uns dos outros. Portanto, é perda de tempo ficar fazendo comparações. Se sou melhor em algo, isso não me dá o direito de vangloriar-me. Certamente alguém é muito melhor do que eu em alguma outra coisa. Devemos sim, complementar uns aos outros. Se naquilo em que sou fraco, você é forte, devemos dar os braços e caminhar juntos. Meus dons não me fazem superior àquele que não os recebeu, mas me fazem seu servo. Deus confiou-os a mim para que os usasse em benefício comum. Da mesma maneira, não devo invejar aquele que recebeu o que me falta. Devo enxergá-lo como alguém a quem Deus confiou algo para me complementar.

É da comparação que surge a competição. Queremos provar para todos o quanto somos bons e melhores do que outros. Porém, se nos livrarmos do paradigma da comparação, o paradigma da competição ficará órfão. Se nos complementamos, logo, o lugar da competição será cedido à cooperação. O que somos afetará a maneira como operamos. Somos todos dependentes uns dos outros, e por isso, devemos co-operar, trabalhar em conjunto visando um bem comum.

E quanto ao fruto deste trabalho? Numa sociedade competitiva, o fruto deve ser concentrado nas mãos de quem produz. Mas em uma sociedade cooperativa, o paradigma da distribuição dos frutos deixa de ser a concentração para ser a comunhão. Foi isso que a igreja primitiva experimentou. Todos tinham tudo em comum.

Não cabe ao Estado distribuir igualmente os bens entre seus cidadãos. É a consciência transformada pela graça que deve levar os cidadãos do reino a reconhecerem que tudo quanto Deus lhes proporcionou deve ser partilhado com os demais. Se não derrubarmos antes os paradigmas da comparação e da competição, jamais nos disporemos a abrir mão do ‘sagrado’ direito de concentrar bens. Por isso a sociedade é tão injusta. Seus alicerces estão carcomidos pelo egoísmo humano.

Comunhão não é algo que se impõe, nem por autoridades eclesiásticas, nem por autoridades civis. Os crentes primitivos só se dispunham a compartilhar seus bens entre a comunidade porque “era um o coração e alma da multidão dos que criam” (At.4:32a). Portanto, não havia lugar para competitividade ou mesmo para comparações.

Quando estes sentimentos começaram a brotar, Paulo, o apóstolo, os combateu com veemência, chegando mesmo a implorar para que não permitissem que eles comprometessem a unidade original dos crentes (1 Co.1:10). Dirigindo-se aos coríntios, Paulo os acusa de serem carnais, e justifica: “Pois havendo entre vós inveja e contendas, não sois carnais, e não andais segundo os homens?” (1 Co.3:3). “Inveja” e “contendas” nada mais são do que os velhos paradigmas que têm guiado a humanidade por longas eras. Só há inveja onde haja comparação (A grama do vizinho sempre parece mais ver que a nossa). Só há contendas onde haja competição (Vamos tirar a prova e ver quem é melhor, ou quem tem a razão!).

Em posse de novos paradigmas, Paulo detona aquela fortaleza espiritual que insistia em manter-se de pé entre os cristãos de Corinto:
“Afinal de contas, quem é Paulo, e quem é Apolo, senão ministros pelos quais crestes, e isto conforme o que o Senhor deu a cada um? Eu plantei, Apolo regou, mas Deus deu o crescimento. Pelo que, nem o que planta é alguma coisa, nem o que rega, mas Deus, que dá o crescimento. Ora, o que planta e o que rega são um, e cada um receberá o seu galardão segundo o seu trabalho. Pois somos cooperadores de Deus; vós sois lavoura de Deus e edifício de Deus.” 1 Coríntios 3:5-9
Quanta sensibilidade há neste texto paulino! Quanta humildade. Paulo deixa claro que não estava numa disputa com Apolo pela primazia daquela igreja. Eles não eram rivais, mas cooperadores. Em vez de inveja, o que havia era reconhecimento à importância do outro. Em vez de contendas, trabalho conjunto.

Infelizmente, parece que a igreja ainda não conseguiu virar esta página, e vem recapitulando o mesmo erro dos coríntios por séculos. Urge levantar-se uma nova geração de cristãos comprometidos com os paradigmas do reino, que desprezem a feira de vaidades em que se tornaram nossos ajuntamentos, e encarnem o modus vivendi de seu Mestre, Salvador e Rei.

domingo, agosto 13, 2017

9

Por que há deficientes?



Por Hermes C. Fernandes

Sou pai de uma linda menina portadora de necessidades especiais. Rayane, hoje com vinte e quatro anos, sofreu uma lesão cerebral ocasionada pela falta de oxigenação na hora do parto, afetando tanto a fala, quanto o desenvolvimento motor e cognitivo. Graças à uma intervenção divina, ela veio andar aos seis anos, contrariando o prognóstico médico. Sinto-me privilegiado por ter sido escolhido por Deus para ser pai deste ser maravilhoso que tanto me tem ensinado acerca do amor e da força de vontade em superar limites. Definitivamente, eu não seria o mesmo sem Rayane.

Pesquisando pela internet, percebo quão raro é encontrar literatura cristã tratando do assunto. Seria este um tabu entre os cristãos? Quantas mensagens já ouvimos sobre o tema em nossos púlpitos? Por que outras tradições religiosas como o espiritismo kardecista se debruçam sobre ele sem qualquer recato, enquanto as igrejas preferem varrê-lo para debaixo do tapete?

Pior do que ignorar é oferecer respostas carregadas de preconceitos e pressupostos simplistas. Enquanto uns preferem espiritualizar a questão, atribuindo qualquer deficiência à atuação demoníaca, outros preferem fazer uma leitura moralista, como se o portador de necessidades especiais fosse um castigo divino aos erros de seus progenitores.

O que as Escrituras têm a nos dizer?

Começando pelo Antigo Testamento, a primeira coisa que percebemos são as restrições à participação dos deficientes físicos ou mentais em atividades sacerdotais. Para alguns, fica a impressão de que o Deus dos hebreus não tem qualquer apreço por estas criaturinhas indefesas. Veja, por exemplo, o que diz Levítico 21:16-24:
“Falou mais o Senhor a Moisés, dizendo: Fala a Arão, dizendo: Ninguém da tua descendência, nas suas gerações, em que houver algum defeito, se chegará a oferecer o pão do seu Deus. Pois nenhum homem em quem houver alguma deformidade se chegará; como homem cego, ou coxo, ou de nariz chato, ou de membros demasiadamente compridos, ou homem que tiver quebrado o pé, ou a mão quebrada, ou corcunda, ou anão, ou que tiver defeito no olho, ou sarna, ou impigem, ou que tiver testículo mutilado. Nenhum homem da descendência de Arão, o sacerdote, em quem houver alguma deformidade, se chegará para oferecer as ofertas queimadas do Senhor; defeito nele há; não se chegará para oferecer o pão do seu Deus. Ele comerá do pão do seu Deus, tanto do santíssimo como do santo. Porém até ao véu não entrará, nem se chegará ao altar, porquanto defeito há nele, para que não profane os meus santuários; porque eu sou o Senhor que os santifico. E Moisés falou isto a Arão e a seus filhos, e a todos os filhos de Israel.”
O que será que Deus teria contra esses indivíduos? Por que os proibiu de ser sacerdotes? Seria este um juízo moral?

Alguns exegetas afirmam que a perfeição física exigida aos sumo-sacerdotes apontaria para a perfeição moral de Cristo, o Sumo-Sacerdote da Nova Aliança. Uma vez que, segundo Paulo, a Lei contenha a sombra de uma realidade que só se revelaria sob os auspícios da Nova Aliança, há de se supor que tal interpretação possa estar correta. Porém, não encerra toda a verdade.

Primeiro, devemos ressaltar que estas regras só se aplicavam ao cargo de Sumo Sacerdote. Somente o ele poderia atravessar o véu e chegar-se ao altar para oferecer o sacrifício. Àquela época, ninguém se tornava sacerdote por escolha própria. Apenas os descendentes de sacerdotes podiam exercer o sagrado ofício. Portanto, independente de sua condição física, um descendente de Arão era alçado à posição sacerdotal. Todavia, se possuísse qualquer deficiência física ou mental, não poderia ser um Sumo Sacerdote. Um anão, por exemplo, não conseguiria abater um animal oferecido em sacrifício, nem tampouco alcançaria as hastes da Menorah que media mais de três metros de altura para acender as luzes do lugar santo, atividades que ele deveria exercer sem apelar para ajuda de ninguém. Imagine agora um sacerdote coxo tendo que ficar de pé entre sete e catorze horas encabeçando o ritual de abatimento de animais. E como um cego poderia identificar as veias certas do animal a ser degolado, evitando um sofrimento desnecessário? Como alguém com defasagem intelectual poderia julgar os delitos cometidos pelas pessoas?

Portanto, tais regras não visavam excluir os portadores de deficiência, mas poupá-los de um trabalho para o qual não estavam habilitados devido à sua condição.

Ninguém, em sã consciência, confiaria a um cego a direção de um carro. Porém, isso jamais deveria ser pretexto para que subestimássemos a capacidade dos portadores de necessidades especiais. Se não podem exercer uma ou outra atividade, certamente são plenamente capazes de tantas outras. Alguns chegam mesmo a nos surpreender, desenvolvendo habilidades notáveis.

Permita-me usar os termos “deficientes” e “portadores de necessidades especiais” de maneira intercambiável, sem qualquer juízo de valor e sem me preocupar em ser politicamente correto. Minha preocupação é de ser compreendido. Por isso, vou evitar termos técnicos e conceitos desconhecidos pelo senso comum. 

Em todas as sociedades, tais indivíduos sempre foram alvo de preconceito. Em algumas delas, como a grega, apesar de seu avanço no campo da filosofia e das artes, os deficientes eram descartados assim que nasciam, por serem considerados um peso extra. Se não pudessem lutar pela cidade numa eventual invasão inimiga, logo, não tinham o direito de viver.

Basta uma olhada mais atenciosa no Antigo Testamento para verificar que, graças às instruções contidas na lei, o povo hebreu experimentou um avanço na compreensão da dignidade que deveria ser atribuída ao deficiente. O respeito com que deveriam tratar os deficientes revelaria o grau de temor e reverência que tinham para com Deus. Repare a ênfase do mandamento:
“Não amaldiçoes o surdo, nem ponhas tropeço diante do cego, mas temerás o teu Deus. Eu sou o Senhor.” Levítico 19:14
Era como se Deus dissesse: Quem mexer com eles vai se ver comigo! Ainda que o surdo jamais ouça os xingamentos e maldições lançados sobre ele, nem o cego veja o tropeço posto em seu caminho, Deus toma tais ofensas como se dirigidas a Ele próprio. Como todo mandamento, há sanções aplicadas àqueles que desrespeitam o deficiente: “Maldito quem desviar o cego do seu caminho” (Dt.27:18).

É característica do justo o tratar bem o portador de necessidades especiais. Por isso, Jó declara, ao relembrar de seus tempos áureos, que costumava ser “os olhos do cego e os pés do coxo” (Jó 29:15), o que evidenciava a pureza de seu caráter.

Apesar dos avanços patrocinados pela lei entregue por Deus a Moisés, ainda restava um ranço de preconceito contra os deficientes entre os hebreus. Prova disso é o injustificável ódio que Davi nutria contra esses indivíduos durante uma fase de sua vida. Tente não sentir-se constrangido diante do relato abaixo:
“Em Hebrom reinou sobre Judá sete anos e seis meses, e em Jerusalém reinou trinta e três anos sobre todo o Israel e Judá. E partiu o rei com os seus homens a Jerusalém, contra os jebuseus que habitavam naquela terra; e falaram a Davi, dizendo: Não entrarás aqui, pois os cegos e os coxos te repelirão, querendo dizer: Não entrará Davi aqui. Porém Davi tomou a fortaleza de Sião; esta é a cidade de Davi. Porque Davi disse naquele dia: Qualquer que ferir aos jebuseus, suba ao canal e fira aos coxos e aos cegos, a quem a alma de Davi odeia. Por isso se diz: Nem cego nem coxo entrará nesta casa.” 2 Samuel 5:5-8
Como alguém dotado de sensibilidade ímpar como Davi seria capaz de odiar indivíduos indefesos? Que bom que, como todo ser humano, Davi teve a oportunidade de rever sua postura extremamente preconceituosa.  Tanto que ao tomar conhecimento da existência de um filho deficiente de seu saudoso amigo Jônatas, mandou buscá-lo em casa e o constituiu príncipe em seu reino. Davi sustentou a Mefibosete até o fim de sua vida, mesmo sendo neto de seu arquirrival Saul (2 Sm.9:13).

Davi jamais poderia imaginar que séculos depois, um deficiente visual que mendigava à margem da estrada foi o primeiro a enxergar o que ninguém parecia ter notado: Aquele jovem galileu que arrastava multidões por onde andava era ninguém menos que o Descendente prometido por Deus a Davi e que assumiria seu trono para sempre.

É um consolo ler que as Escrituras buscam resgatar o valor do deficiente. Porém, isso não responde a mais das intrigantes perguntas: por que existem deficientes?

Esta pergunta também intrigava os discípulos de Jesus. O que os levou a perguntar a razão pela qual um homem era cego desde que nascera. Ecoando crenças difundidas entre os judeus, indagaram a Jesus se sua cegueira teria sido causada por seus próprios pecados ou pelos pecados cometidos por seus pais. Sem titubeios, Jesus lhes respondeu: “Nem ele pecou nem seus pais; mas foi assim para que se manifestem nele as obras de Deus” (Jo.9:3).

A crença articulada pelos discípulos atribuía qualquer deficiência física ou mental congênita ao pecado,  quer por parte do próprio portador (talvez numa vida anterior), ou por parte dos seus progenitores (neste caso, a deficiência seria uma espécie de maldição hereditária). Jesus desfere um golpe neste tipo de raciocínio raso e perverso. A graça por Ele revelada subverte a lógica do carma.

Em vez de um juízo moral, Jesus prefere enxergar naquela deficiência a oportunidade para a manifestação das obras de Deus.

Ora, que “obras” Deus poderia manifestar ao mundo através desses indivíduos? Nesse caso em particular, Jesus restaurou-lhe a visão.  Será que tais obras se limitariam à realização de milagres? Caso seja, então, por que nem todos os cegos são curados? Por que a maioria dos deficientes segue em sua débil condição mesmo depois de conhecer o amor de Cristo revelado no Evangelho?

São questões inquietantes, responsáveis pela postura equivocada adotada por muitas igrejas. Se o milagre não acontece, logo, conclui-se que a glória de Deus não se manifestou, restando-lhe uma alternativa: atribuir aquela condição à falta de fé do indivíduo ou daquele que intercedeu. Para eles, a glória de Deus só se manifesta se o paralítico saltar da cadeira de rodas e sair andando, se o mudo soltar a língua e falar, se o surdo ouvir perfeitamente e o cego puder descrever a aparência do pregador. É lamentável ver quantos destes deficientes já foram vítimas de todo tipo de sensacionalismo por parte dos que se apresentam ao mundo como a solução de todos os problemas.

Recentemente deparei-me com um anúncio publicado no facebook em que um autodenominado apóstolo se apresenta como ex-síndrome de down, que teria ido ao inferno sete vezes e morrido cinco vezes. Como se não bastasse, o sujeito cobra uma considerável quantia em dinheiro para assistir às suas palestras e receber sua oração. É este tipo de coisa que atenta contra a credibilidade da igreja atual. Quanta esperança falsa está sendo alimentada no coração dos incautos. Espero que da próxima vez que ele for ao inferno, ele fique por lá. Mas parece que nem o diabo caiu no seu conto e resolveu devolvê-lo com casca e tudo. Perdoem-me o sarcasmo. Mas só assim para aturar este tipo de coisa sem dizer impropérios. Ele deveria estar na cadeia.

Que Jesus segue curando, não tenho a menor dúvida. Minha filha é uma prova disso. Desenganada pela medicina, ela passou a andar em pleno culto dominical, sem que ninguém mandasse. Porém, ela não deixou de ser portadora de necessidades especiais.  Se quiser saber com detalhes, assista ao vídeo em que relato o testemunho de como conheci a graça de Deus através da minha filha. O vídeo está disponível em meu canal do youtube e na lateral do meu blog.

Todavia, as obras de Deus não se manifestam nestes indivíduos apenas através de um eventual milagre.

Vejamos, por exemplo, o caso de Mefibosete. Este era paraplégico. Não de nascença, mas por causa de uma queda sofrida quando ainda era um bebê. Que “obra” Deus manifestou ao mundo através dele? Que milagre o Senhor teria feito? Nele, nenhum. Pelo menos, não um milagre físico e aparente. Mas através dele, Deus operou um grande milagre no coração de Davi. Como vimos algumas linhas acima, Davi odiava “cegos e coxos”. Para que pudesse ser, de fato, um homem segundo o coração de Deus, Davi teria que aprender a amar o que Deus ama, sem jamais desprezar o que Deus não despreza.  Convidar a Mefibosete para que ocupasse lugar de honra em seu reino foi um enorme salto na vida de Davi. Ouso dizer que o preconceito que teve que vencer em si mesmo foi um gigante muito maior do que Golias.

Portanto, concluo que os portadores de deficiência são canais através dos quais a graça de Deus nos é ministrada. A maneira como lidam com suas limitações nos enternece o coração e nos desafia a enfrentar nossos próprios limites.

Vejamos, ainda, o caso de Moisés.
“Então disse Moisés ao SENHOR: Ah, meu Senhor! eu não sou homem eloquente, nem de ontem nem de anteontem, nem ainda desde que tens falado ao teu servo; porque sou pesado de boca e pesado de língua. E disse-lhe o SENHOR: Quem fez a boca do homem? ou quem fez o mudo, ou o surdo, ou o que vê, ou o cego? Não sou eu, o SENHOR? Vai, pois, agora, e eu serei com a tua boca e te ensinarei o que hás de falar.” Êxodo 4:10-12
Já ouvi argumentos afirmando que Deus não seria responsável pelo nascimento de pessoas especiais. Porém, nesta passagem, Deus toma para Si a responsabilidade. Foi Ele quem as criou, e as fez com um propósito.

Não sabemos ao certo qual seria a deficiência de Moisés. Cogita-se que ele fosse gago. Ainda assim não sabemos se sua “gagueira” teria origem emocional ou neurológica. Mas Deus o envia ao homem mais poderoso da Terra, a fim de confrontá-lo e libertar Seu povo da escravidão.

Ele faz uso de pessoas com deficiência, seja física ou mental, para dar exemplo de vida para quem aparentemente é saudável (Leia 1 Co.1:25-29). Quantos exemplos de pessoas que mudaram radicalmente sua postura, depois de ver ou ouvir testemunhos de superação de pessoas com algum tipo de deficiência. Emocionamo-nos quando percebemos o legado de pessoas como Stephen Hawking, o famoso físico que do alto de sua cadeira de rodas ocupa a cátedra que um dia foi ocupada por ninguém menos que Isaac Newton. Emocionamo-nos quando tomamos ciência de que algumas das mais lindas sinfonias foram compostas por um deficiente auditivo. Refiro-me a ninguém menos que Ludwig Van Beethoven.

A pior deficiência não é a de ordem física ou mental, mas a de caráter que se manifesta principalmente através do preconceito.

Consola-nos saber que tais deficiências não se constituem numa sentença irrevogável.  Nossas limitações, sejam quais forem, são temporárias. Paulo diz em 1 Coríntios 15:53 que “é necessário que isto que é corruptível se revista da incorruptibilidade e que isto que é mortal se revista da imortalidade.” Um dia, quando Cristo despontar no horizonte celeste, os deficientes serão plenamente restaurados. “Então os olhos dos cegos serão abertos, e os ouvidos dos surdos se abrirão. Então os coxos saltarão como cervos, e a língua dos mudos cantará; porque águas arrebentarão no deserto e ribeiros no ermo. E a terra seca se tornará em lagos, e a terra sedenta em mananciais de águas; e nas habitações em que jaziam os chacais haverá erva com canas e juncos. E ali haverá uma estrada, um caminho, que se chamará o caminho santo; o imundo não passará por ele, mas será para aqueles; os caminhantes, até mesmo os loucos, não errarão” (Isaías 35:5-8).

Enquanto não chega este dia, convém-nos lutar pelos direitos da pessoa portadora de qualquer deficiência, sem subestimar seu potencial de superação, mas também respeitando suas limitações sem jamais nos esquecer de nossas próprias. 

Se você tem um destes seres especiais em sua casa, sinta-se um privilegiado. Deus só dá pessoas especiais para famílias especiais. Trate-os, não apenas como portadores de necessidades especiais, mas como portadores de uma mensagem do céu para você, sua família e toda a humanidade. 

segunda-feira, agosto 07, 2017

10

Para a bancada evangélica, Deus trocou de lado!




Por Hermes C. Fernandes

A julgar pela alegação dos deputados que votaram a favor de Temer, Deus trocou de lado. Ele que sempre esteve ao lado dos oprimidos e injustiçados, agora cerrou fileira com o que há de mais vil na classe dominante do país. Ao serem questionados por jornalistas por terem votado contra a investigação que poderia provocar o afastamento de Temer, os parlamentares responderam em uníssono que foram guiados por Deus. Resta saber a que deus estariam se referindo. Certamente, não o Deus dos profetas hebreus, tampouco o revelado nas palavras de Jesus ecoadas pelas praias da Galileia. Se o seu livro de cabeceira fosse, de fato, a Bíblia Sagrada em vez de "O Príncipe" de Maquiavel, eles teriam lido pérolas como esta: 
"Até quando defendereis os injustos e tomareis partido ao lado dos ímpios? Defendei a causa do fraco e do órfão; protegei os direitos do pobre e do oprimido. Livrai o fraco e o necessitado; tirai-os das mãos dos ímpios" (Salmos 82:2-4). 
Se mesmo assim se mantivessem em suas veredas tortuosas, talvez acusassem o profeta Isaías de esquerdopata ao se depararem com mais esta pérola: 
"Ai dos que decretam leis injustas, e dos escrivãs que escrevem perversidades, para privar da justiça os pobres, e para arrebatar o direito dos aflitos do meu povo, despojando as viúvas e roubando os órfãos" (Isaías 10:1-2).
De duas, uma. Ou Deus mudou de lado, traindo Sua própria Palavra, ou esses nobres deputados não entenderam o sentido real do Evangelho. Fico com a segunda hipótese.

Para os tais que traem sua fé em nome da conveniência e dos mais escusos interesses, deixo a célebre advertência profética: 
"Ai dos que ao mal chamam bem, e ao bem mal; que fazem da escuridade luz, e da luz escuridade, que põem o amargo por doce, e o doce por amargo (...) que absolvem o ímpio por suborno e ao justo negam justiça" (Isaías 5:20,23).
Coloquem suas barbas de molho! Fujam para as montanhas! Em breve o juízo de Deus os alcançará! Não esperem que caia fogo do céu para consumi-los. Vocês já se queimaram por si mesmos. Nem o diabo seria tão competente. O verme da hipocrisia consumirá suas entranhas como fizeram com Herodes. Suas mazelas serão expostas à luz do dia e os mesmos que os elegeram hão de abominá-los e exorcizá-los da vida pública. Queira Deus...

E jamais se esqueçam de que de acordo com o livro de Apocalipse, entre os que ficarão de fora da nova civilização idealizada por Deus estarão os que amam e praticam a mentira (Apocalipse 22:15). Portanto, FORA TEMER!


quarta-feira, agosto 02, 2017

2

Pergunta idiota, tolerância zero!



Por Hermes C. Fernandes

O mesmo Jesus que tratava cordialmente àqueles que eram considerados os párias da sociedade, revelava-se diametralmente enérgico no trato dispensado aos religiosos de sua época. Basta uma conferida nos adjetivos nada amistosos que usava em referência a eles. O preferido deles era, sem dúvida, “hipócritas”

Entre as principais facções religiosas da época, duas se destacavam por sua rivalidade: os fariseus e os saduceus. Os fariseus eram a ala conservadora, fundamentalista, enquanto os saduceus eram a ala progressista, liberal. Jesus não se alinhava ideologicamente com nem uma das duas. Se alguém perguntasse de que lado estava, Jesus certamente responderia mais ou menos como respondeu aos discípulos enviados por João Batista para testá-lo: “Aos pobres é pregado o reino de Deus.” 

Mateus relata um episódio em que os saduceus se aproximaram d’Ele para suscitar uma discussão acerca da ressurreição (Mt.22:23-46). Em vez de irem direto ao ponto, preferiam apelar a uma pergunta capciosa. 
“Mestre, Moisés disse: Se morrer alguém, não tendo filhos, casará o seu irmão com a mulher dele, e suscitará descendência a seu irmão. Ora, houve entre nós sete irmãos; e o primeiro, tendo casado, morreu e, não tendo descendência, deixou sua mulher a seu irmão. Da mesma sorte o segundo, e o terceiro, até ao sétimo; por fim, depois de todos, morreu também a mulher. Portanto, na ressurreição, de qual dos sete será a mulher, visto que todos a possuíram?” 
Parece que ouço o cochichar de alguns deles: Quero ver se ele vai se sair dessa!  Sem papas na língua, Jesus respondeu: “Errais, não conhecendo as Escrituras, nem o poder de Deus. Porque na ressurreição nem casam nem são dados em casamento; mas serão como os anjos de Deus no céu. E, acerca da ressurreição dos mortos, não tendes lido o que Deus vos declarou, dizendo: Eu sou o Deus de Abraão, o Deus de Isaque, e o Deus de Jacó? Ora, Deus não é Deus dos mortos, mas dos vivos.” 

Pergunta idiota, tolerância zero! Não basta conhecer as Escrituras e continuar subestimando o poder de Deus. Nem basta considerar o poder de Deus, ignorando o que dizem as Escrituras, tanto em suas linhas, quanto em suas entrelinhas. As Escrituras visam revelar a vontade geral de Deus, mas não podemos supor que Ele seja refém das mesmas. Ele segue agindo com absoluta soberania e autonomia, sem ter que dar satisfação a quem quer que seja. Portanto, não perca seu tempo buscando enredá-lo com seu parco e modesto conhecimento bíblico. 

O problema não são as Escrituras em si, mas nossa compreensão prejudicada por nossos pressupostos e preconceitos. Na resposta dada por Jesus aos saduceus, fica claro que certas instituições que vigoram desde a criação, perderão sua validade quando adentrarmos os portais eternos. Ninguém vai levar certidão de casamento para o céu! Todavia, laços terrenos serão substituídos por laços eternos. 

As multidões ficaram maravilhadas com a resposta de Jesus. Quando os fariseus viram que Jesus calou os saduceus, seus arquirrivais, reuniram-se imediatamente. Posso imaginar o papo entre eles: Viram o que Ele fez com os saduceus? Será que Ele é dos nossos? Se não é, que tal trazê-lo para o nosso lado? 

Ao vê-los reunidos como abutres sobrevoando a carniça, Jesus se aproximou e perguntou-lhes: “Que pensais vós do Cristo? De quem é filho?” Eles responderam unânimes: “De Davi!” 

Bingo! A resposta estava... exata! Pronto. Já podiam ser recrutados como discípulos. Ou será que não? Será que basta ter as respostas certas? Basta ter uma teologia correta? Basta seguir a ortodoxia? Basta repetir feito papagaio o que dizem os compêndios teológicos? Se Jesus houvesse escolhido um lado, teria optado pelo o que tinha a melhor teologia? 

Quando eles esperavam um tapinha nas costas, Jesus se vira e diz: “Como é então que Davi, em espírito, lhe chama Senhor, dizendo: Disse o Senhor ao meu Senhor: Assenta-te à minha direita, até que eu ponha os teus inimigos por escabelo de teus pés? Se Davi, pois, lhe chama Senhor, como é seu filho?” 

Os saduceus devem ter comemorado. Pau que dá em saduceu, também dá em fariseu. A questão levantada por Jesus tinha como objetivo mostrar que as coisas não são tão simples como parecem. Nem tudo é preto no branco. Cada questão tem sua complexidade, apesar de nem sempre atentarmos para isso. A partir daí, ninguém mais se atrevia a fazer qualquer pergunta. Em vez disso, começaram a tramar contra Sua vida. 

A propósito, Jesus jamais se sentiu ofendido por alguém expor suas dúvidas e questionamentos. O problema era quando as perguntas tinham como objetivo expor uma suposta contradição a fim de ridicularizá-lo e minar Sua credibilidade.

Numa das mais calorosas discussões que tivera com os fariseus (Jo. 8:39-49), estes apelaram à sua ancestralidade: “Nosso pai é Abraão!” Sem se intimidar, Jesus respondeu: “Se fôsseis filhos de Abraão, faríeis as obras de Abraão. Mas agora procurais matar-me (...) Vós tendes por pai ao diabo, e quereis satisfazer os desejos de vosso pai. Ele foi homicida desde o princípio, e não se firmou na verdade, porque não há verdade nele. Quando ele profere mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso, e pai da mentira.” A chapa esquentou! Ele jamais usou termos tão fortes no trato dispensado a meretrizes e publicanos. Em outra ocasião, Ele os chamou de “geração adúltera”, expressão próxima a “filhos da p*ta”. Mas daí, chamá-los de “filhos do diabo” já era demais. Ou não? 

Os fariseus não deixaram barato. Devolveram na mesma moeda. “Não dizemos bem que és samaritano, e que tens demônios?” Com estas palavras eles vomitaram todo o preconceito que tinham contra aquela raça mestiça que transitava entre eles: os samaritanos. O que haveria de errado em ser samaritano? Absolutamente, nada. Mas o uso que eles fazem do termo denota um preconceito raivoso.  Nos artigos anteriores, exploro mais este tema. Por favor, não deixe de lê-los. 

Jesus respondeu: “Eu não tenho demônio, antes honro a meu Pai, e vós me desonrais.” Repare, apesar de não ser samaritano, Ele não os desmente, mas, apenas afirma não estar endemoninhado. Se dissesse que não era samaritano, poderia parecer que estivesse endossando aquele preconceito idiota.

De onde tiraram a ideia de que Jesus fosse samaritano? Não foi Ele mesmo que destacou a gratidão do samaritano que fora curado de sua lepra, enquanto os outros nove, que eram judeus, nem sequer voltaram? Não foi também Ele que foi flagrado conversando despudoradamente com uma samaritana de moral duvidosa à beira de um poço? Não foi Ele que impediu que dois de Seus discípulos rogassem a Deus para que enviasse fogo do céu para consumir toda uma aldeia samaritana? E por que içou um samaritano ao papel de protagonista de uma de Suas principais parábolas? Agora, chegara a fatura e Ele teria que pagar. Quem mandou demonstrar compaixão por aquela gente detestada por Seus patrícios? Talvez seja por isso que muitos preferem manter distância de certas questões. Temem ser estigmatizados por defender causas consideradas abomináveis tanto para os fariseus conservadores, quanto para os saduceus liberais. Enquanto isso, Jesus vai tomando sobre Si as nossas dores, sem importar-Se com o estigma que terá que carregar. Muito mais importante do que a reputação é a compaixão que demonstramos para com aqueles com os quais não possuímos qualquer identificação. O resto... que se dane! Da próxima vez que me perguntarem de que lado estou, terei o prazer de responder: Estou do lado daqueles de quem Jesus certamente estaria.

Continua em breve.

terça-feira, agosto 01, 2017

3

O lugar do excluído na Agenda de Deus



Por Hermes C. Fernandes

Ninguém imaginava que aquele era o seu discurso de despedida. Quarenta dias após ter ressuscitado, Jesus se reunia pela última vez com o seus discípulos. Suas instruções finais foram para que não se ausentassem da cidade até que recebessem a capacitação dada pelo Espírito Santo para serem suas testemunhas. Tão logo se cumprisse tal promessa, eles deveriam começar seu ministério por Jerusalém, alcançando em seguida toda a região da Judeia, chegando, então, a Samaria, e, finalmente, aos confins da terra (At.1:8).

De Jerusalém até os confins da terra havia perímetros intermediários, etapas que não poderiam ser queimadas. Parecia sugerir que a lógica de Jesus partia de um perímetro menor para um mais amplo. Porém, a inclusão de Samaria rompia tal lógica. Imagine que Ele dissesse que nossa missão começaria no bairro, passando para a cidade, depois o estado, o país, e, por fim, o mundo inteiro. Ficaria bem mais razoável se Ele dissesse que a missão iniciada em Jerusalém deveria alcançar a Judeia, depois todo o território de Israel, em seguida, o império romano e, então, o restante do mundo. Por que incluir Samaria? O que haveria de especial lá?

Imagino que os discípulos tenham torcido o nariz ao ouvi-lo incluir os samaritanos  na agenda do seu reino. Por séculos, judeus e samaritanos cultivaram uma animosidade recíproca. Quais teriam sido os motivos que geraram tanta hostilidade?

Logo após a morte de Salomão, em cerca de 930 a.C., o reino de Israel se dividiu em dois: o reino do norte e o reino do sul. O reino do norte reunia a maioria das tribos (dez, ao todo) e manteve o nome “Israel”; porém, por haver perdido Jerusalém, que ficava ao sul, elegeu Samaria como sua nova capital. Já o reino do sul tinha seu território partilhado por duas tribos, a de Judá, de onde provinham os reis, e a de Benjamim, além da tribo de Levi, de onde provinham os sacerdotes, e que, por não ter direito às terras, dedicava-se inteiramente ao templo. Apesar de ter a minoria das tribos, tinha a vantagem de manter Jerusalém como capital, bem como o templo erigido em seu território. Devido a esta separação, os habitantes do reino do norte ficaram impossibilitados de cultuar a Deus no santuário em Jerusalém, e tiveram que eleger seu próprio lugar de adoração: o monte Gerizim, de onde Josué havia pronunciado a bênção sobre o povo de Israel. Por conta disso, desenvolveram uma religiosidade distinta. Em Samaria praticou-se bruxaria, adoração a deuses pagãos como Moloque, Baal, entre outros importados das culturas babilônica, cananeia e egípcia. Tudo isso fez com que o abismo entre eles aumentasse cada vez mais. Como se não bastasse o sincretismo que se intensificou quando foram levados cativos para a Assíria no ano 722 a.C., eles acabaram se mesclando com outros povos, tornando-se num povo mestiço (algo inadmissível para os judeus da época). Enquanto isso, os judeus, ao sul, mantiveram-se etnicamente puros e fiéis aos seus costumes. Para os judeus, os samaritanos eram apóstatas, mestiços, de caráter duvidoso, traidores do plano original de Deus, em suma, uma aberração, uma anomalia.

Nos tempos de Jesus, os samaritanos tinham suas próprias aldeias e cidades, sendo severamente hostilizados pelos judeus. Algumas atitudes extremadas começaram a ser tomadas pelos samaritanos no afã de afrontar seus desafetos. A gota d’água se deu quando Jesus tinha por volta de 19 anos. De acordo com Flavio Josefo, historiador judeu, um samaritano fanático invadiu o templo em Jerusalém com ossos humanos e os jogou no santo lugar, num tentativa de profaná-lo. Para se ter uma ideia da gravidade de tal atitude, era como se houvesse sido lançada uma bomba no santuário judeu. Algo bem mais grave do que uma transexual encenando a crucificação de Cristo na parada gay. O ódio gerado por esta atitude foi tão grande que, a partir daí, os rabinos pediam que cada judeu devoto, antes do pôr-do-sol, erguesse as mãos na direção de Samaria e amaldiçoasse os samaritanos em nome do Deus de Abraão. 

Por se sentirem excluídos, os samaritanos pagavam com a mesma moeda. O próprio Jesus, sendo judeu, sentiu na pele esta hostilidade.  Lucas nos relata um episódio em que Jesus manifestou o firme propósito de ir a Jerusalém, mas como a viagem era longa, decidiu pernoitar numa aldeia samaritana. Ele, então, enviou mensageiros para preparar-lhe hospedagem. Quando os samaritanos desconfiaram que Ele e seus discípulos estavam a caminho de Jerusalém, recusaram-se a recebê-los. Dois dos seus discípulos mais chegados, Tiago e João, vendo aquilo, compraram as dores de Jesus e deram-lhe uma inusitada sugestão: Senhor, queres que digamos que desça fogo do céu e os consuma, como Elias também fez?” (Lc.9:51-56).

Repare que eles não tiraram aquilo do nada. Havia um precedente histórico. Ninguém menos que o grande profeta Elias havia agido do mesmo jeito. Também é interessante notar que Elias foi profeta justamente no reino do norte. Portanto, aqueles discípulos achavam que deveriam tratá-los com o mesmo rigor com que Elias os tratara séculos antes. Na opinião deles, só mesmo fogo vindo do céu poderia liquidar de vez com aquela aberração étnica. Para sua surpresa, Jesus não apenas recusou-se a acatar sua sugestão, como também os repreendeu: “Vós não sabeis de que espírito sois. Porque o Filho do homem não veio para destruir as almas dos homens, mas para salvá-las.”

Não queiramos comparar o modus operandi de Jesus com nenhum outro profeta que tenha existido. Se insistirmos nisso, retroalimentaremos o preconceito e o ódio cultivados  por séculos entre os mais diversos segmentos sociais.

Aquele episódio mostrou a Jesus o quão enfermos estavam seus discípulos. O preconceito, seja de que natureza for, nada mais é do que uma enfermidade da alma. Quem não se cura, acaba contagiando a outros. A partir daí, Jesus deflagrou uma discreta, porém, eficiente terapia medicamentosa que visava romper-lhes os seus grilhões.

A primeira dose do remédio foi-lhes ministrada através de uma parábola.

A oportunidade surgiu quando um certo doutor da lei, querendo dar uma saia justa em Jesus, perguntou-lhe: “Mestre, que farei para herdar a vida eterna?” Parecia uma pergunta sincera. Porém, Jesus sabia exatamente aonde ele queria chegar. Ele devolveu-lhe a pergunta: “Que está escrito na lei? Como lês?”  Perceba que são duas perguntas distintas. A primeira tem caráter objetivo. Trata-se da letra fria da lei. O que está escrito, está escrito. Não há o que tirar, nem por. Mas, a segunda pergunta tem caráter subjetivo: Como lês?

Não basta saber o que as Escrituras dizem sobre este ou aquele assunto. Devemos nos perguntar “como” as temos lido.  Pode-se usar textos isolados da Bíblia para justificar qualquer coisa, desde estupro até genocídio. Tudo vai depender de como a lemos. Há quem a leia para justificar seus preconceitos, suas opiniões, sua ideologia. Experimente lê-la contra si mesmo em vez de contra o seu próximo. Deixemos que ela nos confronte antes mesmo de nos confortar. Leiamos a partir de Jesus e não de nossos pressupostos. 

A resposta dada pelo doutor da lei foi corretíssima. Ele citou de cor os dois principais mandamentos: Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo. O assunto estava encerrado. A resposta estava ali, na ponta da língua. Bastava que ele cumprisse os mandamentos. “Ele, porém, querendo justificar-se a si mesmo, disse a Jesus: E quem é o meu próximo?” (Lc.10:25-37). Em outras palavras, com quem eu realmente devo me importar? A quem tenho a obrigação de amar?
Jesus nunca foi dado a respostas prontas. Ele prefere recorrer a metáforas e parábolas. Assim, Ele fala primeiro à imaginação, depois à razão. 

Aproveitando a presença dos discípulos, Jesus começa a contar-lhes uma estorinha.

Descia um homem de Jerusalém para Jericó, e caiu nas mãos de ladrões que o despojaram, e espancando-o fugiram deixando-o quase morto. Por um acaso, descia pelo mesmo caminho certo sacerdote, que vendo-o naquelas condições, passou direto, sem se importar. Em seguida, vinha um levita (membro de uma das tribos do sul), que ao vê-lo, preferiu se distanciar. Nenhum dos dois se deu o trabalho de acudir o pobre coitado. Nem o profissional do altar, nem o membro da tradicional tribo do sul. Mas, de repente, surge um terceiro elemento. Ao introduzi-lo na história, toda a audiência arregalou os olhos. Um samaritano ia de viagem, e quando o viu, aproximou-se, compadeceu-se, prestou-lhe os primeiros socorros, colocou-o sobre sua cavalgadura, levou-o para uma estalagem, pagou adiantado sua hospedagem e ainda pediu que lhe dessem todo o cuidado necessário, porque quando voltasse de viagem acertaria com eles.

Aquela parábola era uma provocação. Desde quando um samaritano agiria dessa maneira, com mais amor e compaixão do que um sacerdote ou um levita puro-sangue?

Se aquele doutor da lei quisesse herdar a vida eterna, teria que tomar aquele pária como referência.

Os discípulos devem ter ficado com uma pulga atrás da orelha. Não fazia muito tempo eles foram praticamente expulsos de uma aldeia samaritana, e, agora, Jesus contava uma estória em que o herói era ninguém mesmo que um samaritano. Não teria sido melhor se ele fosse o ladrão da parábola?

Pouco tempo depois, Jesus lhes ministrou a segunda dose do remédio anti-preconceito. Mas, dessa feita, não seria uma parábola, mas um fato real, testemunhado por cada um deles.

Havia tantos trajetos que Jesus podia pegar para Jerusalém. Mas, propositadamente, Ele preferia pegar aquele que os fizesse passar por Samaria. Era como se Ele não houvesse aprendido ainda a lição. Numa dessas vezes, passando pelo meio de Samaria, “saíram-lhe ao encontro dez homens leprosos, os quais pararam de longe; e levantaram a voz, dizendo: Jesus, Mestre, tem misericórdia de nós. E ele, vendo-os, disse-lhes: Ide, e mostrai-vos aos sacerdotes” (Lc.17:11-18).

Aqueles leprosos não se atreveram a se aproximar de Jesus porque a lei os impedia. Um passo além do permitido, eles deveriam ser apedrejados até a morte.  Jesus ordena que se apresentem aos sacerdotes. Enquanto caminhavam, a lepra desapareceu de seus corpos. De acordo com o preceito, somente os sacerdotes poderiam autorizá-los a voltar ao convívio social depois de constatar a sua cura. Mas no meio do caminho, um deles resolveu voltar, pois se lembrou de que, por ser samaritano, os sacerdotes não o receberiam no templo. Os outros nove prosseguiram, pois eram judeus. Estando todos leprosos, não havia distinção entre eles. Mas, uma vez curados, a distinção étnica veio à tona. Antes, eram todos leprosos. Agora, eram nove judeus e um samaritano. Enquanto os noves se dirigiam aos sacerdotes, aquele samaritano resolveu voltar a Jesus. A princípio, alguém poderia achar que ele estava desobedecendo a uma instrução clara dada por Jesus. Mas como ele poderia se dirigir aos sacerdotes sabendo que não seria recebido? Da mesma maneira, quantos adorariam ir a uma igreja, mas não vão porque sabem que serão rejeitados? Quantos 'sacerdotes' atuais se disporiam a acolher os diferentes, os excluídos, vítimas de nossos mais entranhados preconceitos? Algumas igrejas até se propõem a fazer trabalhos sociais e evangelísticos, visitando cadeias, cracolândias, bolsões de miséria, zonas de prostituição, mas não estão dispostas a receber em suas dependências elementos oriundos desses ambientes fétidos. Que procurem, então, uma igreja com o seu perfil! Daí surgirem igrejas dedicadas a certos segmentos geralmente abominados pelas demais. Triste constatação. 

Quando aquele ex-leproso (mas não ex-samaritano) chegou a Jesus, prostrou-se e o adorou em gratidão por sua cura. Ele não foi curado de sua condição de samaritano. Não há e nunca haverá ex-samaritanos. Mas ele foi curado de sua lepra. Assim como podemos ser curados de feridas abertas pelo preconceito.

Os nove obedeceram, mas não voltaram para agradecer. O samaritano desobedeceu porque não era possível ser recebido no templo, mas voltou para agradecer. Nem tudo se resume a obedecer ou desobedecer. A vida é mais complexa do que nosso fundamentalismo nos permite perceber. 

Continua em breve.